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Recomendamos Memorial Brumadinho | Para que a ausência não vire esquecimento

  • Carmen Maria Crispim
  • há 21 horas
  • 4 min de leitura

Além do luto, o memorial brumadinho resgata a história das vidas interrompidas e cobra responsabilidade para que crimes iguais não se repitam.

Bosque Memorial Brumadinho, onde 272 Ipês amarelos foram plantados representando as vítimas. Foto: Carmen Maria Crispim. #ParaTodosVerem:  área externa do Memorial Brumadinho em meio à natureza. Em destaque, uma árvore de tronco escuro e galhos sinuosos ocupa o centro da imagem. Ao fundo, aparece parte da estrutura branca do memorial cercada por gramado verde, bancos de madeira e montanhas sob céu claro.
Bosque Memorial Brumadinho, onde 272 Ipês amarelos foram plantados representando as vítimas. Foto: Carmen Maria Crispim. #ParaTodosVerem: área externa do Memorial Brumadinho em meio à natureza. Em destaque, uma árvore de tronco escuro e galhos sinuosos ocupa o centro da imagem. Ao fundo, aparece parte da estrutura branca do memorial cercada por gramado verde, bancos de madeira e montanhas sob céu claro.

A visita ao Memorial Brumadinho é uma experiência de profunda dor, reflexão, empatia, e respeito. O espaço foi idealizado e construído a partir de uma necessidade dolorosa das famílias enlutadas: o anseio por sepultar dignamente os fragmentos corpóreos dos seus 272 entes queridos vitimados pelo rompimento da Barragem da Mina Córrego do Feijão, pertencente à Vale, em 25 de janeiro de 2019. E também como um lugar de denúncia da maior tragédia-crime de trabalho e de um dos maiores desastres-crime humanitários e socioambientais do Brasil, para que não se apague e nunca se repita. 


O Memorial Brumadinho, assim como outros ao redor do mundo que fixam a memória de tragédias, é considerado um memorial in situ, um espaço construído exatamente no local onde um evento histórico, trágico e traumático ocorreu. É um ambiente que integra materialidade e memória, como o Memorial da Resistência de São Paulo (SP).

Complexo Paraopeba II em paralelo ao Bosque do Memorial  Brumadinho. Foto: Carmen Maria Crispim. #ParaTodosVerem:Em primeiro plano, um espelho d’água e árvores jovens compõem o espaço de memória e reflexão do memorial. A paisagem é cercada por montanhas e áreas verdes e contrasta com a terra marcada pela mineração ao fundo, refletindo as cicatrizes deixadas pela tragédia-crime.
Complexo Paraopeba II em paralelo ao Bosque do Memorial Brumadinho. Foto: Carmen Maria Crispim. #ParaTodosVerem:Em primeiro plano, um espelho d’água e árvores jovens compõem o espaço de memória e reflexão do memorial. A paisagem é cercada por montanhas e áreas verdes e contrasta com a terra marcada pela mineração ao fundo, refletindo as cicatrizes deixadas pela tragédia-crime.

O Memorial foi construído no local exato da tragédia, o distrito de Córrego do Feijão, pertencente ao município de Brumadinho, terreno diretamente atingido pelo mar de rejeitos da Barragem B1, estrutura que, junto ao Complexo Paraopeba II, pertence à mineradora Vale. O memorial salvaguarda segmentos corporais, e objetos pessoais das 272 “joias” - nome dado às vítimas pelos familiares em resposta à declaração de  Fábio Schvartsman, então presidente da Vale, que definiu a mineradora como uma “joia brasileira [..] por maior que tenha sido a tragédia”, durante audiência na comissão externa da Câmara dos Deputados, em Brasília, em 14 de fevereiro de 2019, menos de um mês após o crime.  Ao ressignificar o termo, os familiares afirmam que as verdadeiras joias são seus entes queridos. 


A instituição, administrada pela Fundação Memorial Brumadinho, é gerida de forma autônoma pela Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão em Brumadinho (AVABRUM) que gesta e conserva o local mantendo viva a memória das vítimas. 


A Luta contra o esquecimento 

Assinado pelo escritório Gustavo Penna & Arquitetos Associados, o memorial possui uma área aberta para a reflexão, contemplação e conexão com o bosque que rodeia a capela e as 3 salas  que compõem o local. Não é possível definir qual delas é a mais marcante. 


