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A insegurança que persiste e a memória levada pela enchente

Ana Clara Coelho, João Elias Gil e Rayssa de Jesus.
há 3 horas
9 min de leitura

Atualizado: há 5 minutos

Moradores do Barro Preto sofrem ao ouvir chuvas. O medo de alagamentos e enchentes assombram moradores há anos. 


O risco de fortes temporais em Mariana tem tirado o sono da população.  Na cidade, o bairro Barro Preto é um dos pontos mais críticos em relação a alagamentos. Em 2023, a região sofreu com o transbordamento de um córrego que provocou a inundação de algumas casas e comércios. Moradores precisaram ser retirados dos imóveis, incluindo pessoas acamadas e idosos.

#ParaTodosVerem: Em primeiro plano, há uma rua de concreto molhada pela chuva, duas pessoas em pé próximas e um cachorro. Ao fundo, há casas de diferentes tamanhos, com paredes brancas, azuis e de tijolos, árvores, vegetação, postes e vários fios elétricos atravessando a parte superior da imagem.
Moradores da Travessa Monsenhor Rafael Coelho convivem com o medo e apreensão a cada gota de chuva que cai |  Foto: João Elias Gil

Um bairro marcado pela enchente 

No dia 6 de janeiro de 2026, foi inaugurada  uma bacia de contenção e amortecimento próxima à Travessa Monsenhor Rafael Coelho, localizada no Barro Preto. O  projeto visava resolver o problema dos alagamentos e enchentes que afetam a cidade há anos.


Conforme declaração concedida pelo engenheiro Bruno Cota, representante da Secretaria de Obras, no dia da inauguração da bacia, o sistema deveria funcionar da seguinte forma:


"A montante da bacia, temos trilhos que fazem a contenção de materiais sólidos, impedindo entupimentos na galeria que vai até o Ribeirão do Carmo. Já a jusante, na parte de baixo, temos uma galeria que faz o amortecimento de toda a rede pluvial; quando há uma chuva de intensidade, ela diminui a vazão da água que chega ao rio", explicou para a Agência Primaz.


#ParaTodosVerem: Em primeiro plano, há uma área de concreto com água acumulada e uma abertura retangular escura em uma estrutura de concreto. Ao fundo, há um muro de pedras, vegetação, tubos brancos e casas de diferentes tamanhos, com uma montanha ao fundo.  // Foto: João Elias Gil
Obra da Bacia de Contenção e Amortecimento foi inaugurada incompleta em janeiro de 2026. Segunda etapa do projeto só deverá iniciar em 2027 |  Foto: João Elias Gil

No dia 24 de janeiro deste ano, apenas 18 dias após a inauguração do projeto da bacia de contenção, Mariana sofreu com alagamentos e enchentes. Conforme o portal G1, uma chuva intensa de 30 mm em 30 minutos, deixou pessoas ilhadas em alguns pontos do município. 


No Barro Preto, mesmo após a recente inauguração da bacia, moradores viveram novamente uma situação de insegurança, o que evidenciou o problema de uma obra entregue com pendências em sua estrutura.

Em entrevista à nossa reportagem, o prefeito Juliano Duarte justificou o atraso na segunda fase do projeto por limitações orçamentárias, mas garantiu a retomada das obras. Segundo o chefe do Executivo municipal, a recuperação das finanças locais foi viabilizada pelo repasse de R$200 milhões, recurso vindo da adesão do município ao acordo de reparação pelo rompimento da barragem de Fundão.


O prefeito destaca a sua expectativa em um alcance de 100% de eficiência da bacia após as obras. Em sua declaração, definiu que o início da finalização do projeto está estipulado para março de 2027. 


Juliano Duarte fala sobre a bacia de contenção

Ato de resistência

Há moradores resistindo à vida no bairro. Nozinho Cezario Ramos, 60, morador da Travessa Monsenhor Rafael Coelho, destaca a sua insegurança em períodos chuvosos, onde a sua casa é constantemente afetada por enchentes: “A minha casa, por dentro dela, está marcada de risco de enchente ainda.”


