Pequenos leitores, grandes descobertas: FLIMARI pelo olhar das crianças
A literatura ocupa espaço entre as descobertas e a imaginação das crianças durante a quarta edição da Feira Literária de Mariana (FLIMARI), realizada no Centro de Convenções de Mariana, nos dias 17, 18 e 19 de setembro de 2026

Durante os três dias de programação, estudantes participaram de atividades que aproximam o público infantil dos livros e das diferentes formas de contar histórias. Mais do que apresentar obras e autores, a feira cria oportunidades para que as crianças das redes de ensino, pública e particular, tenham contato com a literatura de maneira lúdica e descubram novos caminhos para imaginar. Neste ano, o evento tem como tema “Quintais”; a proposta é ampliar o significado desse espaço, que deixa de ser apenas um lugar físico e passa a representar também memórias e convivência.
Criada pela escritora Andreia Donadon junto com seu marido, o também escritor José Benedito Donadon, a FLIMARI reúne artistas, educadores e estudantes em um espaço que promove trocas entre adultos e crianças. Para Andreia, incentivar esse contato é também uma forma de atrair uma nova geração de leitores : “A gente precisa fertilizar, florescer essa geração que nasceu com as redes sociais, que nasceu com os smartphones e parou de ler livros.”, explica a escritora.
A abertura foi conduzida por Andreia e pelo Coral “Recria Vida”, no dia 17 de setembro, com a apresentação de “É por você que canto”. A programação seguiu com a contação de histórias de Marcelino Xibil, que trouxe a narrativa e a imaginação para o centro das atividades. Em meio ao público, as histórias funcionaram como uma das formas de aproximar os participantes, principalmente as crianças, do universo literário de maneira mais recreativa e acessível. A feira contou ainda com o lançamento de "Um apanhado de expressões animais e ditados populares no Brasil”, de Samylla Mói. Após as apresentações, o público teve a oportunidade de se aproximar dos autores durante a mesa de autógrafos, em um momento de troca que aproximou escritores e leitores.

Encerrando as atividades do dia, o evento prestou uma homenagem a Zizi Sapateiro (1927- 2007), artista marianense reconhecido por suas pinturas de caráter primitivista e por retratar, entre outros temas, o universo das crianças. Familiares participaram do momento e compartilharam declarações sobre sua trajetória.
A homenagem também faz parte de uma proposta de resgate da memória cultural de Mariana. Segundo Andreia, levar a história de figuras como Zizi para as novas gerações é uma forma de ajudar a construir a identidade cultural da cidade. “A gente tem que trazer essas figuras importantes que construíram a história cultural de Mariana para essas pessoas se espelharem”. A escolha de Zizi Sapateiro também antecipa uma data simbólica, quando será celebrado o centenário de nascimento do artista em 2027. “Aí é um trabalho de resgate de memória. [...] Por conhecê-lo e saber de toda essa história robusta que ele tem, nós fizemos a edição de uma lenda também, uma lenda contemporânea que traz o Zizi Sapateiro para o futuro”, afirma Andreia.

Quando ler também inspira a escrever
A FLIMARI não coloca as crianças apenas como leitoras, mas também autoras, como é o caso de Alice Nunes, de 10 anos, estudante do Colégio Flecha, que lançou durante a feira o livro “Caranguejos Roqueiros". A ideia surgiu a partir de uma lembrança de uma viagem a Fortaleza, quando Alice foi à praia com o avô e depois comeu caranguejo em um restaurante. A experiência despertou uma curiosidade: de onde vêm esses animais? A pergunta acabou se transformando em uma história contada pelo ponto de vista dos próprios caranguejos.
Leitora de livros infanto-juvenis, como “Percy Jackson e os Olimpianos” e “Diário de uma Princesa Desastrada", a escritora mirim encontrou na escrita outra maneira de explorar a própria criatividade. Para ela, o processo pode começar de forma simples. “Primeiro você precisa de uma ideia. E logo depois, você precisa de caneta e papel. Tudo isso pode mudar sua vida completamente. Foi o que aconteceu comigo.”
A experiência de Alice mostra como o contato com a literatura pode ultrapassar a leitura e chegar à criação. Aos dez anos, ela já experimenta o caminho de transformar acontecimentos cotidianos em histórias que podem ser compartilhadas com outros leitores.

