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Um diamante cravado no coração de Ouro Preto

  • Artur Corrêa e Sofia Mosqueira
  • há 1 dia
  • 11 min de leitura

Atualizado: há 7 horas

47° edição


Uma conversa com Lâne Mabel, diretora do Cine Vila Rica, sobre esperanças, tristezas e bastidores do mundo do cinema.


Uma conversa com Lâne Mabel, diretora do Cine Vila Rica, sobre esperanças, tristezas e bastidores do mundo do cinema
Uma conversa com Lâne Mabel, diretora do Cine Vila Rica, sobre esperanças, tristezas e bastidores do mundo do cinema

Nascida e criada em Ouro Preto, Lâne Mabel, de 55 anos, é diretora do Cine Vila Rica desde 2009. Formada em Letras, pelo Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS), na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), fez pós graduação em Filosofia e chegou a se aventurar no mundo das artes, através de um curso livre de artes cênicas promovido pelo Instituto de Filosofia, Arte e Cultura (IFAC), também da Ufop, anos atrás. Começou na Ufop em 1992 como bibliotecária, hoje, ela acumula cerca de 34 anos de carreira, mas foi somente em 2009 que sua paixão virou seu trabalho. Lâne assumiu o cargo de diretora a fim de suprir a falta de servidores da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (PROEX) na área administrativa, e atua no Cine Vila Rica desde então. 


Hoje, quem passa na praça Reinaldo Alves de Brito, localizada bem no centro da cidade, talvez não saiba a importância que o equipamento cultural interditado já teve para Ouro Preto. No chamado “Largo do Cinema”, o prédio rosa de paredes descascando é o que antes foi o Cine Vila Rica, um dos mais tradicionais cinemas da cidade. Para Lâne, é um “diamante cravado ali no coração” de Ouro Preto. Apesar de fechado desde 2018, o projeto se manteve, com muita resistência, no Anexo do Museu da Inconfidência até 2025. Hoje, o Cine Vila Rica tenta ressurgir, mas lida com a ausência de um espaço físico, com a falta de funcionários e com as promessas de reforma do seu prédio. Manter o nome e o legado de um cinema tão tradicional não é uma tarefa fácil, para entender essas questões, encontramos com Lâne no prédio da PROEX, na Ufop, local onde atua dentro da Coordenadoria de Cultura.


As paredes do segundo andar são tomadas pela decoração que preenchia o Cine Vila Rica, que foram trazidas após o encerramento da parceria no anexo do museu. Em direção à sala onde conversamos, o poster de “Limelight”, filme de Charles Chaplin de 1952, e a imagem de “Cabaret”, musical de 1972, carregam memória e vestígios culturais do Cine Vila Rica. Apesar do imóvel original não poder ser ocupado, a paixão por cinema, diretores e magia dos filmes continua na alma de pessoas como Lâne, e a esperança de um dia poder sentar novamente nas cadeiras vermelhas do famoso prédio histórico aumenta a cada dia. 


Lâne Mabel conta ao Lampião sobre sua relação pessoal com o cinema, as expectativas e os processos que envolvem o famoso Cine Vila Rica. 



Após a saída do Cine Vila Rica do Anexo do Museu da Inconfidência, algumas decorações e pôsteres foram para o prédio da PROEX | Foto: Artur Corrêa
Após a saída do Cine Vila Rica do Anexo do Museu da Inconfidência, algumas decorações e pôsteres foram para o prédio da PROEX | Foto: Artur Corrêa

Como começou a sua história com o cinema? 


Eu tenho uma relação com o cinema desde pequeninha, eu lembro que o primeiro filme que eu fui assistir foi “Marcelino Pão e Vinho”, com minha mãe. E a partir daí, eu me apaixonei. Eu tenho uma lembrança muito boa de infância. Eu lembro que, quando eu fui assistir os “Trapalhões nas Minas e Rei Salomão” [1977], tinha uma bruxa na entrada que ficava dando bala pra gente. Ela fazia parte do filme, então tinha o personagem na porta do cinema, né? Minha mãe também sempre gostou muito de cinema, assistia muito Mazzaropi com ela na TV, antes de ser no cinema. Daí pra frente, todo final de semana era cinema, era o meu lazer. Muitas crianças gostam de brincar, mas o meu negócio era cinema, eu queria ir para o cinema.


De onde vem essa sua relação especificamente com o Cine Vila Rica? Ele foi uma presença marcante na sua juventude?


