Crescer na tragédia e viver da lembrança
- Lincol Moreira e Mychelle Santos
- há 20 horas
- 8 min de leitura
Após o rompimento da barragem de Fundão, a comunidade de Gesteira luta para preservar sua cultura e transmitir suas tradições.

A infância no Quilombo de Gesteira, na cidade de Barra Longa, foi transformada após o desastre-crime provocado pelas mineradoras Vale e BHP (Samarco) em 5 de novembro de 2015. Mais de dez anos depois da tragédia, hábitos de crianças e adolescentes, principalmente aqueles ligados ao lazer, ao convívio comunitário e ao compartilhamento de saberes tradicionais, foram alterados por causa da contaminação do território e pela perda de espaços utilizados historicamente pela comunidade.
Antes do rompimento, o Rio Gualaxo do Norte fazia parte da rotina das famílias e era um local onde as crianças nadavam e brincavam. Elas também acompanhavam os adultos em atividades relacionadas à pesca, ao cultivo da terra e à criação de animais. Porém, atualmente, muitas famílias evitam o contato com a água do rio por medo da contaminação causada pela lama de rejeitos. A pequena Alice, de 10 anos, relata que ficou doente após entrar no rio. “Eu entrei, mas fiquei com febre por quase um mês”, conta ela.
A comunidade de Gesteira era dividida em duas áreas vizinhas, conhecidas como Gesteira Velho, localizada próxima ao rio, e o Mutirão, criado após uma enchente registrada em 1979. Moradores contam que a cheia causada pelas chuvas destruiu casas e obrigou parte das famílias a deixar temporariamente o território original. Depois desta inundação, eles construíram suas novas residências em uma área mais elevada, doada por um fazendeiro local. O esforço coletivo e a solidariedade entre os vizinhos levaram à sugestão do nome “Mutirão” para esse novo agrupamento.
Após a enchente, Gesteira Velho continuou sendo um dos principais espaços de convivência da comunidade. O local concentrava a Igreja Nossa Senhora da Conceição, construída em 1714, a Escola Municipal Gustavo Capanema e o bar do Seu Paulo, que, segundo os residentes, ficava cheio aos finais de semana. Havia também o campo de futebol e os quintais cultivados pelas famílias, onde as crianças aprendiam os costumes, os valores e as tradições quilombolas que eram transmitidas entre as gerações.
Ana Carolina da Silva, 32, assistente administrativa, cresceu em Gesteira Velho e relembra, saudosa, a sua infância no quilombo. “A casa era de pau a pique. Bem lá no fundo do quintal tinha aquele monte de rosas. Tinha fruto, tudo plantado na frente da casa. Era um lugar muito bom”. Além disso, ela conta que, quando pequena, após ir para a escola e limpar a casa, seu tempo era destinado a brincar na rua com as primas e vizinhos. Eles gostavam de fazer “comidinhas” com terra, usando latinha de sardinha e folhas.
“A minha família tem uma história bonita em Gesteira”, conta Gilmar José da Silva, de 62 anos, neto de João Eleotério Bento, uma das antigas e reconhecidas lideranças de Gesteira e da parteira Maria de Paula da Cruz. Ele nasceu pelas mãos da própria avó, assim como a maior parte das crianças que vieram antes dele. Gilmar conheceu uma Gesteira que não tinha energia elétrica e ouviu o primeiro rádio da comunidade, trazido por seu pai. Assim como a maior parte das crianças da época, começou a trabalhar cedo, aproximadamente aos 10 anos, em uma fazenda da redondeza.
Seu Dirceu da Luz, de 83 anos, lembra que, em sua infância, os estudantes precisavam atravessar o rio para chegar à escola em Gesteira Velho. “A gente tirava a roupa para atravessar o rio e colocava de novo para chegar seco na escola”, recorda ele. Para facilitar o acesso, foi construída uma ponte que ligava as duas áreas vizinhas. Porém, após a tragédia, ela foi destruída e parte dos moradores ficaram isolados, sem acesso a recursos básicos e sem assistência emergencial.
Apesar da diferença de idade, Ana, Gilmar e Dirceu cresceram ouvindo histórias acerca da Barragem de Fundão. Desde a enchente de 79, João Eleotério, avô de Gilmar, repetia: “Olha, vocês fiquem preparados. Dessa enchente nós conseguimos fugir. Eu talvez não vou estar aqui, mas vocês amanhã vão ver, a represa vai arrebentar e vai destruir Gesteira”. A história não passava de uma ameaça distante até o dia 5 de novembro de 2015, quando a barragem da mineradora Samarco se rompeu.
Medo que vira realidade
Após o desastre-crime, a lama tomou Gesteira e as pessoas que ali viviam foram expostas a um grande risco socioambiental e econômico. Elas foram expulsas de seus territórios, afastadas de suas casas, amigos, familiares e de suas práticas culturais. A Samarco realizou intervenções na área atingida, removendo parte dos rejeitos visíveis e cobrindo a lama com camadas de terra, em uma tentativa de recuperar o território. Como medida emergencial, a mineradora também passou a custear o aluguel de moradias para as famílias deslocadas em Barra Longa e Mariana.
Segundo Simone Silva, liderança do quilombo, famílias que vivem em moradias temporárias têm recebido notificações para deixar os imóveis, em 30 dias, antes da conclusão de processos relacionados às trincas e aos reassentamentos. “Tem que ter escuta, tem que respeitar o processo enquanto quilombo, e isso não está acontecendo”, afirma.

