21ª CineOP reacende alerta para preservação e memória audiovisual no país
- Gisele Santoli, Joyce Campolina e Júlia Quedevez
- 28 de jun.
- 15 min de leitura
Atualizado: 9 de jul.
Com mostras de filmes, oficinas de preservação e bate-papos com especialistas, o evento tem como tema “Um país existe nas imagens que preserva”.

Entre os dias 25 e 30 de junho, Ouro Preto recebe a 21ª edição da CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto. Com o tema “Um país existe nas imagens que preserva”, o evento promove uma discussão importante a respeito da representatividade feminina no audiovisual e ainda homenageia a cineasta Helena Solberg. A mostra reúne também pesquisadores nacionais e internacionais, restauradores, cineastas, educadores e gestores culturais para discutir os desafios da preservação audiovisual no Brasil e o papel dos arquivos na construção da memória coletiva.

Com a paisagem tombada e inúmeros monumentos arquitetônicos que contam histórias, a cidade de Ouro Preto é considerada Patrimônio Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) desde 1980. Porém, a preservação de bens culturais na região dos inconfidentes não acaba naqueles que podemos tocar. E a CineOP é a maior prova disso.
Ao longo de duas décadas, o evento se consolidou, segundo o Ministério da Cultura, como o principal espaço brasileiro dedicado ao debate sobre preservação audiovisual, história e educação no cinema. Nesta edição, a programação inclui debates, oficinas, masterclasses e exibições que abordam desde a restauração de acervos históricos até os impactos da inteligência artificial e das novas tecnologias sobre a memória digital. Em um cenário marcado por perdas irreparáveis de patrimônios culturais e audiovisuais, a mostra retoma uma questão central para o setor: o que o Brasil perde quando perde seus arquivos?
Preservar imagens é preservar histórias

Quando se fala em patrimônio cultural, é comum que a memória remeta imediatamente a igrejas centenárias, monumentos, casarões antigos, documentos históricos ou obras de arte. No entanto, existe outro patrimônio igualmente importante e, muitas vezes, invisível aos olhos da sociedade: o audiovisual. Filmes, fotografias, registros sonoros, vídeos e gravações documentam modos de vida, manifestações culturais, acontecimentos políticos e transformações sociais que ajudam a contar a história de um território
Raquel Hallak, coordenadora geral da Universo Produção, empresa responsável pela realização da CineOP, afirmou que esse foi um dos incentivos para criarem a mostra. “É um legado que nós estamos construindo nessas duas décadas de atuação, reafirmando a importância da memória audiovisual como parte essencial na construção de um país.
"A partir dessas imagens preservadas, guardamos nossas histórias, modos de vida, saberes e afetos que ajudam a compreender quem somos, de onde viemos e quem queremos ser."
Afirma Raquel Hallak, coordenadora da CineOP.
Essa discussão a respeito da preservação audiovisual não é de hoje, visto que ainda é possível assistir ao primeiro filme exibido para a humanidade, de acordo com Academia Internacional de Cinema. O filme é “A Chegada do Trem na Plataforma”, dos Irmãos Lumiére. No entanto, segundo a mesma academia que tem sede em São Paulo, apesar de datado do século XIX, foi o século XX que ficou marcado pela consolidação do cinema como uma das principais formas de registrar a história. O século XXI ampliou esse protagonismo com a produção constante de imagens e vídeos em plataformas digitais.
No Brasil, a criatividade aflorou durante a “Idade de Ouro". De acordo com a jornalista Clarice Pacheco, mestre em História pela UFBA, nessa época foram produzidos mais de cem filmes nacionais. Sobre isso, o preservador audiovisual e oficineiro da mostra, Marco Dreer, provoca:
"O audiovisual é tão ou mais importante do que os documentos tradicionais."
A historiadora e museóloga Valéria Sávia Tomé França, doutora em preservação do patrimônio e arquitetura e responsável pelo setor de restauro da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP), reforça que a preservação do audiovisual ainda enfrenta um desafio de valorização no Brasil, quando comparada a outros tipos de patrimônio. “São acervos mais delicados, e é muito importante que iniciativas como a CineOP tragam essa discussão sobre a preservação do audiovisual brasileiro”, afirma.
Já Fabíola Cavalcanti, a produtora cultural e oficineira da CineOP, afirmou que não importa o que você é, ou o que está preservando, e sim, preservar porque esses arquivos, mesmo que não sejam famosos, com certeza serão importantes para alguém no futuro, nem que seja para você mesmo relembrar da sua própria história. “Você tá passando isso à frente. Então, não importa o objeto. O preservar é isso, [...] cada um conta uma história e colabora com a história que a gente está vivendo hoje. Você está preservando uma história, você está preservando uma cultura da época, uma história da época”, conclui.
O risco do esquecimento