Foi uma presença muito grande desde a minha infância, eu sempre frequentei o Vila Rica. A cidade tinha dois cinemas, então ou eu estava no Vila Rica ou eu estava no outro, que ficava ali na Rua São José. Eu estava sempre vendo filmes. 


Tem algum filme que você tenha visto ou algum momento que tenha te marcado dentro do Vila Rica?


Dentro do cinema Vila Rica, eu assisti um filme que é mais recente, que é “Precisamos falar sobre o Kevin” [2011]. Tem uns 15 anos mais ou menos. É um filme que eu assisti quando eu estava grávida do meu primeiro filho e me marcou muito a questão da maternidade. Eu me lembro de uma cena da britadeira, que é muito marcante: o menino tá chorando e aí essa mãe, num momento de aflição, pega esse menino, vai pra frente de uma obra e para o carrinho com o menino chorando na frente da britadeira, e então ela dá aquele suspiro de alívio. Me marcou muito, é um filme que eu não esqueço, principalmente dessa cena. Eu não sei se é pela circunstância, né? 


O cinema pertencia ao Salvador Tropia antes de ser da Ufop, foi vendido por volta de 1986. Como propriedade da Universidade, ele passa também a ser um projeto de extensão. Como funciona isso?


Então, ele é um projeto de extensão vinculado entre a Proex e o setor de Comunicação e sempre foi voltado para a comunidade. Sempre teve essas duas vertentes: o comercial e a extensão. Comercialmente, eram três sessões, a infantil, depois um filme mais “blockbuster” [filmes de grande orçamento, e sucesso comercial], no horário das 18 ou 19 horas, e o último filme era mais cultural, menos engajado dentro dos grandes cinemas. 


Como você enxergava a relação da cidade e dos habitantes com esse espaço, principalmente nessa época que o cinema funcionava lá no centro?


É um equipamento cultural extremamente importante que a cidade tem. As pessoas frequentavam o cinema, eu lembro de época antes dele ser da Ufop, ainda com Salvador Tropia, que a fila fazia curva. E mesmo depois, eu lembro que um dos últimos filmes que a gente exibiu comercialmente foi “A Culpa é das Estrelas” [2014]. O pessoal veio de Mariana para assistir, ficava lotado, fazia fila, era uma febre, uma sensação. Eu lembro também que no filme do “Titanic” [1997], o cinema tinha aquelas poltronas com a capa igual tem em ônibus e o povo tirou aquelas capinhas e jogavam para o alto. Eu nem trabalhava no cinema ainda, mas lembro dessa cena. 


Como era o funcionamento do cinema, como funcionava para vocês escolherem os filmes? 


O serviço público tem uma outra dinâmica, o cinema só era possível funcionar porque a Universidade tinha um convênio com uma fundação, que era a Fundação Educativa de Ouro Preto (FEOP). Era repassado R$70 mil por ano e, com esse valor, tinha que dar para a gente passar filme durante o ano inteiro. Acontece que, como é uma cidade do interior, não conseguíamos pagar o valor do rolo do filme de quando ele era lançado, tanto que o povo até brincava: ‘Ah, um mês depois o filme chegava em Ouro Preto’. Era preço de shopping, a gente não tinha como competir, a gente cobrava meia entrada, R$ 5,00, né? E, fora as promoções que a gente fazia, o público era estudante, em sua maioria, quase todo mundo pagava meia, então a gente via o que a distribuidora tinha disponível. [...] O cinema nunca fechava, nem em feriado, só que o filme entrava em cartaz na quinta e saía na quarta. 


O cinema foi comercial até 2014. Como o cinema funcionava nessa época e qual foi o auge do Cine Vila Rica?


Enquanto ele estava funcionando comercialmente, eu acho que ele teve o seu auge, mas não perdeu o brilho depois que deixou de ser comercial, porque cinema é cinema, não interessa se é comercial ou não. A gente tem cinema na cidade, não é um blockbuster, não são aqueles filmes que estão sendo lançados, mas eles vão chegar em algum momento aqui e as pessoas vão ter oportunidade de assistir. Enquanto ele estava comercial, tinha toda essa movimentação porque vinham turistas e os estudantes iam para o cinema para assistir filme. É um cinema diferenciado, não é um cinema de shopping, é um cinema de rua, de cidade, totalmente diferente. E por ser uma cidade do interior, as pessoas tinham essa liberdade.


O que mudou depois do encerramento do cinema comercial?


