O não-lugar: casas reconstruídas, lares em ruínas
- Eduardo de Queiroz, Laura Avelar e Viviane Barcellos
- 16 de jul.
- 6 min de leitura
Atualizado: 31 de jul.
Reassentamentos de Novo Bento Rodrigues e Paracatu desafiam a identificação e o pertencimento das comunidades atingidas com os novos territórios.

Ouça na íntegra:
O lar é lugar, onde buscamos segurança e fixamos nossas raízes. O que existe para além deste lugar é espaço, que desejamos desbravar. Tanto o lugar quanto o espaço são necessários para a construção da identidade e da maneira como nos relacionamos com o mundo. O desastre-crime do rompimento da barragem de Fundão deslocou comunidades inteiras para longe de seus territórios de origem. Para longe dos lugares em que desenvolveram seus modos de viver, laços afetivos e uma comunidade. Para longe de seus lares.
O encontro com o reassentamento do Novo Bento Rodrigues parece, logo na entrada, a experiência de chegar a um grande condomínio fechado e urbano. As casas, construídas para parecerem enormes e espaçosas, podem ser vistas ainda da estrada. Um grande campo de futebol com arquibancadas revela que o principal, a grama, até hoje não foi formada. As ruas são praticamente vazias, para além dos funcionários que ainda trabalham na construção das últimas casas e comércios não entregues. Logo de início surge a nova Capela de São Bento, identificável apenas pela cruz colocada em sua torre. A igreja original permanece em ruínas no devastado distrito de Bento Rodrigues, aproximadamente 12 km à frente. Seguimos até lá.
Foto: Eduardo de Queiroz
Ao chegar, encontramos um espaço essencialmente rural, de natureza viva. Um rebanho de cabras andava livremente pela rua. Nos aproximamos de uma casa antiga, em um trecho onde o rejeito não conseguiu alcançar. Um galinheiro, cavalos, cachorros e gatos. Na casa que abriga a sede do “Loucos pelo Bento”, aconteciam os preparativos para o almoço. Fogão a lenha, todo mundo junto na cozinha, cada um em sua função. Juntos.
A partir dali, caminhamos pelas ruínas da região destruída. A capina da estrada, ainda margeada por imensas camadas de rejeito, é feita para que as ruínas não desapareçam e o mato não apague a história. O lugar parecia dizer, pelos vestígios do que um dia esteve ali, sobre a tranquilidade e o afeto comunitário que ainda respiram no que resta. Caminhando sobre o rejeito, observamos as portas e janelas que sobraram, já que muitas foram saqueadas, os azulejos, os muros baixos e as grades abertas de um lugar que ainda parecia convidar à permanência.
Rua da entrada de Bento Origem. Foto: Eduardo de Queiroz
A disparidade entre os dois espaços aparece nas casas robustas, nos muros altos que fragmentam o laço comunitário, na declividade e má qualidade do solo que dificultam o cultivo e na ausência de áreas de convivência no reassentamento. As características do novo território impossibilitam que a comunidade mantenha a relação que antes possuía com a terra e seus modos de vida.
Para Monique Sanches Marques, professora de Arquitetura na UFOP que trabalha com as comunidades atingidas de Mariana, essa discrepância se exemplifica também na estrutura interna das casas. Segundo ela, a casa predominante no Bento Origem “não é a casa do corredor, tripartida, burguesa, que vai setorizar social, íntimo e serviço. Você tem uma grande sala. Os quartos se abrem entre essa grande sala, que é meio que uma praça das relações familiares e etc. Quando eu chego nos reassentamentos, é uma casa neoliberal, toda setorizada.”
A Samarco (Vale e BHP) projetou os reassentamentos em Novo Bento e Paracatu como forma de reparação do direito à moradia dos atingidos que tiveram seus lares e outros imóveis destruídos pelo rejeito em Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, respectivamente. Esse direito é reconhecido tanto pela Constituição Federal de 1988 quanto pelas próprias plataformas oficiais referentes à reparação na Bacia do Rio Doce. No entanto, as necessidades e subjetividades das comunidades atingidas não foram respeitadas.
Entre as opções de reassentamento e indenização havia o reassentamento coletivo, o reassentamento familiar, a reconstrução e a pecúnia. O reassentamento coletivo é o deslocamento da comunidade para a região onde será construída uma nova infraestrutura habitacional, enquanto o familiar recorre quando os moradores solicitam a compra de um imóvel por intervenção da empresa. A reconstrução seria a restauração do terreno original, já a pecúnia é a indenização em dinheiro. Novo Bento e Paracatu se configuram como reassentamento coletivo.
O terreno de Lavoura, nome original do atual Novo Bento Rodrigues, recebeu 92% do total dos votos da comunidade em votação que definiria o local onde seria estabelecido o reassentamento de Bento Rodrigues. No entanto, esse processo participativo é cooptado por múltiplos fatores externos.
As opções de lote foram avaliadas pela própria Samarco, uma delas (Bicas) sendo inclusive propriedade da empresa. O processo, extremamente burocrático, envolve o projeto de infraestrutura, loteamento, o modelo das moradias e etc. Esses elementos existem num contexto da economia do crime, onde há uma especulação imobiliária e interesses econômicos que negligenciam as necessidades dos atingidos. A distância entre os terrenos, o território original e a sede do município também influenciam a decisão dessa comunidade.
Quando o território deixa de existir
Para geógrafos como Milton Santos, o território é uma construção social formada pela memória compartilhada e pelas práticas que organizam a vida coletiva. Já Rogério Haesbaert discute a desterritorialização como o processo em que comunidades deslocadas perdem suas referências econômicas, sociais e simbólicas fundamentais para sua identidade.
Pensando nos reassentamentos de Novo Bento e Paracatu, a mudança das famílias para novas casas, absolutamente diferentes das que viviam, reorganiza o espaço de moradia e altera profundamente relações antes construídas em torno da terra, da água, da produção agrícola, da vizinhança e da autonomia.
Luzia Queiroz, representante de Paracatu de Baixo na Comissão dos Atingidos e Atingidas pela Barragem de Fundão, está há dois anos com as chaves da casa no reassentamento de Paracatu. O imóvel foi entregue, os móveis foram comprados, mas, para ela, a promessa de reconstrução nunca alcançou sua expectativa de lar.
“Eles devolveram a casa do jeito que eles quiseram pra mostrar, é aquele ditado: para inglês ver.”