#ParaTodosVerem: Em primeiro plano, um homem negro idoso está de pé, usando boné preto, camiseta branca com a fotografia de duas pessoas estampada na parte frontal e calça escura. Ao fundo, há uma parede bege, uma janela com grades, uma porta azul, fios elétricos e parte de uma cadeira branca. Texto na imagem: "Saudades Eternas".
Seu Nozinho, morador da travessa já perdeu móveis, carros e relíquias de sua família nas enchentes que invadiram sua casa|  Foto: João Elias Gil

Para Nozinho, há bens materiais irrecuperáveis. As enchentes levaram itens importantes para manter viva as  lembranças de sua falecida mãe. Em sua declaração ele se emociona, pois auxílio nenhum será suficiente para recuperar tais perdas. 

Em primeiro plano, Seu Nozinho, um homem negro idoso está de pé em frente a uma parede, usando boné preto, camiseta branca com uma estampa de duas pessoas, calça preta e chinelos, com um dos braços estendido lateralmente. Ao fundo, há uma fachada branca e azul, uma porta aberta, uma árvore e parte de uma área interna. Texto na imagem: "431".
Seu Nozinho relembrando a altura em que estava a água quando invadiu sua casa e precisou deixá-la às pressas|  Foto: João Elias Gil


O morador considera importante a bacia de contenção, pois se não fosse por ela, as tragédias poderiam ser ainda maiores. Entretanto, Nozinho reforça a necessidade dos reparos, pois muitos de seus vizinhos ainda enfrentam problemas severos em tempos chuvosos.


Nozinho conta sobre as lembranças de sua mãe

Por conta própria, os moradores encontraram uma forma de acompanhar o nível da água: um buraco aberto no chão por causa da chuva, hoje coberto por uma grade. Essa foi a maneira encontrada pela vizinhança para monitorar o nível da água acumulada abaixo da rua. 




#ParaTodosVerem: Em primeiro plano, há um buraco irregular aberto no concreto, com duas barras de metal enferrujadas atravessadas sobre a abertura, um pequeno tubo azul e uma folha seca amarelada ao lado. Ao fundo, vê-se apenas a superfície de concreto.
Buraco usado como medidor para a comunidade. Ao subir muito as pessoas sabem que precisam deixar suas casas e sair o mais rápido possível, levando embora apenas o essencial e um trauma novo|  Foto: João Elias Gil

Nozinho, ainda se recorda, detalhadamente, das vezes que a água invadiu sua casa e levou os frutos do trabalho de sua família embora, sem nem olhar  para trás, deixando marcas nas paredes e medo nos moradores.


Entretanto, o morador ainda demonstra esperança em um futuro melhor e se recorda das memórias de uma longa vida no bairro, sendo esse um dos motivos para a sua permanência no local. 


Uma mudança irreparável na rotina

A Defesa Civil da cidade realiza o mapeamento das áreas de maior risco por meio do Plano Municipal de Redução de Riscos (PMRR). A partir desse mapeamento, o órgão realiza vistorias técnicas, acompanha as situações identificadas e adota medidas preventivas e de proteção à população, como orientações, notificações e monitoramento. Quando necessário, faz o encaminhamento para ações de intervenção ou retirada preventiva de moradores. 


Edson Ricardo Marques, 42, também morador da Travessa, fala sobre a sua casa interditada pela Defesa Civil por problemas derivados das fortes chuvas.


Morador do bairro há 42 anos, Edson deixará a sua moradia devido ao atraso de uma obra na estrutura da casa, a qual deveria ter sido realizada pela prefeitura. Após ter recebido um laudo da Defesa Civil, com destaque para a gravidade do problema, ele foi orientado a procurar a Secretaria Municipal de Obras. 


“A Defesa Civil faz o trabalho quando é chamada? Sim. Com relação a isso, não tenho a menor dúvida. Elas vão lá, fazem a intervenção e notificam quando precisa. Só que, infelizmente, ela não anda em conjunto com os outros órgãos”, relata Edson.


É nítida a sua tristeza em deixar sua casa própria para viver em uma moradia de aluguel. Mesmo com um auxílio oferecido pela Prefeitura de Mariana, devido aos altos valores dos aluguéis da cidade, a quantia repassada não será suficiente e gerará uma nova despesa para Edson “Eu vou ter que complementar com no mínimo R$ 500 todo mês e a previsão para realizar a obra é só no ano que vem“


Edson falando sobre os conflitos de mudar de casa

A situação da casa da família ainda será avaliada pelo poder público, para entender a viabilidade de recuperação do local sem risco futuro. Caso contrário, o prefeito da cidade afirmou para a nossa equipe que Edson será indenizado e a sua casa será demolida.