A preservação audiovisual passou a ocupar um espaço mais central no debate público brasileiro após episódios que evidenciaram a vulnerabilidade dos acervos culturais do país. Em 2018, o incêndio que atingiu o Museu Nacional, no Rio de Janeiro, destruiu parte significativa de um dos mais importantes conjuntos científicos e históricos da América Latina. Três anos depois, um novo alerta veio com o incêndio nas instalações da Cinemateca Brasileira, responsável pela guarda de parte expressiva da memória cinematográfica nacional.
Para a historiadora Valéria França, a questão também se manifesta na realidade local. Um dos casos mais marcantes, segundo ela, ocorreu no antigo prédio do Fórum de Ouro Preto, na Praça Tiradentes, que posteriormente abrigou o Centro Acadêmico da Escola de Minas (CAEM). “Ali foi terrível, uma grande perda documental pra gente”, relata. O local abrigava grande parte das escrituras e outros documentos referentes ao poder judiciário da região.
Além desse episódio, outros incêndios atingiram edificações históricas da cidade ao longo das últimas décadas, como o Hotel Pilão, em 2003, e a República Baviera, em 2007. Além dos danos à arquitetura, os episódios representaram perdas documentais e memoriais, comprometendo parte da história preservada nesses espaços.
Entre os capítulos mais simbólicos do apagamento do audiovisual está o da extinta TV Tupi, pioneira da televisão latino-americana. Grande parte de sua programação desapareceu em razão do reaproveitamento de fitas e da ausência de políticas sistemáticas de preservação, privando pesquisadores e o público de registros importantes da história da comunicação brasileira.
Recuperar para não repetir

A perda de registros da emissora, principalmente durante a ditadura militar, também integra a trajetória profissional do restaurador José Maria Lopes. Conhecido como o “guardião da memória do cinema e da televisão brasileira”, que trabalhou na TV Tupi durante o período do Golpe de 64 e era responsável por executar os cortes determinados pelos censores.
Lopes conseguiu preservar parte desse material com imagens raras da história política brasileira. “Eu consegui recuperar as imagens de todos os presidentes do Brasil. Tenho um documentário com imagens da ditadura até a posse do Sarney. É um material raro”, afirma sobre o filme que ainda não foi exibido publicamente. Para ele, a preservação desses acervos é fundamental para que as novas gerações “compreendam a própria história do país e que ela não se repita”.
Para o restaurador audiovisual, também vice-presidente da Associação Brasileira dos Museus da Imagem e do Som, os riscos enfrentados pelos acervos, no entanto, vão muito além da escassez de recursos financeiros. Há dificuldades relacionadas à identificação dos materiais, às condições inadequadas de armazenamento e à falta de profissionais capacitados para lidar com diferentes suportes audiovisuais.
“A gente sabe que o país inteiro tem acervos que estão apodrecendo”, afirma. “Todos os museus da imagem e do som têm problemas de preservação, de reconhecimento do material e têm pouca gente para trabalhar com isso”, desabafou Lopes, que participa da programação da CineOP como oficineiro.
Com quase cinco décadas dedicadas à recuperação de filmes e registros históricos, José Maria, carinhosamente chamado de Zé Maria, afirma que boa parte de seu trabalho consiste em resgatar materiais encontrados em condições precárias de conservação. Um dos casos mais marcantes ocorreu em Belo Horizonte, durante a análise do acervo da produtora Pimentas Filme. Na ocasião, centenas de latas com registros históricos estavam armazenadas sem qualquer cuidado de preservação e já apresentavam sinais de deterioração.
“Fiquei dois dias lá e, nesse período, abri cerca de 300 latas. Você nem imagina o que tinha ali da história de Minas Gerais”, relata. Entre os materiais encontrados estavam imagens raras de Belo Horizonte e registros de figuras históricas como Juscelino Kubitschek quando ainda era prefeito da capital mineira.
Mesmo após a descoberta, o restaurador denuncia que parte significativa da memória audiovisual brasileira permanece vulnerável, muitas vezes guardada em condições inadequadas e longe do conhecimento público. “A preservação muitas vezes não é prioridade, e aí, você se torna o médico da família, você quer salvar de qualquer maneira. E a gente sempre se surpreende, é bonito demais”, resume.
Se a perda de documentos apaga pedaços da história, a restauração mostra que nem toda memória está fadada ao esquecimento. Os avanços tecnológicos ampliaram significativamente as possibilidades de recuperação de materiais considerados irrecuperáveis há algumas décadas. Scanners especializados, ferramentas digitais e sistemas de restauração permitem restaurar imagens deterioradas, estabilizar filmes danificados e recuperar sons comprometidos pela ação do tempo.
Poucas pessoas conhecem tão bem a importância desses mecanismos quanto a cineasta Lúcia Murat. Homenageada da 21ª CineOP, ela revelou que seu primeiro filme, o média-metragem “O Pequeno Exército Louco”, realizado na Nicarágua nos anos 1980, teve os negativos perdidos ao longo do tempo.

