top of page

O tatame que ensinou a importância da inclusão social

Ana Clara Coelho, João Elias Gil e Rayssa de Jesus.
há 6 horas
9 min de leitura

Mais do que uma arte marcial, o judô tem transformado a vida de pessoas com deficiências (PcDs) em Ouro Preto


A IV Copa de Judô Estudantil estreou no sábado, 24 de outubro, no Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG), em Ouro Preto. A equipe do Jornal Lampião registrou, em um ensaio fotográfico, a preparação de alguns participantes, revelando a dedicação e a disciplina ministradas no Instituto Budo-Kan. Além disso, para apresentar a importância do judô na vida de Carlos Felipe André, produzimos o perfil dele a fim de revelar os desafios de sua trajetória na vida e nos tatames.


O judô tem o respeito, a disciplina e a perseverança como alguns dos fundamentos básicos. Esses valores se somam à oportunidade de inclusão pelo esporte, proporcionando desenvolvimento para pessoas com ou sem deficiência, além da socialização que a prática oferece. No tatame, todos são considerados iguais e compartilham a possibilidade de aprender juntos. A inclusão não é apenas tratar todos da mesma maneira, mas também respeitar as diferenças de cada um dentro de um mesmo espaço, sem criar turmas diferentes. 




COBERTURA | Copa de Judô Estudantil fortalece a inclusão (Por Ana Clara Coelho Izidório)


#ParaTodosVerem: Em primeiro plano, dois meninos descalços estão sobre um tatame amarelo e bege, frente a frente, segurando as golas dos quimonos um do outro durante uma luta de judô. O menino à esquerda veste quimono azul e faixa cinza, enquanto o menino à direita veste quimono branco e faixa azul. À direita, um homem de terno preto, camisa branca e gravata vermelha acompanha a luta. Ao fundo, crianças e adultos estão distribuídos pelas laterais do tatame, alguns vestindo quimonos e outros camisetas azuis. Na parte superior da imagem, há arquibancadas com espectadores sentados.
No tatame a disciplina e o foco prevalece, a vontade de aprender anda junto com a vontade de ganhar. | Foto: João Elias Gil.

A IV Copa de Judô Estudantil, organizada pela Prefeitura de Ouro Preto e o Instituto Budo-Kan, reuniu aprendizagem e acessibilidade para jovens e adultos da região. O evento esportivo contou com a participação de mais de 250 atletas, que competiram por faixas e medalhas em diferentes categorias, distinguidas por idade e, também, por peso e sexo – com o objetivo de garantir que as lutas fossem o mais justas e seguras possíveis. 


O evento teve início às 8h30, com a cerimônia de entrega de uma faixa ao Sensei Carlos Simões pelo Shihan Galileu José de Paiva Filho, ex-presidente e fundador da Liga Mineira de Judô. Tanto sensei quanto shihan são referências a instrutores de artes marciais, sendo o segundo com hierarquia superior. A competição, com o final das lutas do torneio, teve seu encerramento às 15h.


Em especial, o evento dedicou-se à inclusão de Pessoas com Deficiência (PcD), abrindo espaço para aqueles que apresentam alguma vulnerabilidade física, mental, intelectual ou sensorial. Participaram desta edição do campeonato 11 atletas com algum tipo de deficiência. Nas modalidades sub 10 e judô inclusivo, todos os atletas receberam as mesmas medalhas, independente de terem subido ao pódio.


Nesta edição, a Copa Estudantil contou com a participação de alunos de outras cidades, como Conselheiro Lafaiete, Contagem, Belo Horizonte, Betim, Lagoa Santa, Mariana e Ouro Branco. Os alunos PcD que participaram das competições, além de Ouro Preto, vieram de Pará de Minas em comitiva.


#ParaTodosVerem: Em primeiro plano, quatro crianças vestindo quimonos estão posicionadas em um pódio. A criança no centro está no primeiro lugar, veste quimono branco e segura uma bandeira preta com detalhes dourados e verdes à frente do corpo; uma medalha está pendurada em seu pescoço. À esquerda, uma criança veste quimono azul e segura uma camiseta com as cores preta, vermelha e branca. À direita, duas crianças vestem quimonos brancos, com faixas amarela e azul, respectivamente, e também usam medalhas. O pódio tem os números 1 e 3 visíveis na parte frontal. Ao fundo, há um painel azul com o nome e o logotipo do Instituto Budo-Kan, acompanhado da frase “Esporte, inclusão e educação”, além de logotipos de patrocinadores. À direita, aparece parte de uma estrutura inflável verde.
As medalhas guardam a memória, mas o verdadeiro valor do campeonato está no aprendizado e na superação ao longo do caminho. | Foto: João Elias Gil.

