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Horror e ficção fantástica em Mariana

  • Isabele Galvão e Paulo Henrique Sales
  • há 2 dias
  • 14 min de leitura

Atualizado: há 1 dia

47° edição


Roteirista e diretora do longa Peregrinação, que estréia dia 31 de janeiro, Luciane Trevisan conta detalhes sobre a produção do filme, sua trajetória artística e compartilha seu olhar sobre o cinema.


#ParaTodosVerem: Na imagem, uma mulher de cabelos pretos, a diretora Luciane Trevisan, veste um casaco branco com listras pretas. Possui os óculos posicionados no topo da cabeça e fora dos olhos. Ela olha para o lado e gesticula com as mãos sobre a mesa. O fundo da foto é uma parede branca.
Luciane Trevisan em entrevista ao Lampião | Foto: Isabele Galvão

Na década de 70, um grave acidente no trevo de Furquim vitimou mais de 11 pessoas. Dentre os mortos, uma jovem mulher loira havia ficado noiva pouco tempo antes do ocorrido e seu anel de noivado nunca foi encontrado. O trecho em que a tragédia ocorreu ficou conhecido como “curva da morte” e, segundo moradores locais, desde então, todas as noites uma jovem loira, usando um vestido branco, vaga por ali à procura de seu anel e pedindo carona para os motoristas que passam pela estrada. Essa é a lenda da Noiva de Furquim, uma das mais famosas histórias de assombrações da cidade de Mariana que serviu de referência e inspiração para o filme Peregrinação, primeiro longa-metragem da diretora Luciane Trevisan. Produzido pelo Instituto Dragão Fantástico, o filme, com 80 minutos, estréia no dia 31 de janeiro no Cine Teatro Municipal de Mariana, às 19 horas. 


Conversamos com Luciane Trevisan para saber mais sobre o longa e sua trajetória nas artes e mais destacadamente no cinema. Peregrinação é o seu quinto filme, os quatro primeiros foram curtas. Sua trajetória de vida é marcada, desde a adolescência, pelo encontro com a arte e suas diversas formas de manifestação, que englobam a música, as artes cênicas e o cinema. E também por uma inquietação empreendedora que, já em 2004, possibilitou que fundasse o Instituto Dragão Fantástico, por meio do qual viabiliza suas produções teatrais e cinematográficas.




Você pode nos contar um pouco sobre a sua trajetória como artista? Desde o teatro, até o cinema?

Eu tenho uma coisa com as artes desde muito criança. Eu sempre gostei muito de desenhar, de escrever e tenho uma tendência um pouco solitária, acho que isso gera muita criatividade. Eu sempre gostei muito de música, e meu primeiro contato com a arte foi através dela. Na adolescência eu fui aprender a tocar violão e achei muito difícil, mas eu gostava muito de cantar e queria tocar pra acompanhar né?! E, a partir do violão, eu passei a ter contato com o teatro, que me capturou de um jeito muito forte. Então eu comecei no palco, atuando, fiz muito teatro amador, mas eu gostava mesmo era dos bastidores, de criar. No meio disso eu resolvi prestar vestibular para Artes Cênicas, isso em 2002, passei aqui na Ufop e fui me especializando em direção. Em 2004, mais ou menos, eu montei o grupo Teatro Dragão, que é um grupo de pesquisa. Todo mundo que se envolve com o grupo gosta muito dessa parte da pesquisa e criação do teatro, então todos os trabalhos que eu fiz sempre foram voltados para esse lugar da experimentação. E a gente fez muita coisa, trabalhando com teatro experimental em espaços não convencionais. Já trabalhei em casas, em rua, em morro, já fiz coisas em tudo que é lugar, porque o meu lance com o teatro é esse, eu gosto de criar a partir do espaço físico em que eu estou trabalhando. E esse tipo de trabalho que eu faço tem a ver com o meu gosto por cinema. Quando você entra para assistir a uma peça, você entra no ambiente daqueles personagens, é como se estivéssemos entrando dentro de uma locação, dentro dessa ficção. Tem muito a ver com o cinema como um lugar que você entra em contato com a ficção muito próxima, apesar dela estar numa tela.