A obra só conseguiu ser recuperada recentemente graças a um processo de digitalização realizado com apoio da Cinemateca Brasileira e de instituições parceiras internacionais. “Os negativos sumiram. E recentemente eu consegui fazer uma digitalização com apoio da Cinemateca Brasileira e de parceiros da Espanha. Ficou muito boa”, conta.
Já “Que Bom Te Ver Viva" (1989), seu primeiro longa-metragem e um dos principais registros cinematográficos sobre as sobreviventes da ditadura militar brasileira, teve destino diferente. Os negativos permaneceram preservados no Arquivo Nacional e puderam ser digitalizados décadas depois, garantindo a permanência da obra para novas gerações. “Vinte anos depois, a película estava perfeita. Era só dar uma lavadinha”, relata a diretora.
Para Murat, iniciativas como a CineOP desempenham papel fundamental ao colocar a preservação e a memória no centro das discussões culturais em um país que não prioriza a conservação de seus arquivos. E “ter um festival que incentiva isso pode fazer com que a gente consiga mais recursos para preservar a nossa história”, celebra.
Uma provocação ao tempo

Segundo a produtora cultural, advogada e oficineira do CineOP, Fabíola Cavalcanti, também presente nas oficinas de preservação do evento, a discussão ultrapassa os aspectos técnicos e institucionais. Ela acredita que a perda de arquivos também representa um rompimento afetivo com histórias, pessoas e experiências que ajudam a construir a identidade individual e coletiva.
Ela recorda uma reflexão da avó, que costumava dizer que uma das coisas mais tristes da vida era deixar de reconhecer o rosto de pessoas importantes. “Você lembra da pessoa, mas chega uma hora em que já não reconhece mais o rosto dela. As fotografias e os filmes preservam isso”, diz.
Na avaliação de Fabíola, a perda de um acervo se assemelha ao desaparecimento das fotografias de uma família. Mais do que documentos, esses registros guardam histórias, afetos e referências que ajudam as pessoas a compreender suas próprias origens. “Quando você olha fotos e vídeos antigos, acaba se reconhecendo também. Entende de onde vêm certas características, certos hábitos. Quando isso se perde, é uma parte da história que desaparece junto”, se emociona.
Por isso, a especialista defende a ampliação de ações de formação e conscientização sobre a linguagem audiovisual.
"É preciso formar o público para compreender a importância desses materiais. O audiovisual nem sempre é algo palpável, mas ele guarda memórias fundamentais da nossa história."
Garimpando películas
Apenas no acervo da Cinemateca Brasileira, de acordo com seu site oficial, existem por volta de 60 mil títulos em preservação. Muitos desses, e de outros acervos, ainda não chegaram a ser explorados pelos cineastas devido à burocracia judicial. “Isso é um dos maiores desafios, eu acho que é você lidar, entender, como trabalhar os direitos. A gente tinha o desafio de conseguir a liberação tanto das imagens quanto musical. Então, é um desafio você lidar financeiramente com essa questão dos licenciamentos, dos direitos, das obras”, desabafa Fabíola.
Os direitos autorais não são um problema único de Fabíola. O filme selecionado para o CineOP, “Apocalipse Segundo Baby”, em que o diretor Rafael Saar acompanha Baby do Brasil, a ex-vocalista do grupo musical Novos Baianos, levou 17 anos para ser produzido devido à demora para conseguirem o financiamento necessário. “Porque para poder acessar, principalmente esses acervos funcionais, precisa de dinheiro [...] e sem dinheiro você não faz esse movimento.”, explica Rafael.