Dentre os participantes do município na IV Copa Estudantil, estão representantes da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) de Ouro Preto. Dois alunos da APAE, ambos atletas com deficiência intelectual e que já participaram de outros campeonatos em Betim e Belo Horizonte, representaram a associação no evento, que foi considerado um sucesso. Com isso, o Instituto Budo-Kan firmou seu compromisso com os atletas PcD, deixando claro o seu cuidado e atenção para os aprendizes de judô dessa categoria. 


Jean Valentim, coordenador pedagógico da APAE, declara que o esporte não é só uma atividade física para melhorar a saúde, mas é, também, um caminho às portas que se abrem para que o atleta possa explorar dentro de si. “A pessoa, quando é deficiente, tem certas barreiras na vida. O esporte abre muitas possibilidades e eles [os atletas] descobrem a capacidade motora deles. Pensam que não conseguem fazer e veem que são capazes de fazer tudo”, declara Valentim. 


Um dos alunos do Instituto e que também participou da copa, Carlos Felipe André, 35 anos, também é um exemplo que mostra como o esporte, em especial o judô, é uma ferramenta que permite ir para além dos próprios limites. “O esporte é a porta de entrada e o único lugar que não vai ter preconceito, não vai ter discriminação e você pode ser igual a qualquer pessoa. Só basta você achar o esporte certo para você”, revela Carlos. 


O professor de educação física da APAE, Yuri de Carvalho, afirma que o esporte é uma ferramenta de inclusão social que afasta o preconceito existente nos dias atuais. “Eles são discriminados por não conseguirem fazer as coisas, mas eles conseguem, eles são capazes. Às vezes falta só um pouco de estímulo, um pouco de paciência”, ensina o professor. 


O Instituto e o Judô 


O Instituto Budo-Kan foi fundado em 2013 e, desde então, trabalha com a inclusão integral de alunos no judô. Há quatro anos, o Instituto criou o projeto da Copa Estudantil, um movimento para as escolas da região que ajuda a incentivar os alunos a praticar esportes em prol de um melhor desenvolvimento pessoal e profissional. A IV Copa de Judô Estudantil na cidade de Ouro Preto reforça o rendimento do esporte para os atletas PcD que, na competição, desenvolvem ainda mais a disciplina e o respeito para além do tatame. 



Carlos Simões, professor de judô há 20 anos no Instituto Budo-Kan, se encanta ao olhar para o passado e perceber como é diferente a presença e o interesse pelo esporte desde quando ele começou, em 1990, em comparação com os dias de hoje. “Eu me sinto realizado profissionalmente por estar vendo isso. Na minha época, eram poucas pessoas que podiam pagar a prática do Judô. É muito satisfatório a gente ver crianças e adolescentes que, talvez, não teriam essa oportunidade”, declara Carlos.




ENSAIO FOTOGRÁFICO | Luta e respeito são formas de inclusão no judô (Por João Elias Gil)


Momentos do último treino realizado pelo Instituto Budo-Kan para a disputa da IV Copa de Judô Estudantil de Ouro Preto, destacam movimentos realizados pelos alunos durante lutas e exercícios no tatame, mostrando concentração, técnica e espírito de competição.


  • O erro é, também, uma situação para aprendizado. | Foto: João Elias Gil.
  • Treinos são momentos para desenvolver habilidades. | Foto: João Elias Gil.
  • A inclusão deixa as diferenças fora do tatame. | Foto: João Elias Gil.
  • Cada movimento reflete no próximo golpe. | Foto: João Elias Gil.
  • Cada aprendizado representa respeito ao próximo. | Foto: João Elias Gil.
  • A evolução acompanha o ritmo de cada atleta. | Foto: João Elias Gil.
  • Força e foco completam a disciplina e o respeito. | Foto: João Elias Gil.
  • O judô ensina contato e limites. | Foto: João Elias Gil.
  • Judô é técnica, confiança e evolução. | Foto: João Elias Gil.




PERFIL | A gente sempre aprende (Por Rayssa de Jesus)


Era um dia comum em Ouro Preto. A chuva ameaçava cair, os turistas caminhavam pelas ruas e eu o procurava. Em frente a um dos pontos turísticos mais conhecidos da cidade, um homem pardo, com a camiseta realçando o seu porte atlético, encarava o celular como se estivesse à procura de algo, ou melhor, alguém. 


Ao me aproximar, o seu olhar difuso declarava essa sensação de procura. Apesar de sermos nativos na cidade, confesso que fomos ingênuos no começo. A gente acreditou que seria viável conversar em frente a uma das igrejas mais cobiçadas pelos visitantes: a Igreja Nossa Senhora do Carmo. 