Ela descreve problemas estruturais persistentes, que, em vez de solucionados, são mascarados por reparos superficiais. “Tudo deles é espuma expansiva. Até nos muros. Eles remendam, tampam, aí depois na hora que você passa a tinta, você pensa: Ah, arrumou mesmo. Arrumou nada. O trem não dura nem um ano.”
A falta de pertencimento também atravessa sua experiência: “Morar e residir são duas coisas diferentes. Hoje eu resido em três lugares, mas não moro em lugar nenhum (...) E morar mesmo é aqui [na casa na sede de Mariana], em que eu recebo meus netos, minhas irmãs ainda vêm.”
Ao refletir sobre o que perdeu, Luzia associa o rompimento à fragmentação de uma forma de viver: “Minha vida hoje é outra, e eu queria a minha vida de antes. Eu era muito mais feliz com a minha vida antes da tragédia.”
Manoel Marcos Muniz, integrante da CABF, espera há mais de dez anos pela casa no reassentamento de Novo Bento e viu a promessa de retorno ao território se transformar em um processo longo, burocrático e desgastante: “Era cansativo e levou muito tempo, houve muitas questões que não conseguia resolver com quem estava ali (...) E eu digo para vocês, o cansaço depois que termina… Eu preferia estar carregando um caminhão de areia.”
Marcos descreve uma vida suspensa, paralisada pela ausência daquilo que deveria representar reparação. “São dez anos e meio de vida parada. Eu não digo vida perdida: vida parada! Porque existe a luta, mas é muito tempo vivendo em função do rompimento da barragem.”
Mauro Marques da Silva, também membro da CABF, é mais um atingido que ainda não se mudou para sua casa no reassentamento. Bento Origem permanece como referência central de pertencimento e destino. “Eu me vejo me dividindo entre Mariana, Novo Bento e o Bento de origem. No futuro, não muito distante, pretendo me estabelecer mais no Bento de origem do que em Mariana e no reassentamento. Como eu falei, pode-se construir um palácio de ouro em qualquer outro lugar, mas o Bento para mim é essencial. Não abro mão de jeito nenhum.”

A experiência de seu pai, Filomeno da Silva, revela outra dimensão de ruptura. Mauro conta: “Ele tinha mais expectativa em limpar o rejeito da origem.” O sonho idealizava a recuperação do território perdido. Quando visitou o imóvel em construção, em uma de suas últimas idas ao reassentamento, o pai declarou: “isso aqui não é para mim não, isso aqui é para vocês, para os netos.”
Filomeno morreu em 2025, sem receber a casa no reassentamento. Lembrando do pai, Mauro também conta das perdas da comunidade: “na última terça-feira [05 de maio], inteirou 90 pessoas que se foram [morreram após o desastre] só de Bento.”
A violência com as comunidades atingidas atravessa o rompimento da barragem de Fundão e se repete em processos como a própria reparação. Mesmo que as casas no reassentamento não apresentassem problemas técnicos ou estruturais, ainda seriam inapropriadas, pois é um projeto arquitetônico que desconsidera tradições, subjetividades e a identidade de uma população rural. Uma casa é, para além de uma construção, um sistema de espaços que propiciam relações afetivas, familiares, comunitárias e produtivas.





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