Essa produção, além dos arquivos preservados entre os anos de 2009 a 2026, exigiu uma pesquisa intensa por outros durante a década de 60, entre shows, entrevistas e filmes perdidos da cantora. "Era [o desafio de] contar uma vida muito filmada. Então tem arquivos maravilhosos, mas tudo muito disperso. Ela não tinha isso organizado.", conclui Rafael.
No entanto, essa busca nem sempre é bem sucedida devido à falta de preservação “A gente buscou muito [um filme perdido da cantora] e não existe em lugar nenhum, mas você ouvir dela o relato, a própria oralidade, é uma forma de preservar também essa história”, conclui.
CineOP, onde a memória audiovisual se encontra
A origem da CineOP remonta à própria experiência da Universo Produção, responsável também por outras mostras de cinema. Segundo a coordenadora geral do evento, Raquel Hallak, a equipe percebeu que a dificuldade de localizar cópias, identificar detentores de direitos e verificar as condições de exibição de filmes antigos revelava um problema urgente: a necessidade de discutir a preservação do patrimônio audiovisual brasileiro.

“Quando a gente exibia algum filme de retrospectiva, tinha muita dificuldade de saber quem era o dono daquele filme, como estava a cópia e quais eram as condições de exibição. Foi aí que percebemos a importância de falar sobre a necessidade de preservar aquilo que estava sendo registrado”, explica.
Nesta edição, a programação reúne 135 filmes de 10 países e 18 estados brasileiros, além de debates, oficinas e encontros voltados à preservação de acervos. Entre as atividades está o Encontro Nacional de Arquivos e Acervos Audiovisuais Brasileiros, que reúne representantes de instituições de guarda de todo o país para discutir estratégias de conservação e políticas públicas para o setor.
Além da articulação entre especialistas, a mostra também aposta na formação de público. O programa Cine-Escola leva mais de 3 mil estudantes de 22 escolas de Ouro Preto e distritos para atividades gratuitas, aproximando novas gerações da discussão sobre memória e patrimônio cultural.

Confira a programação da Cineop no link.
Desafios na Era Digital

Embora a digitalização tenha ampliado as possibilidades de armazenamento e acesso aos acervos audiovisuais, ela também trouxe novos desafios para a preservação. Discos rígidos possuem vida útil limitada, formatos digitais tornam-se obsoletos com rapidez e plataformas de armazenamento podem deixar de existir, colocando em risco materiais que, muitas vezes, não possuem cópias de segurança adequadas.
O preservador audiovisual e oficineiro da CineOP, Marco Dreer, explica que a preservação de arquivos audiovisuais digitais é mais complexa do que a de documentos tradicionais, como textos e fotografias, porque “eles têm elementos sonoros e visuais em conjunto e geralmente eles são muito mais pesados”. Outro problema é a falta de contextualização, pois “sem informações como data, responsáveis pela gravação e contexto de produção, os materiais podem se perder em meio ao acervo digital”, conclui.
A discussão ganha ainda mais relevância diante da crescente utilização da Inteligência artificial e da concentração de dados em grandes empresas de tecnologia. O avanço dessas ferramentas levanta questionamentos sobre quem controla, armazena e define o acesso aos conteúdos culturais produzidos hoje, o que impacta diretamente a preservação da memória audiovisual.
Nesse cenário, o debate proposto na programação da CineOP se torna ainda mais atual ao abordar temas como memória audiovisual, soberania digital e o controle dos dados culturais, como a roda de conversa “Memória audiovisual, IA e soberania digital: Quem controla os dados, controla o futuro?”.
Para a preservadora audiovisual e oficineira da CineOP Fabíola Cavalcanti, a preservação da memória depende de políticas públicas consistentes e de uma maior valorização desses acervos. Segundo ela, sem investimento e planejamento institucional, grande parte desse patrimônio pode se perder ao longo do tempo, mesmo em ambientes digitais.
Foi apenas em 2025 que o Governo Federal instituiu o Programa de Preservação do Audiovisual Brasileiro (Portaria MinC nº221), em uma iniciativa que busca estruturar de melhor forma as políticas de preservação de acervos e obras audiovisuais no país. O programa prevê a criação de uma rede nacional de arquivos e de um inventário para identificação, registro e mapeamento de materiais com valor histórico, artístico e etnográfico, além de estimular a articulação entre instituições públicas e privadas.
Apesar do avanço institucional, a implementação tardia dessa política evidencia um déficit de atenção político e econômico no que tange o audiovisual brasileiro e a sua preservação. Segundo a Empresa de Cinema e Audiovisual de São Paulo S.A. (SPCINE), o setor audiovisual nacional contribui com cerca de R$23,19 bilhões para o Brasil (PIB). Apesar dos altos números, o setor ainda não atingiu o nível de prioridade esperado na cúpula nacional. Para a cineasta Lúcia Murat, o problema é claro, já que no Brasil, “infelizmente, a gente não se preocupa com preservação e não se preocupa com a memória.”
A representatividade feminina no audiovisual brasileiro

