Influência digital e a violência de gênero: como movimentos misóginos influenciam adolescentes na Região dos Inconfidentes
- Fernanda França, Natália Xavier e Tainá Quirino
- há 2 horas
- 9 min de leitura
O crescimento de conteúdos ligados aos movimentos Red Pill e Trad Wife evidencia os desafios de combater a misoginia e promover relações igualitárias entre as novas gerações.

Movimentos misóginos como Red Pill e Trad Wife que colocam mulheres como ameaça ao sucesso masculino e geram repúdio à liberdade feminina, têm ganhado visibilidade nas redes sociais. Nesses ambientes eles desenvolvem força com posicionamentos sobre papéis de gênero, relacionamentos e a construção da identidade masculina, evidenciando o poder e a dominação. A formação de bolhas digitais que se propagam entre homens e mulheres geram cada vez mais a imersão nesses discursos de ódio contra a mulher.
Entenda o surgimento dos movimentos
Lançado em 1999, o filme The Matrix, tem como trama principal a decisão do personagem Thomas A. Anderson - Neo, interpretado por Keanu Reeves, entre tomar a pílula vermelha ou a pílula azul. Escolhendo a vermelha (red pill), Neo enxergaria e entenderia a realidade oculta da Matrix, enquanto a azul seria o oposto, ele continuaria no conforto da ignorância. Neo escolheu a vermelha e teve a sua vida transformada.
A metáfora da “red pill”, apresentada na obra The Matrix, foi posteriormente apropriada pelo movimento Red Pill, fomentado por grupos misóginos, tornando-se tema de debates sociais. Para esses grupos, tomar a "pílula vermelha” representa um despertar para uma realidade em que os homens estariam em desvantagem em relação às mulheres. Segundo a narrativa do movimento Red Pill, a sociedade estaria orientada pelos desejos e necessidades femininas, o que torna necessário um "despertar" masculino. Claudia Petry, terapeuta e educadora sexual com especialização em Sexualidade Feminina e Ginecologia pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), alega que: "Na prática, é um movimento formado principalmente por homens que passaram por frustração afetiva, rejeição, términos difíceis, sensação de não ser valorizado, e que encontram ali uma explicação pronta para isso e, com isso, podem estar 'camuflando' uma insegurança pessoal e, claro, alguns também buscam controle e validação por meio de status, poder ou performance"
Em conjunto com o movimento Red Pill, Trad Wife (Esposa Tradicional) valoriza um modelo familiar tradicional, em que a mulher se dedica ao lar e aos filhos, enquanto o homem atua como provedor financeiro. O objetivo é a valorização das mulheres que seguem esse modelo conservador.
A legitimação acontece através da romantização dos papéis tradicionais de gênero. A estética do movimento é cuidadosamente pensada, a rotina mostrada por influenciadoras sempre muito bem arrumadas, mostra uma vida leve e equilibrada. Porém, por trás das câmeras seria impossível conciliar maternidade e trabalhos domésticos com a rotina de autocuidado com a aparência e a saúde mental vendida pelas influenciadoras
Esses movimentos têm suas ideias legitimadas quando os valores e discursos propagados são percebidos por seus seguidores como naturais e como respostas reais para resolver problemas sociais. Muitas vezes os conteúdos começam de forma inocente, sendo apresentados inicialmente como desenvolvimento pessoal, sucesso profissional, saúde física ou masculinidade.
Essa associação ocorre porque muitos dos vídeos defendem papéis de gênero considerados normativos e reforçam ideias sobre como homens e mulheres deveriam agir nos relacionamentos e vida pessoal. Por essas características, seu conteúdo costuma ser associado ao conservadorismo e a segmentos da machosfera, um conjunto de homens que compartilham uma mesma ideia na internet, ainda que não necessariamente nas vertentes mais radicais do movimento Red Pill.
O que circula entre eles?

A construção da identidade pessoal e a formação de caráter desenvolvem-se durante a adolescência. É uma fase marcada pela intensa imersão nas redes sociais, que influenciam o desenvolvimento de opiniões e comportamentos. Nesse contexto, os movimentos Red Pill e Trad Wife, chegam aos jovens, que se tornam vítimas dos impactos desses discursos em suas percepções sobre relacionamentos, masculinidade, feminilidade e papéis de gênero.
