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Figurinhas repetidas criam encontros e revelam diferenças de acesso entre as crianças

  • Alexandre Souza, Ana Giulia Bento e Thais Soares
  • há 3 dias
  • 12 min de leitura

Entre trocas, memórias e a busca por figurinhas raras, a coleção do álbum da Copa de 2026 mostra como lazer, aprendizagem, consumo e diferenças se cruzam na infância. 

Foto: Ana Giulia Bento. #ParaTodosVerem: Grupo de pessoas participa de uma troca de figurinhas da Copa do Mundo 2026 ao redor de uma mesa. Uma criança, enquadrada de lado e com os rosto desfocado segura o álbum aberto, enquanto os demais organizam e trocam cromos em um momento de convivência. O foco e destaque da foto estão no álbum e nas mãos de algumas crianças sentadas ao redor de uma mesa de madeira marrom claro.
Foto: Ana Giulia Bento. #ParaTodosVerem: Grupo de pessoas participa de uma troca de figurinhas da Copa do Mundo 2026 ao redor de uma mesa. Uma criança, enquadrada de lado e com os rosto desfocado segura o álbum aberto, enquanto os demais organizam e trocam cromos em um momento de convivência. O foco e destaque da foto estão no álbum e nas mãos de algumas crianças sentadas ao redor de uma mesa de madeira marrom claro.

A Copa do Mundo já começou e, junto com a competição, a volta de costumes culturais ganham força. Entre elas está o tradicional álbum de figurinhas, produzido pela Panini há quase cinco décadas. O produto transforma o ato de colecionar em uma experiência paralela ao torneio e faz parte do imaginário de diferentes gerações.


Em Mariana, a tradição tem movimentado a cidade, promovendo encontros entre as pessoas. Mas essa atividade revela também disputas, desigualdades e estratégias de mercado presentes na própria experiência de colecionar.


Espaços como o Trem Lúdico, dedicado a jogos de tabuleiro, e o Açaí Brasil em parceria com a Aquarela Papelaria aderiram à iniciativa e se consolidaram como pontos de encontro para colecionadores de figurinhas, seja diariamente ou em datas específicas da semana.


A Trem Lúdico utiliza seu próprio espaço para a atividade, aos Sábados e ou Domingos , mas sempre confirmando antes e por Whatsapp, em qual desses dias irá ocorrer. O Açaí Brasil e a Aquarela Papelaria realizam o encontro toda quarta, das 16h às 18h, na Pracinha do Açaí. Os três estabelecimentos estão localizados no Centro de Mariana. E também o Arraiá de São Pedro, realizado pela Catedral de Mariana, na Igreja de São Pedro, disponibilizou um horário após a quadrilha que aconteceu no último sábado, dia 27 de Junho, às 16h, para troca de figurinha.


Já em Ouro Preto, a Livraria São José se firmou como ponto de troca todos os sábados, a partir das 9h, na Rua São José. E a Lavateria Fast, na Bauxita, de segunda a sexta, das 8h às 16h, e aos sábados até às 12h. A UFOP também encaixou na programação do evento “Campus Aberto”, que aconteceu no dia 27 de Junho, no Morro do Cruzeiro, um espaço destinado para a troca de figurinhas.


Uma tradição que atravessa gerações 

A busca por espaços de convivência presencial fortalece a construção de novos vínculos afetivos e é um elo entre pessoas de diferentes idades, gêneros e gerações. Nossa equipe encontrou Carolina Araújo, de 41 anos, e seu filho, Eduardo Araújo Vidigal, de 8 anos, em um domingo de trocas na Trem Lúdico.

 

O estabelecimento, localizado no centro de Mariana e de propriedade de Desley Oliveira, funciona como um ponto de troca que promove o diálogo e se transforma em alternativa ao isolamento tecnológico criado pelo mundo digital. Como prova disso, ao ser questionado sobre o que mais gosta de fazer no tempo livre, Eduardo afirmou que prefere o contato com outras crianças ao invés dos jogos de celular. 

Carolina Araújo e Eduardo Vidigal participam juntos da coleção de figurinhas, atividade que passou a integrar a rotina da família. Foto: André Vidigal. #ParaTodosVerem: Menino e mãe sorriem para a câmera, um ao lado do outro em um retrato frontal. Ele veste a camisa da Seleção Brasileira e exibe o álbum da Copa 2026 completo na página do Brasil. Ela segura um estojo de figurinhas do Neymar.
Carolina Araújo e Eduardo Vidigal participam juntos da coleção de figurinhas, atividade que passou a integrar a rotina da família. Foto: André Vidigal. #ParaTodosVerem: Menino e mãe sorriem para a câmera, um ao lado do outro em um retrato frontal. Ele veste a camisa da Seleção Brasileira e exibe o álbum da Copa 2026 completo na página do Brasil. Ela segura um estojo de figurinhas do Neymar.