Quando percebemos a grande movimentação em torno do local, entendi que deveria escutar o Carlos e procurar um lugar mais calmo para conversarmos. Inicialmente eu ainda tinha inseguranças. Não sabia qual era o nível da sua deficiência visual e se deveria ou não ajudá-lo com tarefas que até então eu considerava simples, como dar alguns passos em direção a outro destino. 


Até que, como uma boa mineira, já iniciei a nossa conversa perguntando de onde ele era. Morador do bairro São Cristóvão, supus que ele deveria ter levado em torno de 10 minutos para chegar ao nosso ponto de encontro. Já que ele havia ido de transporte público e sozinho, concluí que aquela insegurança inicial tinha sido em vão. Sim, ele conseguiria realizar a tarefa sem o meu apoio naquele momento. 


A verdade é que não fomos tão longe, descemos a escadaria da igreja até chegar em frente a um casarão antigo. Nos sentamos ali mesmo, nas escadas que levavam até a porta. Nada ensaiado e nem um pouco cinematográfico mas, ali, consegui entender que eu estava prestes a conhecer uma realidade nunca vivenciada por mim.


Carlos Felipe André, esse é seu nome, estava sem óculos quando eu o vi pela primeira vez e assim ficou até o início da nossa conversa. Diferente de mim que uso óculos de grau para corrigir a miopia, ele usa óculos de sol por conta de uma doença hereditária e extremamente rara. Nunca tinha ouvido falar dessa tal Síndrome de Stargardt.


Ciente de sua deficiência, eu me questionei: como ele conseguia se locomover tão bem? A resposta veio de uma forma um tanto quanto simples e soando como algo já naturalizado para ele: “Os cientistas dizem que eu não tenho a probabilidade de ficar cego, mas eu vou enxergar muito, muito pouquinho. Vai deteriorando o foco do olho com o tempo.”


De forma humilde, como quem já está acostumado a falar sobre a sua deficiência, ele usou a minha miopia como comparação para apresentar a sua forma de ver o mundo. Quando estou sem óculos enxergo as coisas embaçadas, mas ainda assim consigo vê-las com mais nitidez que ele.


As coisas eram vistas de uma maneira bem diferente por ele. Carlos conseguia me enxergar porque estávamos frente a frente, mas não conseguia ter uma visão ampla e nítida sobre as outras coisas e pessoas ao seu redor. Apesar de não viver essa realidade desde que nasceu, há 27 anos que ele não possui a mesma perspectiva vivenciada em seus primeiros oito anos de sua vida. 


…


É isso! Respirei fundo e comecei a refletir sobre os privilégios que me cercam, mesmo sem eu perceber. 


…


Aos 35 anos, Carlos é um homem que traz em seu pescoço, sobre o peito, uma medalha. Ele venceu um campeonato de Judô em 2019 e aquele metal reluzente carrega a história de um menino que precisou abdicar dos seus sonhos por conta da sua deficiência: “A intenção era ser jogador de futebol profissional, como qualquer criança brasileira.”


#ParaTodosVerem: Fotografia em enquadramento fechado com fundo branco, mostrando um homem da cintura para cima, com o rosto parcialmente cortado pela borda superior da imagem. Em primeiro plano, ele usa óculos de sol pretos, um brinco na orelha visível e uma camiseta azul com estampas em tons mais claros e letras brancas na manga. Com uma das mãos, segura uma medalha dourada com detalhes vermelhos, azuis e pretos, que apresenta desenhos simbólicos de pessoas com deficiências diversas. Na medalha aparecem as inscrições “FJERJ”, “JUDÔ RIO” e “ETAPA NACIONAL”, além de parte de outra inscrição na faixa inferior “JUDÔ PARA TODOS”.
Em outubro de 2019, Carlos competiu na etapa nacional do “Judô para todos”, no Rio de Janeiro, onde conquistou mais uma vitória em sua vida. | Foto: João Elias Gil

Desde o início, eu já havia percebido o seu amor pelo esporte. Conseguia me reconhecer neste sentimento, por ser uma pessoa encantada por este mundo também. Mas, a verdade é que, para ele, o esporte vai além da prática de exercícios.


Carlos começou a vida esportiva como jogador de futebol, sendo muito admirado pelos colegas de equipe por sua habilidade em campo. Porém, com a deficiência, as coisas tiveram que seguir por um outro caminho. E foi neste momento que ele se encontrou no Judô. 


Mais do que uma prática esportiva, o Judô faz parte de sua história: seu passado, seu presente e, ele espera, também de seu futuro. Carlos começou a praticar em 2019 e, já no primeiro ano, recebeu a medalha de que tem tanto orgulho. Em 2023 ele sofreu uma lesão que o tirou do tatame, mas isso não o desanimou. 


