A luta não foi, ela ainda está acontecendo
- Camila Saraiva e Maria Clara Cardoso
- há 1 dia
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Ailton Silva é morador de Botafogo e explica sobre a relação sobre a mineração na comunidade.

A turma do sétimo período de museologia da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) produziu a exposição “Santo Amaro de Botafogo: Memória, Fé e Resistência", sobre a comunidade de Botafogo, localizada próxima a Ouro Preto. A exibição mostra a vivência dos moradores, suas memórias, festas, crenças e costumes, mas, também exibe o lado da comunidade que é impactado pela mineração.
Comunidade, fé e mineração
A comunidade de Botafogo fica localizada a cerca de 7km de Ouro Preto e é movida, em parte, pela devoção ao Santo Amaro. A sua capela foi fundada no final do século XVII e possui grande importância na história da comunidade, com uma imagem do santo que passa de casa em casa e, depois, é entregue na única missa de todo mês, celebrada no terceiro domingo. A comunidade de Botafogo se reúne para celebrar a festa de Santo Amaro, que ocorre de 3 a 6 de agosto. “A nossa festa é tradicional e tem um leilão de prendas, que já vem de muitos anos. Eu tô com 56 anos, meu pai faleceu com 63 e já tinha essa tradição, ela é centenária. As pessoas doam galinha, porco, cabrito, cada um doa uma prenda e é feito o leilão”, conta Ailton da Silva, de 56 anos, nascido em Botafogo
A moradora de Botafogo, Jussara Ferreira, destaca a importância da capela e da religiosidade. “A devoção ao padroeiro Santo Amaro, é o elo dessa comunidade. Valoriza o sentimento de pertencimento e união de todos em prol da vida, da fé e do meio ambiente”, afirma Jussara. Com a mineração, os moradores temem que a capela seja destruída e que a sua história e memórias sejam apagadas. Em 2023, a população criou o projeto de lei 1.117/2023, que tem como objetivo declarar a capela como patrimônio histórico, cultural, religioso, turístico, paisagístico e social de Minas Gerais. O projeto segue tramitando na Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
A comunidade de Botafogo fica às margens da BR-356, na Rodovia dos Inconfidentes, responsável por separar a mineração da comunidade. Do outro lado da estrada está a mina “Patrimônio”, localizada a 90 metros de Botafogo. As primeiras atividades minerárias na área começaram em 2022 com as mineradoras Patrimônio Mineração Ltda, que possui uma licença válida por dez anos para explorar ferro e manganês, e, depois, com a RS Mineração, que atua no limite sul da comunidade.
A Fundação Estadual de Meio Ambiente (Feam) concedeu uma licença ambiental concomitante (LAC1) para a Patrimônio Mineração, que permite a instalação e funcionamento de uma só vez. O projeto permite mineração a céu aberto de 1,35 milhão de toneladas de ferro e de 150 mil toneladas de manganês por ano, além de uma unidade de tratamento de minerais e a instalação de uma pilha de rejeito estéril.
Ailton lamenta os avanços da mineração no território onde possui tantas memórias. “Não tem sossego. A poeira, vibrações, a própria falta de água, que ainda não é muito aparente, mas assim que começar a explorar, vai baixar até o lençol freático. Daqui um tempo vai faltar água, não só para a localidade, mas para quem tá embaixo” relata Ailton, se referindo às localidades que são abastecidas pelos aquíferos de Botafogo.
Os moradores já relatam alguns impactos da mineração. No dia 29 de janeiro de 2026, eles filmaram um transbordo vindo da Patrimônio Mineradora que ocorreu após fortes chuvas no local. A água, com aspecto barrento, atingiu a BR-356, correu pelo córrego do Funil e desceu para o Rio do Funil. “Os moradores que passavam na rodovia, filmaram a lama correndo pela canaleta, ela desceu, invadiu a parte de baixo e também contaminou o rio”, conta Ailton. Em 2025, a mineradora, após soterrar de forma ilegal uma gruta que era patrimônio histórico de Botafogo, foi proibida de realizar atividades em um raio de 250m do local da gruta.

Expo Santo Amaro de Botafogo
A exposição faz parte da matriz curricular do curso de museologia da Universidade e acontece na disciplina Exposição Curricular, que durante o semestre 25.2 foi orientada pela professora Ranielle Menezes.
A turma foi dividida em setores e contou com a colaboração direta dos moradores. As alunas foram à região conhecer e conversar com a população sobre a mostra e entender melhor sua história. “O nosso primeiro contato foi na missa do terceiro domingo para ter esse primeiro contato e construir essa amizade com eles. E a partir deles, a gente foi entendendo o impacto da mineração no dia a dia das famílias, das pessoas que ainda moram lá. Muita poeira, risco de contaminação da água, risco para a capela”, conta Rafaela Arouxa, 29 anos, estudante de museologia.
A abertura do evento ocorreu no dia 6 de fevereiro, no auditório do bloco de salas, às 18h e contou com mesa de abertura, que incluía como convidados o corpo docente e discente do curso de museologia, representantes da reitoria e da Escola de Direito, Turismo e Museologia (EDTM) e de Benito Guimarães, representante de Botafogo. Em seguida, o cortejo da Banda Euterpe Cachoeirense guiou os visitantes até o local da exposição, que ocorre na sala de exposições da EDTM.
A exposição aborda a história e memórias da comunidade de Botafogo, utilizando fotos e objetos dos próprios moradores, com o objetivo de mostrar que a região é muito mais do que a mineração. Também mostra a relação da comunidade com o Santo Amaro.
“Eu espero que o público reflita as atitudes dessas grandes mineradoras. Eu acho que o trabalho que a comunidade está fazendo de protestar e falar assim: ‘Não, gente, aqui vocês não vão minerar. A gente cresceu aqui, nossos antepassados estão aqui’, é respeitar a terra e a memória dessas pessoas”, conta Juliane Rafaela de Souza Neres, 23 anos, estudante de museologia.

Como visitar a exposição?
O período de visitação acontece do dia 09/02/2026 até o dia 27/02/2026, das 9h até às 16h, na sala de exposições da Escola de Direito, Turismo e Museologia (EDTM). A visita não é guiada e não precisa realizar agendamento prévio.
Além da exposição, também serão realizadas oficinas e mostras de documentários. Para saber a programação completa, confira o instagram da exposição.









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