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Annamélia e a consolidação de um legado artístico em Ouro Preto

  • João Pedro Nepomuceno e Laira Ferreira
  • há 1 dia
  • 8 min de leitura

47° edição


A  mulher que transformou a arte, a educação e o acesso da sociedade local às manifestações artísticas é celebrada com a revitalização de seu ateliê.


#ParaTodosVerem: A imagem mostra o interior de um ateliê de arte, com paredes brancas e teto de madeira aparente. Quadros de diferentes estilos estão pendurados nas paredes, incluindo retratos e composições abstratas. Há um cavalete de madeira ao centro, uma mesa com livros e obras organizadas e um móvel com gavetas para guardar trabalhos. Ao fundo, uma janela deixa entrar luz natural e há um cartaz de exposição fixado na parede.
Vista do Ateliê de Annamélia, espaço que preserva obras da artista e também dos familiares. | Foto: João Pedro Nepomuceno

O ateliê da artista plástica Anna Amélia Lopes de Oliveira, conhecida artisticamente como Annamélia, foi revitalizado e reaberto ao público no início do mês de fevereiro, na rua Camilo de Brito, 59, no Centro Histórico de Ouro Preto. O local tem o objetivo de  preservar e difundir sua memória e produção artística. A reestruturação incluiu intervenções físicas no imóvel e a reorganização do acervo, que reúne obras, matrizes, objetos de trabalho e pertences pessoais que ajudam a compreender seu processo criativo. 


A revitalização foi uma iniciativa de suas filhas, Gabriela e Tatiana Rangel, com o propósito de continuar contribuindo para a formação artística na cidade. A visitação ao ateliê é gratuita, necessitando agendamento de segunda a sexta-feira, com exceção dos sábados e domingos em que o funcionamento é das 11h às 17h, e não requer contato prévio. 


Gabriela explica que a ideia é manter a função que o ambiente possuía anteriormente, proporcionando trocas de vivências e experiências. “Um dos nossos grandes objetivos é poder realmente permitir que as pessoas desfrutem desse convívio com o espaço e com a arte, que é exatamente o legado que ela deixou com a gente”.


Além disso, um dos objetivos é que o ateliê possibilite o desenvolvimento de uma residência artística na cidade, onde o participante terá a oportunidade de trabalhar com a técnica de gravura em metal, utilizar o ambiente e a prensa de impressão.


Gravura em metal consiste na técnica de impressão na qual o desenho é feito em uma placa de metal. O processo acontece com o uso de ferramentas e produtos químicos para “riscar” ou corroer a superfície do metal, criando áreas de relevo ou rebaixamento. 


Após a confecção da placa, há o processo de pintura, onde é removida a tinta das áreas elevadas, sendo predominante nas áreas rebaixadas. A placa então é prensada contra o papel ou outro material de impressão, para haver a transferência da imagem final. O processo pode ser feito mais de uma vez, a depender da intenção do artista.

#ParaTodosVerem: A imagem mostra uma mulher sorrindo na entrada de um ateliê. Ela usa óculos, blusa preta e avental escuro com detalhes claros. Está em pé na porta, com os braços à frente do corpo. Ao fundo, aparecem quadros pendurados na parede e um cavalete. A moldura da porta é laranja e a parede externa é em tom rosado.
Legenda: Gabriela Rangel, filha da artistas e uma das responsáveis pela revitalização do Ateliê. | Foto: Laira Ferreira

Trajetória 


Embora não tenha nascido em Ouro Preto, a relação de Annamélia com a cidade antecede a decisão de viver ali. Sua mãe morou no município antes de se mudar para Nova Lima, onde, em 1936, nasceu a artista. Anos depois, a família seguiu para Belo Horizonte, época em que integrou a primeira turma do curso de Belas Artes da Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), iniciando formalmente sua trajetória no campo.