#ParaTodosVerem: No centro da imagem, uma mulher aparece gesticulando com braços e mãos, em uma apresentação teatral. Ela  veste um vestido branco com estampa florida e usa um laço parecido com uma tiara na cabeça, prendendo os cabelos. Atrás dela, do lado direito da foto, outra mulher com um braço sobre o outro e mão no queixo olha para baixo. Ela veste uma camiseta vermelha e calça jeans azul. Ao seu lado, uma mesa coberta por um pano vermelho e desenhos azuis. Ao fundo, uma grande porta azul, com batente verde.
Luciane na peça teatral Edifício Dora, em 2012 | Foto: Acervo Pessoal

E a partir disso, durante a pandemia, eu comecei a procurar coisas alternativas, já que não era possível fazer teatro por conta do distanciamento, e resolvi iniciar alguns cursos de cinema. Através desses cursos, comecei a estudar direção, gostei e resolvi que queria fazer cinema, porque eu sou muito da prática, e fui fazer alguns curta-metragens. A gente já estava no processo de uma peça e eu falei: ‘vamos fazer um spin-off [obra derivada, que nasce de uma produção original] dessa história, pegar os personagens e fazer esse curta’. Então por conta do ponto de cultura que nós temos, conseguimos um dinheiro através da Lei Aldir Blanc e esse projeto acabou virando quatro curtas, porque eu ainda não tinha muita noção de como escrever um roteiro, de quantas páginas o roteiro deveria ter. Então a gente foi gravando. Nós alugamos um casarão no centro histórico de Mariana, construímos os cenários, compramos uma câmera, tudo com o dinheiro que recebemos da lei de incentivo. Temos o equipamento até hoje e a gente usa ele. Nós cometemos diversos erros, mas os filmes saíram, um deles a gente lançou no ano passado, o “Dandara” [2025], que é um filme bem surrealista de horror.

No ano passado o Instituto Dragão Fantástico venceu o prêmio GoFilm, do Goiânia Film Festival, voltado para curtas-metragens, na categoria de melhor roteiro com o filme “Livro de Receitas”. O desafio proposto pela premiação é o de realizar um curta de até 3 minutos em apenas 24 horas.


De onde surgiu a ideia de fazer o filme sobre a lenda da Noiva de Furquim?


Os próprios editais têm se direcionado muito para esse lado de histórias locais. Essa questão das lendas é um interesse pessoal, porque eu gosto muito de horror, desse tipo de gênero fantástico, surrealismo, desse lugar da ficção fantástica, é um lugar que eu me sinto muito confortável. Eu já tinha algumas histórias escritas sobre lendas da Região dos Inconfidentes, e essa da noiva é uma das minhas preferidas. Essa questão da procura pela aliança, do casamento, que é um tema que eu já venho me interessando há algum tempo, sabe? Esses temas relacionados às mulheres, e aí juntou com o vestido de noiva, então, esses símbolos, que mesmo a gente estando no século 21, ultrapassam essa questão da contemporaneidade, e essa questão me interessa muito.

Eu gosto muito de escrever contos, e aí eu fiz a Noiva de Furquim que é na verdade um conto com duas noivas. E a partir da lenda eu criei novos personagens que achei que conversavam com aquela lenda, e os objetos como a aliança permaneceram, os objetos são importantes na trama, mas eu acrescentei outros objetos de casamento que também são muito interessantes. Eu acho que é muito interessante você criar uma ficção em cima de uma lenda. Enriquecer mais aquele assunto, trazer outros questionamentos até contemporâneos mesmo sobre aquilo. E aí foi isso que eu fiz, eu escrevi o roteiro e aí a partir disso a gente começou o trabalho do filme. 