Neste período, Edson, sua esposa e os três filhos irão lidar com a mudança de rotina, além de um aumento inesperado nos gastos da família. Mesmo com todos os recursos disponibilizados pela prefeitura, eles irão lidar com perdas que vão além das questões financeiras. 


A empatia e o projeto esperado 

Victória Campelo, 36, morou no Barro Preto por mais de 20 anos, mas  se mudou para Ouro Preto devido aos  transtornos causados pelas chuvas no local. Ela cresceu na Avenida João Ramos Filho, próxima a Travessa Monsenhor Rafael Coelho, onde sua família mora até os dias de hoje. 

Vitória explicando o motivo de trocar de bairro

A casa da sua avó, ponto de encontro para  reuniões familiares, não é a mesma há muito tempo. Com as enchentes, muitos pertences foram levados, lembranças de casamento e aniversários da família ficaram apenas na lembrança. 


Com o intuito de fazer um plano de ação para atender a comunidade, em novembro de 2024, Victória produziu uma proposta com planos de ação e conscientização,  a partir de pesquisas de monitoramento dos pontos críticos, dados sobre a população e ideias de recursos, com o objetivo de auxiliar pessoas em situações de vulnerabilidade. 


Cada etapa do projeto traz uma perspectiva sobre a realidade da população local, exposta aos riscos e perdas consequentes das chuvas. A pesquisa começa com o registro histórico das calamidades mais agravantes devido às chuvas, ocorridas de 1989 a 2023. 


O projeto também ilustra os estragos causados pelas chuvas e os transtornos que trouxeram consequências em atividades rotineiras  dos moradores.

As perguntas da pesquisa mapearam a situação e exposição das famílias do bairro, para identificar quais ocorrências devem ser feitas para a construção de um plano de ação para atender a comunidade em si. O projeto traz ações práticas para ajudar os moradores a agirem o mais rápido possível em situações de risco, sem depender de uma espera do poder público. 


O plano foi apresentado em uma reunião em 2023 com o prefeito Celso Cota, juntamente com a comunidade do Barro Preto e levantou interesse de um dos vereadores presentes, Pedro Sousa. O mesmo repassou as ideias para os demais vereadores que atuavam naquela época. 


Até o momento da publicação desta reportagem, não há retorno sobre a aprovação ou andamento do projeto. 


Enquanto aguardam o retorno do município, os moradores continuam tomando medidas próprias para garantir a sobrevivência. Como exemplo, um dos vizinhos  faz o uso de uma sirene para chamar a atenção de moradores com o som em caso de chuva intensa. Se correr o risco do rio transbordar, a sirene é acionada. 


Uma vida em estado de alerta

Olívia Fontes Coelho, 36, mora na Rua Vicente de Paula Saldanha, também no Barro Preto, e é mais uma moradora a enfrentar problemas durante fortes chuvas. Neste local, há um córrego entre a bacia de contenção e o Ribeirão do Carmo que não suporta o volume de água e acaba transbordando quando há chuvas com fortes precipitações na cidade. 

#ParaTodosVerem: Em primeiro plano, há uma estrutura de madeira e tela metálica bloqueando parcialmente a passagem sobre uma área de concreto. Ao fundo, há um terreno com vegetação, árvores, casas com paredes de tijolos e concreto, muros e um reservatório de água azul.
Solução encontrada pela população para tentar impedir que o lixo seja arrastado junto com a água quando o córrego sobe. | Foto: João Elias Gil

:#ParaTodosVerem: Em primeiro plano, há um canal de concreto com água escura, vegetação e pequenos objetos dentro. Sobre o canal, há uma pequena ponte de madeira. Ao fundo, há casas, muros de blocos de concreto, árvores e vegetação.
Córrego a céu aberto que causa mau cheiro e transborda com chuvas fortes, deixando os moradores com medo e diminuindo as opções de saída da população. |  Foto: João Elias Gil
Olívia reforça a insegurança sentida pelos moradores

O córrego que nasce nas proximidades da Morada do Sol e alimenta a bacia de contenção passa por baixo da Travessa Monsenhor Rafael Coelho e fica a céu aberto por um  pequeno trecho até o final da Rua Vicente Saldanha. 


As medidas paliativas feitas nas casas partiram dos próprios moradores. Portões mais altos, rampas e grades para segurar o lixo trazido com as enchentes, foram alguns exemplos de ações realizadas.