O retorno a Ouro Preto aconteceu já na vida adulta, durante uma visita em que conheceu e se apaixonou pelo pintor e desenhista Nello Nuno, com quem viveu um namoro e posteriormente um casamento. O vínculo afetivo com o local se estabeleceu quando o casal decidiu viver e desenvolver parte significativa de sua produção artística e atuação como formadores no município.


A Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP), criada em 1968, por iniciativa do poeta Vinicius de Moraes, da atriz Domitila do Amaral, do escritor Murilo Rubião e do historiador Affonso Ávila, é cenário para boa parte da história de Annamélia. Em 1969, a instituição teve incluída em sua alçada a Escola de Arte Rodrigo de Melo Franco, um projeto proposto pelo casal recém chegado a Ouro Preto, Nello e Annamélia, e que acabou sendo o palco do primeiro curso de Conservação e Restauro do Brasil.


Segundo a filha, Gabriela Rangel, um dos objetivos do casal era contribuir para a democratização do acesso à arte. A escola foi pensada para romper com barreiras tradicionais de instituições consolidadas, oferecendo cursos gratuitos e programas voltados a diferentes faixas etárias e perfis sociais. “A preocupação desde o início era que fosse uma escola aberta, sem as barreiras das instituições tradicionais. Qualquer pessoa que quisesse poderia frequentar e aprender”.


Fotografia antiga em preto e branco mostra um casal em um casamento. A noiva usa vestido branco de mangas longas e véu sobre a cabeça, sorrindo enquanto olha para o noivo. O noivo veste terno escuro com gravata clara e também sorri. Eles estão lado a lado em ambiente interno, com fundo escuro.
Casamento dos artistas Annamélia e Nello Nuno, em Belo Horizonte. | Foto: Reprodução do Blog de Annamélia

Mesmo após o falecimento de seu marido, em 1975, a artista permaneceu ligada à FAOP. Sua contribuição se estendeu por mais de 50 anos, atuando como professora, diretora e integrante do conselho curador.


No início da instituição, os recursos destinados às artes eram escassos. Sem a presença de Secretarias Municipais e Estaduais de Cultura, a fundação e a escola assumem um papel de protagonistas na promoção de uma ambientação cultural na cidade. Em conversa com César Teixeira, assessor técnico de Produção e Extensão da FAOP, ele destaca que essa função segue norteando a escola. “Se a gente fizer uma pesquisa histórica e ir um pouco atrás, muitas questões que as pessoas pensam que estão sendo inovadoras, sempre existiram. Então, por exemplo, hoje a gente tem o Programa Sextas Abertas, mas a Annamélia sempre se preocupou em ter esse momento da arte. Tinha o dia da criação, onde ela pegava os alunos, ia para algum canto de Ouro Preto e ali levava materiais para poder criar”.


#ParaTodosVerem: A imagem mostra um homem de óculos redondos, cabelos curtos e grisalhos, sentado atrás de uma mesa de madeira. Ele veste camiseta clara e casaco escuro, com os braços apoiados sobre a mesa, olhando para a câmera. Ao fundo, há uma porta aberta com moldura azul e janela em arco, por onde entra luz natural, além de móveis antigos de madeira nas laterais do ambiente.
César Teixeira, representante do setor de produção e extensão da FAOP. | Foto: Laira Ferreira

Democratização da arte e postura revolucionária


Annamélia também se destacava por uma postura transgressora, presente tanto em sua produção artística quanto na forma de viver e de ensinar. Durante o período da ditadura militar, esse posicionamento assumiu caráter político. Ao lado de outros artistas, participou da produção e distribuição clandestina de panfletos contra o regime e chegou a abrigar intelectuais perseguidos. 


Além de contribuir na luta contra a repressão, a professora tinha a prática de integrar grupos marginalizados pela sociedade em suas turmas. César relembra que a criadora tinha a característica de receber a diversidade, “Muitas vezes, aquelas pessoas que não eram bem recebidas na cidade pelas suas características e singularidades estavam junto com a Annamélia, no sentido de que ali tinha um espaço para aquelas pessoas serem o que elas desejavam ser”.