#ParaTodosVerem: Mulher centralizada na imagem, encarando a câmera. Ela está com as mãos no queixo, vestindo um véu branco e vestido branco de noiva com uma expressão séria. O fundo é preto com tons em vermelho no canto superior.
Imagem do filme Peregrinação, inspirado na lenda da Noiva de Furquim| Foto: Divulgação

Como foi o processo de pesquisa da lenda? 

Eu tenho alguns livros sobre lendas. É difícil encontrar material escrito, então eu vi algumas entrevistas, tem um pessoal de Passagem que gosta dessas histórias. Tem algumas coisas no YouTube, eles entrevistaram pessoas, gente que já viram ela, com quem a noiva Furquim já pegou carona. Inclusive tem até um vídeo da Xuxa imitando a noiva Furquim na praça [Gomes Freire], que é muito engraçado. Tem um livro de uma escritora de Ouro Preto, ‘Tesouros, fantasmas e lendas de Ouro Preto’, nesse livro ela também faz o resgate das lendas. Outros livros também, como de parapsicólogos que visitaram a cidade. Então o conteúdo é muito diverso, é um universo que transita muito entre o popular e as pesquisas acadêmicas. Essas manifestações metafísicas, elas pairam por vários lugares, então na minha pesquisa eu sempre vou buscando onde tem, eu não tenho preconceito nenhum, eu vou caçando tudo o que tiver na minha frente e vou fazendo um quebra-cabeça do que me interessa. É através disso e também da minha experiência com a escrita, da criação de personagens, tanto com o teatro quanto com a criação de contos.  


Quais os maiores desafios que você teve para transpor essa história para o cinema?

Foi uma versão que eu escrevi - eu acho mais difícil de se fazer quando outra pessoa que escreve.  E quando é uma coisa que você escreve, você fala: ‘ah quero mudar isso aqui, quero mudar aquilo ali’. E vai se virando consigo mesmo até a hora de gravar. O desafio é quando você já tem uma coisa escrita e aquilo está tão na sua cabeça que, quando parte para a prática se encontra algum impedimento vem aquele pensamento: ‘acho que não vai dar pra fazer isso aqui não’, fora a limitação financeira. Você faz cinema em uma cidade no interior do Brasil, um país que não tem muito apreço pela arte, né? Então é difícil, porque tem coisas que você pensa em fazer, mas por conta dessa limitação surge o desafio de adaptar. O que acaba sendo um exercício de criação, essa busca por outros mecanismos que podem ser, também, muito interessantes.


Nesse processo criativo, como foi transpor o que estava na sua cabeça? Como foi transpor essa história de horror para a cidade de Mariana? E a escolha das locações?


Eu acho que tem o barroco, ele é muito gótico Você passa por uma igreja e ela faz parte do nosso cotidiano. Então assim essas construções góticas trazem muito desse ambiente do horror, que é ligado ao gótico, um dos gêneros pertencentes ao gênero fantástico.


A gente tem uma literatura gótica, o próprio Machado de Assis escreveu alguns contos e outros escritores também, apesar disso não ser falado. Esse apagamento do gótico, da literatura gótica, da literatura de horror no Brasil foi proposital. Essa era uma literatura que vinha de fora, e aí os modernistas quiseram dar uma apagada, porque eles achavam que isso não era brasileiro. E é muito louco isso, porque nós temos várias histórias de horror, interessantíssimas, e eu acho que essa região aqui, por ser uma região de construção barroca, ela tem um milhão de possibilidades de criação do horror. O cenário daqui é muito propício para a criação desse tipo de estética, ele já carrega essa sensação, qualquer coisa que você faz fica lindo, porque tudo soa como um cenário.Eu tinha um interesse muito grande também em trabalhar com as paisagens físicas, paisagens ambientais assim. A gente trabalhou com a cachoeira, a gente trabalhou no morro. Então, assim, até mesmo essas paisagens trazem uma coisa soturna da floresta, do escuro, do medo, que a natureza tem muito isso.