O sítio Cidreira, que pertencia aos avós de Herick de Souza Luz, 22 anos, autônomo, que na época tinha 11 anos, quando aconteceu o desastre-crime provocado pelo rompimento da barragem Ele conta que, quando viu a altura da lama, pensou que jamais mais voltaria ao local. Apesar de ter retornado, notou que nunca mais seria a mesma coisa. Segundo ele, as crianças de hoje crescem em uma realidade diferente da vivida pelas gerações anteriores. “Os meninos de hoje não aproveitam nem a metade do que nós aproveitamos naquela época”, conta.
Antes, muitas atividades eram realizadas coletivamente, como os mutirões de capina e colheita, que reuniam os habitantes para o trabalho e sempre terminavam, ao final do dia, em encontros com comida, música e confraternização. As crianças acompanhavam pais, avós e vizinhos nessas atividades, aprendendo práticas ligadas ao cultivo, à alimentação e às tradições quilombolas. Gilmar garante que os conhecimentos sempre foram transmitidos no cotidiano familiar. “A melhor maneira de explicar, é ser. Aquilo que você é, os seus filhos passam a ser”, afirma Gilmar.
A agricultura estava entre as principais atividades da comunidade, com o cultivo de mandioca, milho, verduras, frutas, legumes e ervas medicinais. As trocas de sementes, mudas e alimentos aconteciam entre famílias da região. “A gente sempre dividiu. Quando a gente era pequeno, matava porco na nossa casa e a gente distribuía entre os vizinhos. E eles faziam a mesma coisa com a gente”, relembra a dona de casa, Mônica Campos.
Com o desastre, toda a comunidade sofreu com a redução do espaço de plantio e lazer, incluindo o antigo campo de futebol, que não existe mais. “Quando tinha jogo, enchia de gente. Aí, depois que a lama veio, acabou o campo. Eles até iam fazer outro, mas até hoje não saiu”, conta Herick. Com essa diminuição de espaços para diversão, não só a infância foi afetada, pois provocou o distanciamento geográfico e social entre os moradores.
Em frente à Igreja Nossa Senhora da Conceição, onde a união dos habitantes era reforçada nas festas e eventos religiosos, havia um gramado comumente ocupado pelas brincadeiras das crianças e adolescentes. “Era um lugar muito bom. Em frente à igreja, à escola, tinha um gramado onde a gente ia, ficava brincando. A gente tinha louvor na igreja todo sábado e catequese dia de domingo”, relembra Ana Carolina.
Tradição que persiste
Como forma de enfrentar os impactos deixados pelo desastre-crime, os moradores de Gesteira passaram a fortalecer iniciativas voltadas à preservação da cultura quilombola. Entre elas está o Grupo Fênix, coletivo artístico formado por mulheres, crianças e adolescentes da comunidade. Segundo Simone Silva, a iniciativa ganhou força após o rompimento da barragem, período em que muitas mulheres passaram a enfrentar quadros de depressão e sofrimento emocional. “A gente começou a se organizar novamente para ensaiar, para dançar, e isso curou”, afirma.

Atualmente, o grupo reúne integrantes de diferentes gerações e realiza apresentações dentro e fora da comunidade. A participação nas atividades também ampliou os horizontes das crianças. Pequena Alice, uma das integrantes, conta que a dança a levou a conhecer novos lugares. “Tem vez que eu viajo para vários lugares para dançar com o Grupo Fênix”, relata. Para Simone, o coletivo representa a retomada da identidade cultural quilombola após um período marcado por perdas, deslocamentos e incertezas. “A Fênix ressurge das cinzas e nós ressurgimos da lama”, resume.
As apresentações incorporam elementos que remetem à história da comunidade e de seus ancestrais. A peneira, símbolo presente nas coreografias, foi ressignificada pelo grupo. Associada ao trabalho forçado imposto à população negra escravizada, ela passou a representar resistência, cura e luta coletiva. “Aquilo que foi dor, hoje é a simbologia da nossa dança”, explica Simone.
Além de preservar tradições culturais, o Grupo Fênix se consolidou como um espaço de convivência e transmissão de saberes entre gerações. Crianças, mães, avós e bisavós compartilham ensaios e apresentações, fortalecendo os vínculos comunitários e mantendo vivas práticas culturais que seguem sendo repassadas aos mais jovens.
Direito violado
O Artigo 227 da Constituição Federal de 1988 determina que crianças e adolescentes tenham prioridade absoluta na garantia de direitos como saúde, educação, lazer, cultura e convivência comunitária. O texto também atribui ao Estado, à sociedade e à família a responsabilidade de protegê-los de qualquer forma de negligência. No contexto de uma comunidade tradicional, esses direitos são reforçados pelo Artigo 216, que impõe ao poder público a obrigação de proteger as manifestações das culturas populares e afro-brasileiras.
Para os moradores, no entanto, a realidade vivida após o rompimento da barragem de Fundão distancia esses direitos do cotidiano da comunidade. Com a perda de espaços de convivência, do campo de futebol, da antiga escola e com o receio de utilizar o Rio Gualaxo do Norte, atividades que faziam parte da infância quilombola deixaram de acontecer como antes. “Eu cresci nesse rio aqui. Então, hoje já não temos o rio mais, não temos o campo mais. Esses direitos foram retirados da gente depois da lama”, afirma Mônica.
A situação também contrasta com acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário. A Convenção sobre os Direitos da Criança, da Organização das Nações Unidas (ONU), reconhece o direito ao lazer, ao descanso e à participação na vida cultural. Já a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) garante a proteção dos modos de vida, dos territórios e das culturas de povos tradicionais, incluindo as comunidades quilombolas.
Mais de dez anos após o desastre-crime, moradores de Gesteira afirmam que a reparação ainda não foi capaz de restabelecer plenamente essas condições. Enquanto processos seguem em andamento e famílias convivem com novas incertezas sobre moradia com notificações de desocupação, crianças e adolescentes continuam crescendo em uma comunidade em que parte dos espaços que marcaram gerações anteriores permanece perdida ou inacessível.




























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