A autonomia marcava igualmente sua atuação cotidiana. A artista dirigia uma Kombi pelas ruas da cidade e buscava os alunos em casa. Para o representante da FAOP, o gesto expressava uma concepção de ensino que extrapolava a sala de aula e reforçava o compromisso da profissional com a formação e o acesso à arte no cotidiano.


O responsável pelo setor de produção e extensão da FAOP explica ainda que ela foi pioneira ao estruturar um ateliê de gravura dentro da instituição e também ao ampliar as possibilidades da linguagem. Para além dos materiais tradicionais, Annamélia utilizava recursos alternativos que expandiam as possibilidades da técnica, como é o caso da série “Jogos de Armar” em que as xilogravuras eram produzidas a partir de tacos de madeira recolhidos de casas em demolição na cidade. A gravurista utilizava peroba-rosa — material originalmente destinado ao piso — como matriz para impressão. A partir desses fragmentos urbanos, criava personagens recorrentes, como rei, guerreiro, anjo, diabo, homem e mulher, compondo um jogo simbólico de forças e oposições.


#ParaTodosVerem: A imagem mostra três matrizes de gravura na cor preta apoiadas sobre papel pardo. Duas são placas retangulares escuras com figuras humanas entalhadas em relevo. Ao lado, há um pequeno bloco, também gravado com a imagem de uma pessoa. Ao fundo, aparecem quadros encostados na parede, incluindo uma ilustração de casario e uma composição em tons rosados.
Tacos gravados por Annamélia em exposição no ateliê | Foto: Laira Ferreira

O Legado Artístico de Annamélia na família e na comunidade


A FAOP representou a realização de um projeto central na vida de Annamélia e também se tornou o cenário das memórias familiares, os filhos acompanhavam a mãe no dia a dia do ateliê e na escola. Gabriela iniciou os estudos em gravura em metal aos 13 anos, no mesmo ateliê que hoje ajudou a revitalizar. Tatiana Rangel seguiu carreira nas artes plásticas, trabalhando ao lado de Gabriela no ateliê, ambas têm obras expostas no local. Nello Rangel, por sua vez, também foi aluno e professor da fundação, dedicando-se à escrita e publicando, durante a pandemia, o livro Entrelaçados, ilustrado por Annamélia, concretizando um antigo sonho da gravurista. Juliana Rangel, embora não tenha seguido carreira profissional nas artes, pinta aquarelas como a mãe. Bruno se dedicou à música, enquanto Bernardo optou pelo artesanato e pelo restauro.


Segundo Gabriela, essa relação com o campo artístico atravessa gerações, alcançando inclusive os netos. “A gente conviveu nessa escola de arte desde criança, não tem muito como não ter isso misturado na nossa vida. Vem junto, de alguma maneira. Não só a gente, como os nossos filhos também. Minha filha é artista, formou-se na Escola de Belas Artes, em cinema de animação e artes digitais. A filha da minha irmã também desenha, pinta, faz ilustração de livros”.


O legado de Annamélia ultrapassa o núcleo familiar e se projeta na própria estrutura do ensino em Ouro Preto. Segundo César Teixeira, “a maioria das pessoas que hoje ensinam gravura foram alunos da Annamélia”. A metodologia da gravurista na FAOP articulava formação técnica, vivência coletiva e inserção profissional de maneira orgânica, a influência não se limitava à transmissão técnica.


#ParaTodosVerem: A imagem mostra uma mulher em um ateliê, segurando uma gravura colorida diante de uma prensa de impressão. Ela veste roupa preta e avental com detalhes claros nas alças. Sobre a mesa da prensa, há uma matriz metálica e uma folha de papel posicionada para impressão. Ao fundo, as paredes exibem quadros e gravuras, além de móveis com materiais de arte.
Prensa de Gravura do Ateliê de Annamélia. Gabriela simula como é realizado o processo de impressão em chapa de metal com cores. | Foto: João Pedro Nepomuceno.