O pequeno colecionador já demonstra autonomia e habilidades de negociação. Ele explicou por exemplo que, quando possui uma figurinha repetida considerada muito difícil de se achar, utiliza o fato de ser rara para conseguir mais do que somente uma única em troca dela, exercitando o diálogo e a percepção de seu valor diferenciado.

 

Sua mãe conta que colecionar o álbum trouxe impactos positivos para o desenvolvimento do filho, estudante do segundo ano do ensino fundamental. Segundo ela, além de contribuir para a diminuição da timidez do menino, a atividade auxiliou no reconhecimento de letras e palavras. O contato com os nomes dos países e dos jogadores presentes no álbum teria estimulado o interesse pela leitura e favorecido seu processo de aprendizagem.


Lara Toffolo, 12 anos, contou que esse é seu segundo álbum da Copa. Começou sua coleção em 2022 junto com seu pai, Ronaldo Toffolo, 47 anos, por iniciativa e insistência dela: “No início meu pai não queria de jeito nenhum, e eu implorei, chorei, falei com minha mãe e ela convenceu ele, agora estamos completando juntos”. Ronaldo conta que foi colecionador  nas edições de 1986, 1994, 1998 e 2002 e que, após vinte anos, voltou a colecionar.

Ronaldo e Lara colam figurinhas juntos enquanto assistem ao jogo do Brasil. Foto: Andréia Toffolo. #ParaTodosVerem: Pai e filha completam juntos um álbum de figurinhas da Copa do Mundo 2026. Enquanto ele aponta para o álbum, ela sorri. Ao fundo, uma televisão exibe uma partida de futebol, reforçando o clima da Copa. 
Ronaldo e Lara colam figurinhas juntos enquanto assistem ao jogo do Brasil. Foto: Andréia Toffolo. #ParaTodosVerem: Pai e filha completam juntos um álbum de figurinhas da Copa do Mundo 2026. Enquanto ele aponta para o álbum, ela sorri. Ao fundo, uma televisão exibe uma partida de futebol, reforçando o clima da Copa. 

Com cerca de 90% da coleção completa e pouco mais de 100 figurinhas faltando, Lara já tem quase todas as seleções finalizadas, incluindo a da Suécia, que está completa. Ela destaca que acha uma ótima forma de passar o tempo colando as imagens, além de adquirir conhecimento sobre os jogadores e as seleções. “Eu gosto muito do álbum, ficar lendo o nome dos jogadores, a data de nascimento” afirma.  


Ronaldo permite que a filha tenha autonomia em todo esse processo de negociação, juntos eles montaram uma lista com os jogadores para auxiliar na organização da coleção. Lara antes negociava as imagens repetidas no horário do recreio da sua escola ou nos grupos com os colegas de classe, além de pontos da cidade de Ouro Preto e Mariana. “Eu troquei uma figurinha repetida do Messi por R$7,00 na escola, um pacotinho, né?”. afirma a menina, e completa explicando que, quando foi ao shopping, “um garoto falou que as figurinhas do Brasil e as brilhantes (especiais) valiam R$2,00”. O seu pai pondera que a regra é da geração dela e ele só respeita.


A mediação familiar desempenha papel fundamental na forma como crianças se relacionam com diferentes experiências culturais e midiáticas. Mais do que só limitar ou ampliar o acesso às telas, cabe também aos responsáveis criar oportunidades de interação, diálogo e convivência. 


O álbum se insere nesse contexto ao estimular atividades compartilhadas entre crianças, seus familiares, amigos, e até mesmo com pessoas que conhecem ali na hora, transformando o colecionismo em uma experiência social construída coletivamente. Assim como Lara, Heitor Camilloto, 12 anos, acompanhado de seu pai, Bruno Camilloto, 49, participa dessa atividade e demonstra empolgação ao contar que seu álbum está quase completo. Além de colecionar com o pai, Heitor compartilha esse momento com os amigos.