Uma enchente ocorrida em 2021, devido ao transbordamento do córrego, marcou a vida de Olívia para sempre. Enquanto ela estava fora de casa, foi surpreendida com uma mensagem de um vizinho informando o alagamento de sua casa. Quando chegou, seus móveis e pertences pessoais foram levados pela enchente. Não só a água como também o barro trazido com a enxurrada danificou boa parte de sua residência. 


Há quase 30 anos, os transtornos e inquietações são vividas não só por ela, mas também por grande parte dos moradores do local. Em dias de chuva, o bairro fica atento ao grupo de Whatsapp criado pelos moradores para se informarem sobre os acontecimentos em períodos de chuva. 


Ações deliberadas 

De acordo com, José Moreira e Wander Passos, servidores da Secretaria de Gestão Urbana, há uma manutenção minuciosa para atender as demandas emergenciais originadas nesses períodos mais intensos.  


A limpeza dos córregos e desassoreamento são feitas antes mesmo dos períodos de chuva, para evitar situações de extremo risco, como os alagamentos, inundações e entupimentos nas redes pluviais. 


Além disso, a Secretaria de Gestão Urbana possui um plano de contingência para monitorar as áreas necessitadas de atenção quanto aos riscos agravantes nos ciclos chuvosos. 


O plano conta com uma equipe especializada para atender às demandas, mitigar os problemas estruturais e para a preservação dos bairros de Mariana, como o caso das chuvas. 

Engenheiro José Moreira fala sobre o plano de contingência

Contexto da cidade

Em novembro de 2022, Welbert Stopa, chefe da Defesa Civil, contou sobre 120 famílias retiradas de suas casas pelo risco de desabamento. Com o deslizamento de encostas, diversas ruas da cidade foram interditadas e as principais ligações com outros municípios foram interrompidas. 


Em fevereiro de 2023, a Prefeitura Municipal de Mariana declarou que 29 casas foram atingidas pela chuva e 97 pessoas afetadas. Destas, oito foram desalojadas e encaminhadas para um abrigo montado no Centro de Convenções da cidade. 


Em janeiro de 2024, Welbert Stopa alertou: “Com a chuva de outubro, novembro e dezembro do ano passado, mais os noves primeiros dias de janeiro, a cidade já recebeu mais de 179 mm. O que é mais da metade climatológica esperada por mês.” 


A esperança dos moradores é em um futuro diferente, onde possam encontrar tranquilidade em continuar suas vidas no bairro onde construíram grande parte de suas histórias. 


Atualizações

Hoje, 1° de outubro, a Avenida João  Ramos Filho e a Travessa Monsenhor Rafael Coelho foram afetadas com pontos de alagamento, após uma chuva intensa de aproximadamente 40 minutos. 


O córrego que cruza a rua Vicente de Paula Saldanha teve significativo aumento do volume, mas não extravasou a cota, assim como a bacia de contenção. Um dos moradores da rua registrou o momento, confira abaixo os vídeos:

As medidas no pós-chuva

Em casos de serem afetados por desastres ambientais, os moradores devem procurar a Defesa Civil, para a realização da vistoria técnica em campo. Caso seja identificada situações de risco, a notificação será realizada e a pessoa ou família poderá ser encaminhada para o setor indicado para ajudar a solucionar o seu problema. 


Principais contatos responsáveis pela realização de medidas no pós chuva:

Defesa Civil de Mariana: Telefones: (31) 99647-4625 (whatsapp)/ (31) 3558-4412 (fixo)

Desenvolvimento Urbano: Telefone: (31) 3557-2404Subsecretaria de Gestão Urbana (SGU):Telefones: (31) 984164803 (whatsapp)/ (31) 35579072 (fixo)

CRAS (Centro de Referência de Assistência Social)

CRAS Bairros

Telefone:(31) 3558-6936

Endereço: Rua Wenceslau Braz, n° 781, Barro Preto

CRAS Cabanas

Telefones: (31) 3557-2187 | (31) 99690-3677

Endereço: Rua Barro Branco, n° 141, Bairro Santa Rita de Cássia

CRAS Colina

Telefone: (31) 3558-1945 (Ligação e WhatsApp)

Endereço: Rua Ônix, n° 185, Colina

CRAS Volantes Distritos

Telefone: (31) 3558-1586

Endereço: Barão de Camargos, n° 254, Centro


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O Lampião é o jornal-laboratório do curso de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), produzido durante a disciplina Laboratório Integrado I - Cobertura Noticiosa Hiperlocal.

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