Esse judoca parece ser aquele tipo de pessoa que aprendeu a perseverar e seguir em busca de todos os seus sonhos. Retornou este ano aos tatames e sua próxima competição já está planejada. A preparação agora é diária e segue ainda mais árdua. Seu peso aumentou e a volta após a lesão ainda é um fator que necessita de cuidado. Mas nada disso abala o seu olhar confiante.


Mesmo diante das adversidades que a vida impõe a ele, Carlos se mantém firme no próximo objetivo de se formar em Educação Física e se tornar professor de Judô. Nesse futuro visionário, ele sonha em abrir o seu próprio espaço e, a partir dali, poder mostrar que pessoas com deficiência são tão capazes quanto quaisquer outras. 


Conversamos também sobre as dificuldades que ele enfrentou na infância, devido ao bullying vivenciado e os preconceitos encontrados na sociedade. Na verdade, ele enfrenta isso até os dias de hoje. Isso me colocou de frente para a minha realidade e comecei a refletir, novamente, sobre as diferentes vivências de cada pessoa. É impressionante como a gente sempre aprende.


Ele que já superou um curto período de depressão, me apresentou a importância de ter uma rede de apoio nestes momentos. Nesse momento, Carlos falava de sua mãe com imenso orgulho. Reconheci esse sentimento, pois o seu tom foi o mesmo que eu uso para falar da minha. Parecia que estávamos espelhados.


O seu tio, praticante do kung fu e karatê, foi um dos seus maiores incentivadores a começar no esporte. Seu modo de encarar o esporte foi uma lição que ele aprendeu e que está ultrapassando gerações. Carlos, hoje, é uma das maiores inspirações para a sua filha de treze anos, futura faixa preta de taekwondo. E ela, sua maior motivação de vida. 


Seu sonho de se tornar professor vem da vontade de formar seres humanos mais empáticos. Ele quer ensinar e treinar atletas, mas, muito além disso, quer passar para seus alunos a importância do respeito aos outros. Me emocionei com essa declaração, pois é a visão que eu tenho do meu professor de Muay Thai.


O seu grande ídolo é Antônio Tenório da Silva, o maior campeão de judô paralímpico da história. Pela sua descrição, este é um homem que ultrapassou as barreiras da deficiência com muita garra e perseverança. É surpreendente como Carlos aparenta ser exatamente esse tipo de pessoa: um homem que não se limita e não sente pena de si mesmo. 


Terminamos a nossa conversa com ele já de óculos escuros. Eu não conseguia mais ver o seu olhar, mas seu sorriso de canto de boca me mostrava a felicidade que ele encontrou na vida. A perspectiva da sua vivência é baseada em uma forma carinhosa de enxergar o mundo e de se ver nele, mesmo diante da sua deficiência visual.


A lição que aprendi com esse encontro? Muitas vezes, inúmeras vezes, como pessoas “normais”, temos a mania de nos colocar na posição de “coitadinhos”, mesmo quando temos mais privilégios do que enxergamos. Carlos escancara ao mundo que sua deficiência não o limita e que a sociedade não pode nos limitar, não pode nos fazer acreditar que somos incapazes de estar onde queremos.


#ParaTodosVerem: Fotografia em enquadramento fechado, mostrando um homem da altura do peito até a cabeça, de perfil parcial, com o rosto voltado para a direita da imagem. Em primeiro plano, ele usa óculos de sol pretos com lentes escuras e armação retangular, camiseta azul com estampa de pequenos traços em tons mais claros e cabelo curto, escuro e cacheado na parte superior, com as laterais aparadas. Sua boca está parcialmente aberta. Ao fundo, há uma parede branca e grades verticais pretas, com peças decorativas douradas em algumas hastes.
Quando usava o óculos, eu não conseguia ter acesso ao seu olhar, mas as suas expressões e tom de voz me diziam muito sobre ele. | Foto: João Elias Gil

Este é um homem que, como todas as outras pessoas com deficiência, devem ser vistos e descobertos para muito além do que nós, os “normais”, consideramos sua principal marca. Refletindo mais uma vez, agora percebo claramente como o preconceito pode nos limitar a conhecer pessoas extraordinárias e com talentos também extraordinários. Obrigada, Carlos!


Comentários


O Lampião é o jornal-laboratório do curso de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), produzido durante a disciplina Laboratório Integrado I - Cobertura Noticiosa Hiperlocal.

instagram_edited.png
tik-tok_edited.png
spotify_edited.png
youtube_edited.png
twitter_edited.png
bottom of page