Como você enxerga o cinema enquanto mecanismo de preservação desses contos, lendas, desse patrimônio que é a cultura popular regional?


Eu acho que a gente precisa de vários mecanismos de preservação da nossa história, sabe? Do que é importante para a nossa formação enquanto povo. Eu acho que o cinema é um desses mecanismos e ele é interessante, assim como a música. A música até mais, o alcance é maior.Ele [o cinema] é mais acessível, mais imediato, ainda mais com a facilidade que a gente tem hoje de pesquisar e ir atrás, enfim, isso leva as pessoas a encontrarem a sua própria história. Muitas pessoas não conheciam essa lenda, até pessoas do elenco mesmo, pessoas de Mariana que nunca tiveram contato com ela. E essas histórias são patrimônio, elas pertencem as pessoas daquele lugar que se formam em meio a essa teia de comunicação. Fulano diz para Ciclano que viu determinada coisa em um lugar e isso vai circulando, vai crescendo. Eu acho que a gente precisa preservar, contar e recontar essas histórias e fazer com que as pessoas se interessem. A gente conhece lendas de outros lugares, conhecemos lendas norte-americanas, que eles capturam de outros lugares e nós consumimos achando que são histórias deles. Temos que promover as nossas próprias histórias, que têm a ver com o nosso povo, e lucrar com isso em todos os sentidos.


O cinema brasileiro tem uma forte tradição de cinema de terror/horror. Os filmes do José Mojica Marins, o Zé do Caixão, talvez sendo o maior nome, e mais recente temos Rodrigo Aragão, Gabriela Amaral Almeida, entre outros… Quais as suas maiores referências do gênero no cinema nacional?


Desse gênero eu acho que nada. Eu gosto muito dos filmes do Mojica, o ‘À meia-noite eu levarei a sua alma’[1964] é muito legal, mas a minha maior referência de cinema nacional é o Glauber Rocha. Eu acho tão apaixonante o jeito com que ele fazia, o jeito que ele filmava, os atores são maravilhosos e aquela pegada teatral me apaixonou. Eu também gosto muito do Cláudio Assis, adoro os filmes dele, que também não tem a ver com o universo do fantástico, nem do terror, mas se têm uma coisa que eu gosto muito, são filmes poéticos. Eu adoro diretores que trabalham a poesia dentro do filme. Saindo um pouco daqui, eu amo David Lynch, onde entra o surrealismo, que é um lugar que eu adoro, não só no cinema, mas na arte como um todo, tanto atual, quanto do início do movimento. 


Essas referências estão presentes no seu filme? 


Ah, eu acho que sim. Nesse, principalmente, porque tem muita coisa ali, citações a filmes que eu gosto e cenas que eu referenciei, são coisas que me marcaram muito e resolvi levar isso para dentro do meu trabalho. Com certeza você vai encontrar o Glauber e outros lá.


Quanto tempo durou a produção e gravação do filme? 

A gente fez a pré-produção que era basicamente o roteiro, fizemos aquela parte toda burocrática. Em 2024 já tínhamos alguma coisa. Mas foi em 2025 que começou de fato. Fizemos a escolha do elenco, a gente democratizou mesmo o acesso para quem quisesse atuar no filme. Mas as gravações duraram mais ou menos um ano, porque a gente parou para fazer outros projetos. No final do ano passado nós decidimos que iria virar um longa ao invés de curta, porque ia ficar muito estranho a gente cortar algumas cenas, e tínhamos muito material.


#ParaTodosVerem: Foto de duas pessoas à frente de uma parede branca lisa. À direita, uma mulher de cabelo preto na altura dos ombros, levemente ondulados, sorri amplamente olhando para a câmera. Ela usa uma blusa branca com babados no peito e um vestido ou jardineira jeans azul por cima, além de um brinco. À direita da foto, um homem com cabelo curto preto e barba curta veste uma camisa de veludo cotelê marrom-avermelhada. Ele sorri e olha para a mulher, com o braço direito apoiado sobre os ombros dela.
Luciane Trevisan e seu sócio-produtor, Raed D’angelo | Foto: Isabele Galvão

Vocês foram contemplados pela Lei Paulo Gustavo e conseguiram financiar a produção do filme através disso. Fale um pouco sobre a importância dessas iniciativas de incentivo à cultura para o desenvolvimento do audiovisual daqui da região.