A tradição do álbum da Copa do Mundo surge assim como um contraponto significativo, como resistência à virtualização das interações e relações sociais diante da era das redes sociais e feeds infinitos. O seu lançamento é um dos momentos mais esperados pelas crianças durante o torneio e funciona como um "ritual afetivo" que percorre gerações. 

Negociação entre dois jovens colecionadores e seus álbuns.  Foto: Ana Giulia Bento. #ParaTodosVerem: Dois meninos estão sentados à mesa colando figurinhas em um álbum de futebol da Copa do Mundo, na página da seleção do Uzbequistão. Uma delas veste camisa azul com estrelas e segura um maço de cromos; a outra estende as mãos em direção ao álbum. Há figurinhas já coladas, espaços em branco e papéis espalhados ao redor.
Negociação entre dois jovens colecionadores e seus álbuns.  Foto: Ana Giulia Bento. #ParaTodosVerem: Dois meninos estão sentados à mesa colando figurinhas em um álbum de futebol da Copa do Mundo, na página da seleção do Uzbequistão. Uma delas veste camisa azul com estrelas e segura um maço de cromos; a outra estende as mãos em direção ao álbum. Há figurinhas já coladas, espaços em branco e papéis espalhados ao redor.


Para os adultos, colecionar cromos, ou seja, figurinhas presentes em cada pacote, traz também uma certa nostalgia e o desejo de transmitir um legado aos filhos, permitindo que a criança se insira em práticas culturais presentes na memória coletiva e se desenvolvam por meio de habilidades ligadas às interações. 


No entanto, os álbuns de figurinhas também podem ser considerados mídias, já que transmitem informações e são canais de acesso a diferentes experiências. Essa é a afirmação dos pesquisadores Anderson Campos e Helena Maria Jacob, em um artigo publicado na revista FuLiA/UFMG, publicado em Outubro de 2019. A constatação reforça a necessidade de observar essa prática com atenção, especialmente em um momento em que a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital ganha destaque. 


A Copa das elites?

Colecionar figurinhas também evidencia questões que ultrapassam o universo da brincadeira. O aumento dos preços dos álbuns e dos pacotes, as diferenças de acesso entre crianças de contextos socioeconômicos distintos e as estratégias de mercado direcionadas ao público infantil revelam que essa tradição não está imune às desigualdades e os vieses mercadológicos bastante questionáveis da sociedade. 


A edição de 2026 traz mudanças que impactam diretamente os colecionadores. Uma delas é a  ampliação de 32 para 48 seleções na competição. Ao mesmo tempo, os preços dos pacotes aumentaram consideravelmente em relação à edição anterior. Na Copa de 2022 o pacote tinha o valor de R$4,00, com cinco unidades, e foi para R$7,00, em 2026, com 7 unidades, ou seja, um aumento de 25% das figurinhas mas  de 75% dos pacotes. Para quem completou as seleções da última Copa, com 670 figurinhas, o desafio será ainda maior, pois são necessários 980 cromos este ano. 


Um estudo da BBC, de Maio deste ano, estima que o valor para completar o álbum no Brasil seja de R$1.004,90, desde que não venha nenhuma  figurinha repetida em nenhuma compra, o que é praticamente ou efetivamente impossível. Mas o real valor computado por especialistas, seria cerca de R$7.362,90, sem efetuar trocas, o que exigiria a compra de  mais de 7 mil cromos, ou seja, mais de mil pacotes. 


O aumento dos valores evidencia que uma prática historicamente associada à infância e à convivência familiar também está inserida em uma lógica de consumo  nada barata A tradição permanece como espaço de interação e aprendizagem, mas passa a exigir um investimento maior dos colecionadores.


Embora a Copa continue sendo apresentada como um evento popular, os custos de seus produtos cresceram significativamente. De acordo com o Globo Esporte, a Fifa, pela primeira vez, criou um sistema de preços dinâmicos para os ingressos, em que os valores variam conforme a demanda. 


Como consequência, partidas de maior procura chegaram a registrar ingressos entre US$ 2.652 e US$ 9.670 (aproximadamente R$ 13,6 mil a R$ 48,3 mil), enquanto a entrada para a final foi comercializada por até US$ 11 mil (cerca de R$ 55 mil) no lançamento. Em comparação, na Copa do Mundo de 2022, realizada no Qatar, os ingressos possuíam preços que variaram de US$ 11 ( cerca de R$ 60) a cerca de US$ 1.607 ( cerca de R$ 8.500) - valores da cotação da época - na categoria mais alta para a grande final. No Brasil, em 2014, os ingressos possuíam preços tabelados, variando de R$30 a R$1.980.