Então, quando foi em 2014, não tinha mais recursos para poder continuar pagando os filmes, e não tínhamos o equipamento digital, que era novidade. Pensei: ‘vamos parar com a atividade?’ Não, a gente vai continuar fazendo as atividades de extensão Cinema com a Escola [as escolas levavam as crianças para assistir um filme e conversar a respeito] e o Conversando Cinema [espaço de debate, com algum convidado]. Vamos continuar movimentando o espaço, só que não vai ter mais o filme comercial. A gente continuou fazendo essas atividades de 2014 até 2018.


Segundo a Pró-Reitoria de Infraestrutura da Ufop, o prédio do Cine Vila Rica fechou temporariamente na semana do 12 de outubro de 2017, devido à carência de servidores. Em função da precariedade do espaço e riscos associados, ele viria a ser fechado definitivamente em 2018, para que fossem realizados estudos de revitalização. Problemas na parte hidráulica, na parte elétrica, um telhado que não suportava as chuvas e a falta de segurança agravaram essa necessidade. Apesar dos cuidados realizados pela Universidade ao longo dos anos, sem uma manutenção geral, o prédio não pôde continuar em funcionamento, precisando buscar recursos para a reforma. Com o fechamento, as atividades foram transferidas para o Anexo do Museu da Inconfidência. 


A fachada do prédio virou um ponto de táxi, por onde as pessoas passam reto pelas portas fechadas e paredes descascando do Cine Vila Rica | Foto: Sofia Mosqueira
A fachada do prédio virou um ponto de táxi, por onde as pessoas passam reto pelas portas fechadas e paredes descascando do Cine Vila Rica | Foto: Sofia Mosqueira
Prédio do Cine Vila Rica quando era o antigo Liceu de Artes e Ofício de Ouro Preto, em meados de 1950 | Foto: Arquivo pessoal Lâne Mabel
Prédio do Cine Vila Rica quando era o antigo Liceu de Artes e Ofício de Ouro Preto, em meados de 1950 | Foto: Arquivo pessoal Lâne Mabel

O que mudou depois do fechamento, como se deu a parceria com o Anexo do Museu da Inconfidência? 


Quando chegou em 2018, que teve a decisão de realmente fechar o espaço, a gente foi buscar alternativas, até porque já tínhamos público. Aí nós começamos a procurar outros espaços, tentamos dentro da própria Universidade e no Centro de Convenções. Mas lá [centro de convenções] a agenda sempre muda, e o cinema tem que ter uma identidade, dias certos, não dá pra gente ficar preenchendo lacuna. É tudo pensado, programado, agendado certinho. 

Aí quando chegou 2018, a gente viu essa possibilidade de fazer uma parceria com Anexo do Museu da Inconfidência, que já tinha um auditório mais bem estruturado sem a gente ter que fazer muita intervenção. Fizemos a parceria em 2018, e encerrou agora em setembro de 2025, por várias questões: de legalidade, de não ser um espaço da Universidade, dos cortes orçamentários que vieram e porque ficamos sem servidor terceirizado. Então tudo isso impactou a continuidade das atividades do cinema no Anexo. A gente encerrou esse contrato e a intenção era vir para o auditório do Departamento de Geologia (DEGEO). As atividades do Cine Vila Rica encerraram, mas continuamos desenvolvendo algumas ações ligadas ao audiovisual. Não com esse nome do Cine Vila Rica, porque é um peso muito grande que a gente não consegue carregar. 


Com o encerramento do projeto, como isso atravessa a sua carreira e sua paixão pelo cinema?


Eu fico muito triste de não continuar desenvolvendo as atividades que a gente fazia. Essa relação com o público, a expectativa, tem um ganho muito grande, da mesma forma que eu sou daqui e gosto de cinema, eu sei da importância desse equipamento cultural para a cidade. Mas ao mesmo tempo eu entendo que não dá para a gente caminhar assim, precisamos de uma estrutura para a coisa fluir bem. Então eu entendo que é um período de transição e que agora, as energias vão ser voltadas para revitalização do prédio e, em breve, ele vai ser entregue de volta para a comunidade.

Eu acho que eu não vou estar aí [ela se refere ao seu cargo na Ufop] quando ele for entregue, porque eu já estou quase aposentando. 


Como foi para você os últimos momentos do Cine Vila Rica aberto?