Não só fomos contemplados - a gente também participou de todo o processo de implementação da lei na cidade -, em 2024, e foi muito difícil o diálogo. A gente fazia as reuniões e não andava, a gente explicava como deveria ser, eles queriam dar um valor muito irrisório. Falei: ‘gente, assim não dá para fazer’. 


A gente precisa de produtos mais consistentes para que as coisas evoluam. Contemplar menos pessoas com mais dinheiro. E mesmo contemplando menos pessoas, vai ter mais gente trabalhando, porque o proponente vai conseguir contratar você pra fazer alguma coisa lá, contratar outra pessoa pra outro serviço. Então você pega um projeto com um valor maior, que nem é tanto, e ele vai ser melhor desenvolvido. Isso é coisa de dignidade mesmo, sabe? Por exemplo, a gente ensaiou durante um tempo para fazer o filme. Eu tenho que pagar o ensaio dos atores, eles não podem ficar ensaiando de graça. E é engraçado que eles falaram: ‘nossa, eu nunca ganhei para ensaiar’. É a dignidade, a pessoa está indo trabalhar, você precisa ter condição de dar aporte financeiro para essas pessoas, dar ao menos o mínimo possível, que é alimentação, transporte…Eu acho que isso também afeta o projeto diretamente. Acho muito importante ter essas leis, principalmente no interior para que se desenvolvam projetos mais interessantes, porque tem muita gente criativa que não tem condições de fazer porque não tem esse aporte financeiro e não tem condições de chegar em outros lugares por não ter apoio.É importante entender o que essas pessoas precisam para construir esses projetos. Não adianta só falar ‘nós vamos mandar o dinheiro’, e a prefeitura faz o que quiser, da cabeça dela. E muitas vezes a escuta não é efetiva, ela é fingida. Então, precisa de uma escuta verdadeira, no sentido de que aquilo que é necessário realmente vai ser colocado no edital. É preciso entender quais são as verdadeiras necessidades das pessoas que estão fazendo arte. Quem são os artistas? Do que eles precisam? O que é que eles estão fazendo? Que arte é essa?


Ano passado o Brasil ganhou o primeiro Oscar com "Ainda Estou Aqui". E esse ano pode repetir o feito com “O Agente Secreto", filme de Kléber Mendonça Filho, que foi indicado em quatro categorias e já venceu o Globo de Ouro de melhor filme internacional. É um representante do cinema nordestino, mostrando a importância do cinema regional. Qual a sua visão sobre o cenário do cinema brasileiro hoje, como diretora e como alguém que está à frente de uma produtora de filmes?


As premiações são importantes. São importantes politicamente e em questão da visibilidade que elas dão, mas elas não são um parâmetro do que é bom ou ruim, porque nem tudo está lá. Eu acho que é importante. Acho que o cinema brasileiro, principalmente o cinema independente, precisa de uma visibilidade. Mas é aquela coisa, é o Walter Salles, isso vale muito, o cara ser um milionário, não tem como dizer que isso não vale. A família Moreira Salles é uma família muito importante, que detém parte da cultura brasileira, vários institutos, aparelhos culturais, é uma família muito influente. Ele não saiu do nada, a família dele tem uma tradição de fotografia e tem envolvimento com essa cultura brasileira mais elitista. O Kléber é um cara que já está no circuito, com uma entrada nesses meios mais facilitada. Então eu acho que a premiação acaba sendo mais importante para quem ganha do que para o próprio país. 