Assim como Alice chega à feira como autora, outras crianças encontram nela um espaço para conhecer novos livros e compartilhar o gosto pela leitura. É o caso de Gabriel Matheus Silva, aluno do 5º ano do Centro de Educação Municipal Padre Avelar (CEMPA),que participa pela primeira vez do evento. Gabriel conta que já encontrou obras que despertaram sua curiosidade. Um dos espaços chamou sua atenção por reunir livros relacionados a jogos, além de referências a videogames antigos, como o Master System. Para ele, a feira também está justamente nessas descobertas que acontecem pelo caminho. Nesta semana, o estudante começou a ler "A Ilha Perdida”, da coleção Vagalume, e já chegou à página 84.
Entre seus livros favoritos está o clássico infantil de Antoine de Saint-Exupéry, que marcou sua prática como leitor. “O livro favorito que eu tive até agora foi O Pequeno Príncipe, foi muito bonito de ler.” O incentivo também faz parte da rotina em casa. Ele conta que a mãe tem o hábito de leitura e o pai mantém contato com os livros por meio das partituras. Para Gabriel, começar a ler não precisa ser um desafio. “Primeiro você começa tentando ler um livro menor. Depois você vai aumentando.”
Entretanto, essa não é a realidade de todas as crianças; segundo a diretora Solange de Castro, da Escola Municipal Dom Oscar de Oliveira, a pandemia foi um fator determinante para essa falta de interesse dos alunos. Solange reafirma a importância de eventos como esse para trazer essas crianças de volta para o universo da leitura. “Porque com a pandemia, teve muito prejuízo, né? Essa relação do aluno pegar um livro, ler. [...] Então, a gente tem que resgatar esse prejuízo que eles tiveram na pandemia. Ter o acesso muito rápido à internet também dificultou bastante.”
Para a estudante Larissa Campos André, de 11 anos, eventos como este têm um papel importante por estimular o contato das crianças com a literatura. Esse incentivo pode fazer diferença principalmente para quem ainda não encontrou o hábito de ler: “Essas feiras incentivam bastante as crianças na leitura e, querendo ou não, é uma coisa bem importante na vida de qualquer pessoa.”
Segundo Larissa, a experiência começa pelo encanto com os livros. Em sua primeira visita à FLIMARI, ela conta que encontrou um espaço que conversa com uma paixão que já faz parte da sua rotina. “Eu tô adorando porque eu amo livros, assim, é uma paixão bem grande e esse mundo da leitura me atrai bastante”, afirma a pequena leitora.

A feira termina deixando mais do que páginas viradas. Para Alice, a literatura ganhou forma nas próprias mãos e virou história para ser compartilhada. Para Gabriel, a feira foi também um lugar de curiosidade, onde um livro, um jogo ou uma descoberta inesperada podem abrir caminho para uma nova leitura. Larissa, por sua vez, encontrou no evento um espaço que reforça uma paixão que já faz parte da sua vida, o prazer de ler.
Três crianças, três experiências diferentes e uma mesma possibilidade: descobrir que a literatura não precisa ficar presa às palavras escritas no papel. E elas não foram as únicas. Durante e depois das palestras e das atividades, outras crianças também puderam escolher um livro, ouvir uma história, conhecer um personagem, conversar com um autor ou simplesmente encontrar algo que despertasse a vontade de ler.
Talvez seja justamente esse o quintal proposto pela FLIMARI: um lugar onde cabem afetos, questionamentos e o ato de explorar, - onde cada criança pode entrar por uma porta diferente e sair levando consigo uma nova história.
A quarta edição chega ao fim, mas segundo Andreia Donadon, ainda não há uma nova data prevista para a próxima feira. Até lá, ficam os livros e a possibilidade de que, entre uma página e outra, novos leitores e escritores continuem descobrindo seus próprios quintais.

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