Nesta 21ª edição da CineOP, a homenagem à cineasta Helena Solberg chama a atenção também para a trajetória das mulheres no audiovisual e os desafios enfrentados por gerações de diretoras em um setor historicamente marcado pela presença masculina à frente das produções. Única mulher a integrar o grupo que deu origem ao Cinema Novo, Solberg dirigiu filmes que abordam a vida feminina e discutem temáticas sociais e políticas.
Nascida no Rio de Janeiro em 1938, Helena Solberg iniciou sua trajetória no cinema durante a década de 1960 e seu primeiro curta-metragem, A Entrevista (1966), já apresentava temas que permaneceriam em toda a sua filmografia, como o cotidiano e os papéis sociais impostos às mulheres. Após o golpe militar de 1964, mudou-se para os Estados Unidos, onde dirigiu documentários voltados para as transformações políticas e sociais da América Latina, consolidando sua carreira internacional. Entre suas principais obras estão The Emerging Woman (1974), Das Cinzas... Nicarágua Hoje (1982), Carmen Miranda: Bananas Is My Business (1995) e Vida de Menina (2004).
A presença feminina na direção do cinema em nosso brasileiro foi marcada por barreiras que, durante décadas, dificultaram ou impossibilitaram o acesso a espaços de atuação atrás das câmeras. Mesmo assim, diretoras como Ana Carolina, Suzana Amaral, Lúcia Murat, Laís Bodanzky e Anna Muylaert construíram carreiras de destaque e assinaram filmes que se tornaram referências no cinema nacional.
Mar de Rosas (1977), de Ana Carolina, A Hora da Estrela (1989), Suzana Amaral e Que Bom Te Ver Viva (1989), Lúcia Murat, Bicho de Sete Cabeças (2001), Laís Bodanzky, e Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert são apenas alguns exemplos de como, em diferentes épocas, cada uma delas abriu caminho para que outras mulheres também conquistassem espaço na direção cinematográfica.
Porém, apesar dos avanços, a desigualdade de gênero ainda é uma realidade no campo audiovisual. Dados do Anuário Estatístico do Audiovisual Brasileiro (Ancine, 2024) mostram que, embora a televisão seja o segmento que mais emprega no setor, as mulheres ocupam menos de 42% dos postos de trabalho. A participação feminina é ainda menor nos cargos de direção, criação e gestão, tradicionalmente ocupados por homens, e a desigualdade salarial é notável, com uma diferença de 11% em relação ao salário masculino.
Ao colocar esse debate em evidência, a CineOP aumenta a discussão sobre preservação para além dos acervos e das obras, ela também evidencia a importância de preservar as trajetórias de quem fez e continua fazendo o cinema brasileiro. Assim, reconhecer a trajetória de diretoras pioneiras e incentivar novas realizadoras é um passo importante para que o audiovisual brasileiro siga se reinventando.


























































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