Com o aumento dos preços e a ampliação do número de figurinhas, completar o álbum passou a depender, cada vez mais, das condições financeiras de cada família. “A gente conversou com ele [seu filho, Heitor], quando decidiu fazer o álbum, que o dinheiro investido seria o dinheiro que ele já tem, enfim, que ele faz a gestão, o que faz parte da educação dele.” Bruno destaca ainda que essa  “era uma questão importante para [o filho] não só ficar gastando dinheiro comprando, mas para poder fazer o sistema de troca girar e, obviamente, no intuito não só de completar o próprio álbum, mas de ajudar outras pessoas a completarem também”.


Essa dinâmica revela que há regras próprias entre os colecionadores. Segundo Heitor e Bruno, uma figurinha especial pode valer por duas tradicionais. Bruno dá autonomia ao filho para negociar, mas acompanha para garantir que elas aconteçam de forma justa para todos os lados. 


O outro jogo por trás das figurinhas

Outro aspecto que exige bastante atenção das mães e dos pais diz respeito à exploração da infância por métodos de mercado bastante questionáveis. Brenda Guedes, cofundadora da RECRIA (Rede de Pesquisa em Comunicação, Infâncias e Adolescência) e consultora da UNESCO no projeto “Crianças, Adolescentes e Telas – Guia sobre Usos de Dispositivos Digitais” (2024–2025), afirma que, embora o álbum de figurinhas contemple o direito ao brincar - assegurado pela Lei nº 14.826, de 20 de Março de 2024 - e favorece processos de socialização, ele também está inserido em uma lógica de mercado que não pode ser ignorada. 


A pesquisadora em Comunicação e Doutora pela UFC chama a atenção para estratégias de consumo associadas ao produto, como ações promocionais entre marcas, que têm nas crianças um público especialmente visado para processos de fidelização. Esse movimento, ainda de acordo com ela, contribui para que discursos mercadológicos ocupem cada vez mais espaço no repertório cultural infantil. 


O cenário evidencia ainda uma sobreposição de vulnerabilidades que atravessa as múltiplas infâncias brasileiras, nas quais marcadores de classe e raça influenciam diretamente o acesso a determinadas experiências de lazer e consumo. 


Nesse sentido, há também implicações éticas e legais nas estratégias de marketing, como a parceria entre a Coca-Cola e a Panini para o álbum da Copa. Brenda destaca o fato de que a ação pode configurar venda casada, já que algumas figurinhas exclusivas só podem ser obtidas por meio da compra de refrigerantes da marca, condicionando à aquisição de outro produto, restringindo a liberdade de escolha do consumidor.  


Além disso, a iniciativa levanta preocupações por envolver um público infantil. Ao associar itens exclusivos a uma bebida ultraprocessada, a campanha explora o interesse das crianças pelo futebol para estimular a compra de refrigerantes como meio para completar a coleção. Segundo Brenda, esse tipo de estratégia vai contra a legislação brasileira de proteção à infância, que incentiva hábitos alimentares saudáveis. 


A especialista também aponta possíveis conflitos da campanha com o Código de Defesa do Consumidor (CDC) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Ela destaca que, embora a empresa possa argumentar que os álbuns são comprados por adultos, o principal público envolvido na dinâmica é composto por crianças e adolescentes.“Quem está trocando as figurinhas nos pontos de troca pode até ser um adulto ou outro, mas a gente tem uma massa muito maior de crianças e adolescentes, que são o público-alvo”, afirma.


Brenda continua dizendo que, direcionar publicidade ou comunicação mercadológica às crianças no Brasil, é abusivo, portanto, ilegal. Ela cita o artigo 37 do Código de Defesa do Consumidor e justifica  que esta publicidade se vale da falta de capacidade das crianças, que não percebem que é uma estratégia mercadológica para fidelizá-las.


A discussão sobre os possíveis impactos da campanha também foi levada a órgãos de defesa do consumidor. Brenda menciona o conselho consultivo do Observatório da Publicidade de Alimentos (OPA), iniciativa vinculada ao Instituto de Defesa de Consumidores (Idec), e conta que a parceria entre Coca-Cola e Panini motivou uma denúncia apresentada pelo Idec, que acompanha casos envolvendo estratégias de marketing de alimentos direcionadas ao público infantil. 