A sala de Memória conta quem são as 272 vítimas com fotos e pertences pessoais. Nela, os que morreram deixam de ser apenas números e nos deparamos com a perda de uma mãe, de um pai, de um filho, de um irmão, de uma irmã. É nesse momento que  nos damos conta que essas pessoas existem, que tinham sonhos, tinham planos e alguém esperando que voltassem para casa, que voltassem à vida. A emoção aflora permitindo-nos compreender, ainda que de forma ínfima, o luto e a revolta de quem as perdeu. 


Na sala de testemunho, o foco é a atuação dos profissionais do Corpo de Bombeiros, que, durante sete anos, buscaram por cada uma das vítimas em meio à lama. Também apresenta a cobertura jornalística que gerou repercussão nacional e internacional do desastre-crime. Mas, sem dúvida, a parte mais emotiva da sala são os vídeos do momento do rompimento e os testemunhos dos familiares das vítimas. 


A sala de Lóculos, localizada ao lado da sala de testemunho, é o espaço destinado à guarda dos segmentos corporais das vítimas.

Sala das memórias, onde estão as homenagens às 272 vítimas com seus pertences pessoais. Foto: Camile Moreno. #ParaTodosVerem: Sala de Memória do Memorial Brumadinho com iluminação baixa e ambiente silencioso. No centro da imagem, uma estrutura de vidro iluminada em tom dourado. Ao redor, totens escuros exibem fotografias das vítimas e homenagens, criando um espaço de reflexão e memória.
Sala das memórias, onde estão as homenagens às 272 vítimas com seus pertences pessoais. Foto: Camile Moreno. #ParaTodosVerem: Sala de Memória do Memorial Brumadinho com iluminação baixa e ambiente silencioso. No centro da imagem, uma estrutura de vidro iluminada em tom dourado. Ao redor, totens escuros exibem fotografias das vítimas e homenagens, criando um espaço de reflexão e memória.

O legado de uma tragédia coletiva

Para além das manchetes que estamparam a lama e a destruição, o Memorial Brumadinho ergue-se hoje como um convite, silencioso e poderoso, à reflexão sobre o valor da vida e a dignidade humana. O espaço articula, com sensibilidade ímpar, os eixos da narrativa, da documentação e do testemunho. Visitar este local não é apenas um ato de contemplação histórica, mas um exercício necessário de inscrição da história, empatia para compreender que as perdas de um desastre-crime dessa magnitude não podem ser restritas a relatórios técnicos ou a balanços financeiros.


Ao caminhar por suas galerias e entrar em contato com o acervo de itens pessoais, o visitante percebe que o memorial promove iniciativas que desafiam o esquecimento. Ali, a frieza dos dados cede lugar à pulsação das histórias individuais. A experiência de visitação propõe um mergulho profundo naquilo que permanece quando o impacto imediato da notícia passa: o afeto, a memória e a importância da justiça histórica. O Memorial Brumadinho transforma o luto em um processo educativo sobre o horror da história minerária e cada objeto preservado atua como uma prova viva de que aquelas vidas possuíam uma complexidade que nenhum número é capaz de mensurar.


Recomendamos a visita para quem deseja entender que, por trás de cada notícia sobre a tragédia, por trás do número da ordem em que a vítima foi encontrada, existia um universo de planos, existências e afetos. Existiam pessoas. Existiam vidas. Algumas delas nem chegaram à luz do nascimento. A visita é um convite para que o esquecimento não seja uma opção e para que a memória sirva como alicerce para um futuro mais ético e humano.

Entrada do corredor que leva às salas do Memorial. Foto por Carmen Maria Crispim. #ParaTodosVerem: Um paredão de concreto traz a frase de Adélia Prado: “O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.” Ao fundo, um gramado verde transmite silêncio, respeito e contemplação.
Entrada do corredor que leva às salas do Memorial. Foto por Carmen Maria Crispim. #ParaTodosVerem: Um paredão de concreto traz a frase de Adélia Prado: “O que a memória ama fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.” Ao fundo, um gramado verde transmite silêncio, respeito e contemplação.

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O Lampião é o jornal-laboratório do curso de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), produzido durante a disciplina Laboratório Integrado I - Cobertura Noticiosa Hiperlocal.

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