É complicado, mas acho que precisamos entender qual é o panorama de quem faz cinema no Brasil de verdade, e não se pautar em um cara que fez um filme e foi para um prêmio. Senão a gente fica achando que as coisas são assim, que todo mundo pode chegar lá. E não é assim. Nós sabemos quais os caminhos que sempre estiveram abertos para ele.A gente precisa olhar para os nossos mecanismos de fomento. Com a ANCINE [Agência Nacional do Cinema], que tem vários problemas, você não consegue acessar recursos se você não ganhou nada, se você nunca teve um grande sucesso. E isso é um absurdo! Então é olhar mais para essas políticas públicas que deveriam investir em quem está começando, porque a gente precisa de mais gente criando, não só as mesmas pessoas, senão fica estagnado, e não se cria uma indústria criativa, você cria uma indústria que é para poucos.

Eu acho que o prêmio é importante sim, mas não contribui para uma valorização do cinema dentro do Brasil, acho que as pessoas não estão preocupadas com isso. Eu vi o Bong Joon-ho, diretor do Parasita, que ganhou o Oscar, dizendo: ‘essa estatueta não mudou nada no meu país’. 


Quais são as suas expectativas para a estréia de Peregrinação? 


Eu costumo dizer que tudo o que eu faço é para mim mesma. Quando eu não fico satisfeita, eu fico puta, mesmo que as outras pessoas amem. Mas quando eu fico satisfeita, para mim está ótimo, mesmo que as pessoas odeiem. Eu penso que o artista está sempre criando para ele mesmo e essa criação dialoga com o outro. Quando você cria uma coisa já pensando no público, isso tá errado. Na tv, por exemplo, isso funciona porque é entretenimento, mas eu acho que isso não cabe no mundo da arte. A gente sempre quer que as pessoas gostem, ou que saiam mexidas, pensando naquilo, se questionando ‘porque que foi assim e não assado?’. Gosto disso também, é legal, eu acho que a arte tem esse papel não só um questionamento político, mas um questionamento artístico também.


#ParaTodosVerem: Cartaz de anúncio da estréia do filme Peregrinação. Na imagem, uma faixa branca na porção  inferior da imagem mostra o nome do filme, da equipe e patrocinadores, escritos em preto. Acima dessa faixa, o selo de classificação etária de 16 anos, na cor vermelha. A imagem mostra uma cortina vermelha ao fundo e na frente dois espelhos refletindo uma mulher em pé, ela veste um vestido de noiva branco. Nos espelhos estão pendurados dois tecidos brancos e transparentes, semelhantes a véus de noiva.
Cartaz do filme Peregrinação, que estréia dia 31.01 no Cine-Teatro de Mariana, às 19h. | Foto: Divulgação

Por fim, indique três filmes que você gosta e que influenciam seus trabalhos


Vou falar um do Glauber que eu gosto muito, que é o ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’ [1964]. Esse é um filme de formação pra mim, como pessoa, como artista. A primeira vez que eu assisti, eu era muito jovem e fiquei ‘nossa, que negócio lindo que esse homem está fazendo’ e comecei a pesquisar sobre ele. Também vou falar um filme que virou um cult, que é o ‘Sociedade dos Poetas Mortos’ [1989]. É um filme que transita entre o entretenimento e o artístico, é interessantíssimo de se ver e eu adoro literatura. Gosto muito da questão da poesia, da juventude, eu amo o Robin Williams, sou apaixonada por ele, e foi um filme que me influenciou bastante como pessoa também. E agora um de terror, tem vários que eu amo. Vou falar de um clássico, se você gosta de terror esse é o seu rito de passagem, ‘O Exorcista’ [1973]. É um filme que não ficou velho, você assiste ainda hoje e fica com medo porque é tudo mecânico. O quarto foi construído para ter aqueles efeitos, a cama foi construída para levantar a menina, a boneca que vira a cabeça, toda a maquiagem que não se tinha até então, e com essa questão do dilaceramento do corpo que veio com o filme. Aí o demônio chegou para ficar. É um filme lindo, belíssimo, uma fotografia linda, sou apaixonada por esse filme.


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