Toda vez que eu tenho que ir lá, eu fico muito triste de ver aquele prédio fechado. Esse equipamento cultural com capacidade para 400 pessoas, que sempre esteve ali presente, todos os dias, vê-lo fechado é triste, mas a gente entende a situação e eu acho que precisamos unir forças e captar recursos para revitalizar o prédio. A cidade merece e o prédio também. 

A gente veio até 2025 em um movimento de resistência, para poder manter o nome e a atuação. Só que aí chegou num ponto que não deu mais, já não tem gosto que resista. Você quer fazer, você tem vontade, mas não tem recurso.


Desde o fechamento do Vila Rica em 2018, tiveram duas expectativas de reforma, uma da Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), em 2016, e o investimento de R$16,5 milhões do Governo do Estado realizado em 2022. No início de janeiro, a Universidade e a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais se reuniram para debater a revitalização do prédio e os procedimentos necessários para garantia dos recursos pactuados com o Estado. Do recurso investido em 2022, que está sendo gerenciado pela Fundação Gorceix, foram liberados R$6,5 milhões, segundo a Pró-Reitoria de Infraestrutura, e espera-se que o restante seja liberado após vencida a etapa de projeto e avanço nas fases de licitação para as obras propriamente ditas. Atualmente, o projeto se encontra em fase final de aprovação junto à Prefeitura e Conselhos Municipais, além do IPHAN, onde são elaborados os projetos básicos e executivos de arquitetura e engenharia. A previsão é que esta etapa se encerre em junho de 2026, com expectativa de início das obras em 2027.


“O planejamento das obras vai contemplar a restauração do prédio do Cine Vila Rica e a reconstrução de uma caixa cênica nos fundos do terreno, que abrigará em seu interior um moderno Cine Teatro com capacidade para 300 pessoas. Devido às limitações logísticas de execução de obras dentro do centro histórico de Ouro Preto, adicionadas às particularidades deste projeto, que não proporciona um canteiro de obras convencional e necessita que sejam observados aspectos técnicos relacionados à restauração e à arqueologia, estima-se que as obras deverão ser entregues ao final de 2028”, declarou a Pró Reitoria de Infraestrutura em nota.


Como fica a sua expectativa, com essa possibilidade de reforma? 


Muito grande. Toda vez que sai uma matéria falando que está em andamento, que vai ser revitalizado, a gente fica naquela expectativa de que vai ser entregue o quanto antes, né? E essa expectativa vai só sendo adiada, adiada, adiada. Mas assim, eu vejo que ele vai ser revitalizado. E eu entendo que os trâmites são complexos, são difíceis de serem feitos para que a coisa realmente aconteça dentro de um órgão público. Eu falo que a Ufop tem um diamante cravado ali no coração, que é aquele prédio e é um prédio que eu acredito que não vai ser só cinema, eu acho que ele vai voltar a ter aquele grande espaço para eventos culturais.


O que essa reabertura, mesmo você talvez não esteja trabalhando no Cine Vila Rica, representaria para você como amante do cinema? 


Eu vou estar lá sempre, assim que ele reabrir. Ali é a minha segunda casa, vou voltar aos meus hábitos fora da gestão, de quando eu era frequentadora e ia pelo lazer, pelo meu hobby. 


Estamos em um momento em que o cinema nacional está sendo muito bem aclamado tanto no Brasil, como internacionalmente, com as campanhas para o Oscar e esse período de premiações que vem gerando comoção Brasil afora. Quais suas expectativas para o futuro do nosso cinema?


O cinema brasileiro tem produções fantásticas. Eu acho que esse cenário agora, com o Brasil se destacando, vai trazer muito mais recursos.  gente só não faz melhor porque falta investimento no audiovisual, então, com esses grandes prêmios e o país se destacando, vai ter mais investimento. A gente tem grandes diretores, grandes atores, grandes produções, tanto que o resultado tá aí, né? Nós estamos ganhando prêmio, mostrando o Brasil para o mundo.


Como esse movimento pode impactar na reabertura do Cine Vila Rica? 


Eu acho que a comunidade fica muito acomodada, ela quer os espaços, mas ela não briga por eles. Por exemplo, o Cine Vila Rica fechou, eu não posso tomar a frente e fazer um movimento sozinha, então a comunidade tinha que fazer essa pressão, sabe? Porque aí essa pressão vem para a Universidade, vem para Prefeitura, de unir forças para que o espaço seja revitalizado. A sociedade, ela tem uma força muito grande, quando ela se junta, se mobiliza, as coisas acontecem. 


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