A transição entre formação e exercício profissional acontecia de forma natural: professores e alunos trabalhavam juntos no ateliê, expunham coletivamente e participavam de feiras e mostras, como a tradicional feira de arte no Largo de São Francisco, criada na década de 1970. “Eles tinham essa característica de fazer a formação junto com a inserção profissional. Muitas vezes a pessoa nem percebia exatamente essa passagem de você ser aluno para já estar no exercício profissional, porque isso vinha junto”, explica Gabriela. Essa prática consolidou uma metodologia que permanece como marca da FAOP: aprender fazendo, produzir coletivamente e inserir no circuito profissional ainda durante sua formação.


O ensino da gravura demandava também um rigor no processo, exigindo planejamento, domínio dos tempos de corrosão e compreensão da linguagem técnica. Ao mesmo tempo, incorporava estratégias pedagógicas que tornavam o aprendizado mais acessível para que os aprendizes compreendessem rapidamente os princípios da técnica antes de avançarem para o metal.

Entre os alunos formados por ela estão nomes reconhecidos no cenário artístico, como Gélcio Fortes e Jorge dos Anjos, além da professora Ana Fátima Carvalho, atualmente docente do curso de Arte e Restauro na FAOP.


#ParaTodosVerem: Foto feita de cima mostra uma mesa de madeira com duas fotografias antigas em preto e branco e uma gravura. Em uma das fotos, quatro jovens estão sentados em um muro, com construções históricas ao fundo. Na outra, uma mulher segura duas crianças sentadas em uma rede. Ao lado, há uma gravura em preto e branco de um casario colonial em meio a uma paisagem montanhosa. À esquerda, aparece parte de uma cadeira verde.
Fotos de Annamélia ao lado de seus alunos em Ouro Preto (superior) da artista jovem (inferior), ao lado de uma de suas obras. / Foto: João Pedro Nepomuceno

Exposições e Premiações  


Durante sua trajetória, Annamélia realizou diversas exposições a nível estadual, nacional e internacional, incluindo uma importante mostra de artistas mineiros em Nova Iorque, em que apresentou a Jogos de Armar, inicialmente chamada de Cartas de Oposição, com impressões sobre papel laminado que remetiam ao barroco mineiro. Além disso, foi agraciada com premiações de destaque, como o prêmio Itamaraty na Bienal Internacional de São Paulo.


Dentre todas as exibições artísticas, segundo Gabriela, a mais marcante foi sua exposição de 60 anos de carreira, em janeiro de 2020. Ela destacou que, nessa mostra, Annamélia conseguiu reunir diferentes fases de sua produção, apresentando séries como as Cartas e as paisagens, com trabalhos em gravura, óleo e instalações.


Dentre as principais vertentes de sua carreira, estão as paisagens de Ouro Preto, a série introspectiva relacionada às representações de crianças, e a série reflexiva das cartas e dos jogos de azar. Ao longo de sua carreira, ela desdobrou essas linhas em diferentes exposições e técnicas.

No final de sua vida, por não ter mais forças suficientes para continuar produção de gravuras em metal, devido ao grande esforço necessário para manusear a prensa de impressão, ela continuou dedicando-se a pinturas, desenhos e aquarelas, além de seguir dialogando sobre arte, reforçando seu legado e compromisso com a articulação do cenário artístico.


“Uma coisa que a Annamélia nunca deixou de fazer é estar o tempo todo articulada com o cenário artístico, lia muito e sempre pensou, sempre foi uma mulher de posicionamento crítico e atualizado. Quando já estava mais idosa, era maravilhoso conversar com ela, porque além de trazer o que estava pensando, ela sempre nos perguntava o que a gente pensava ", relembra o assessor técnico César.


Annamélia faleceu aos 88 anos, em 2024, deixando um legado significativo para o cenário artístico municipal e nacional. Seus ensinamentos, didática e produção artística seguem mantendo viva a figura de uma mulher à frente de seu tempo.





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