No centro desse debate está justamente a tensão entre reconhecer a criança como sujeito de direitos, merecedora de proteção integral, ou tratá-la prioritariamente como consumidora em potencial, de acordo ainda com a pesquisadora.


A colecionadora destaca que a página temática da Coca-Cola está entre as mais difíceis de completar devido à dificuldade de encontrar determinados jogadores para troca. Foto: Ana Giulia Bento. #ParaTodosVerem: criança com moletom escuro aponta para as páginas vermelhas, dedicadas à promoção da Coca-Cola, de um álbum de figurinhas  aberto sobre uma mesa de madeira. Nelas há   figurinhas de jogadores de futebol já coladas. 
A colecionadora destaca que a página temática da Coca-Cola está entre as mais difíceis de completar devido à dificuldade de encontrar determinados jogadores para troca. Foto: Ana Giulia Bento. #ParaTodosVerem: criança com moletom escuro aponta para as páginas vermelhas, dedicadas à promoção da Coca-Cola, de um álbum de figurinhas  aberto sobre uma mesa de madeira. Nelas há   figurinhas de jogadores de futebol já coladas. 

As falas de Lara e seu pai, Ronaldo, evidenciam, por outro lado, uma postura de resistência à estratégia de marketing da campanha. Embora a parceria entre a Coca-Cola com a Panini incentive a compra de refrigerantes para obtenção de itens exclusivos, a família afirma não ter alterado seus hábitos de consumo em função da promoção. De acordo com o pai, “Das figurinhas da Coca-Cola, a gente só ganha. Ela não bebe refrigerante e eu também não costumo tomar muita Coca-Cola, então a gente não compra aqui em casa”. 


O valor do encontro na era dos feeds infinitos

Atualmente, é possível observar um grande desafio em relação ao esvaziamento do contato presencial na infância, uma vez que as interações digitais muitas vezes substituem o brincar tradicional, a presença física e impactam vínculos afetivos. Essa exposição antes do tempo com o ambiente digital expõe os menores não apenas ao isolamento, mas também a um risco de exploração pelo mercado. E para frear os impactos negativos dessa dependência tecnológica é essencial garantir a regulamentação das redes, protegendo crianças e adolescentes de tamanha exposição e vulnerabilidade.    


O ECA digital (Lei nº 15.211/2025), conhecido também como Lei Felca, sancionada em Setembro de 2025, surge como resposta ao aumento dos riscos enfrentados por crianças e adolescentes no ambiente digital. Entre as principais preocupações estão a monetização de conteúdos produzidos por menores, o direcionamento de publicidade com base em perfis comportamentais e o uso de dados pessoais para fins comerciais. A legislação busca responsabilizar plataformas e empresas de tecnologia, estabelecendo limites para práticas que transformam a atenção, a imagem e os dados de crianças em fontes de lucro.


Dados publicados pelo Cetic.br e pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, no dia 17 de Março deste ano, confirmam esse avanço tecnológico precoce: a proporção de usuários de internet na faixa de 0 a 2 anos saltou de 9%, em 2015, para 44%, em 2024. Enquanto na faixa de 6 a 8 anos, esse índice atingiu 82%. Além disso, a posse de celular próprio dobrou entre crianças de 6 a 8 anos, passando de 18% para 36% no mesmo período. O que  gera preocupações sobre o desenvolvimento cognitivo e social, já que o uso excessivo de telas pode subtrair o tempo essencial para a interação pessoal e o brincar livre.


Diante disso, é notável o valor de ambientes que promovam alguma alternativa à predominância das telas hoje. A criação de memórias construídas a partir da presença física e pelo contato com outras pessoas, de diferentes idades, gêneros e gerações pode proporcionar um melhor desenvolvimento pessoal, social e comunicacional infantil. O contato com outras crianças faz com que os pequenos colecionadores ampliem seus vínculos e fortaleçam laços que vão além da troca, resgatando o valor das experiências presenciais em um mundo cada vez mais digital.


Mas, se por um lado o álbum da Copa do Mundo continua estimulando encontros, trocas e momentos de socialização longe das telas, por outro ele também evidencia desigualdades de acesso. O alto custo para completar a coleção faz com que muitas crianças fiquem de fora dessa experiência, reforçando diferenças socioeconômicas marcantes e exclusões já na infância. 








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O Lampião é o jornal-laboratório do curso de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), produzido durante a disciplina Laboratório Integrado I - Cobertura Noticiosa Hiperlocal.

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