Ronaldo Senna, 15 anos, é estudante da rede pública de Mariana. Ele diz que não conhecia os movimentos pelos nomes, entretanto, conta que conteúdos misóginos aparecem com uma certa frequência em suas redes sociais. “Já vi vídeo falando que lugar da mulher é na cozinha, que mulher não pode fazer isso, que não pode fazer aquilo”. Ronaldo acredita que esse tipo de conteúdo é prejudicial para os adolescentes, já que podem influenciar outros jovens a pensarem do mesmo jeito. Ele nos conta que a escola já precisou promover palestras de conscientização sobre o tema, educando os alunos sobre igualdade de gênero.
Já para Sofia, de Ouro Preto, e Vitória, de Itabirito, ambas com 15 anos e estudantes do Instituto Federal de Minas Gerais, os movimentos Red Pill e Trad Wife já era conhecido por elas e a misoginia evocada por eles é muito presente em seu dia a dia. Elas contam que os meninos apresentam um sentimento de superioridade em relação às meninas, e que não aceitam serem contrariados sobre seus modos de pensar, muitas vezes acreditando terem razão sem terem argumentos plausíveis. As meninas destacam que a misoginia não afeta apenas as mulheres, mas também gera pressões e desconfortos para que os meninos afirmem sua masculinidade “Os homens já crescem odiando coisas relacionadas às mulheres. Então assim, uma mulher crescia podendo brincar com um carrinho, mas um homem nunca podia ser visto brincando com uma boneca.” diz Sofia.
Sofia e Vitória comentam sobre o influenciador Breno Faria, criador da conta “Café Com Teu Pai” nas redes sociais, que produz conteúdos voltados para relacionamentos, masculinidade, casamento e papéis de gênero. Embora o influenciador não afirme fazer parte do movimento Red Pill, seu conteúdo é frequentemente associado à chamada machosfera, em alguns casos, difundem críticas ao feminismo e visões tradicionais sobre as relações entre homens e mulheres. As meninas destacam que, por serem transmitidas por um adulto, os conteúdos misóginos tendem a ser percebidos pelos jovens como uma verdade absoluta.
Henrique, de 12, estudante do 7º ano em Ouro Preto, afirma não conhecer diretamente os termos, mas reconhece a influência das redes sociais na formação de opiniões e comportamentos. Para ele, homens e mulheres são iguais e devem manter uma relação baseada no respeito mútuo, pois “ninguém é melhor do que ninguém”. O estudante também relata já ter visto conteúdos machistas nas redes sociais que ofendem mulheres por sua aparência física, considerando esse tipo de discurso inadequado e desrespeitoso.
Além disso, ele destaca a importância de discutir temas como igualdade de gênero e violência contra a mulher entre os jovens, uma vez que, ainda percebe a presença de atitudes machistas na sociedade e principalmente na internet. “Tem muita gente na internet falando que não pode bater na mulher e que existem leis para isso.” Para Henrique, o respeito às mulheres é um princípio fundamental que deve orientar as relações sociais.
É necessário compreender o nível de conhecimento das famílias sobre esses movimentos, além de identificar se percebem mudanças de comportamento nos jovens dentro e fora de casa. Fabiana, de 46, mãe do Henrique, já citado acima e do Matheus, de 20, afirma que já ouviu falar sobre esses movimentos, mas nunca ouviu seus filhos comentarem sobre o assunto. Ela relata perceber diferenças entre os jovens em relação a pensamentos conservadores e machistas, além de nunca ter ouvido conversas sobre esse tipo de assunto entre Henrique e seus colegas.
Além disso, acredita que as redes sociais exercem forte influência na formação do caráter e na construção da visão que os jovens desenvolvem sobre as mulheres. “O meu papel, como mãe de dois filhos, sempre foi o diálogo, argumentar e esclarecer o que é certo, porque hoje vivemos em um mundo onde muitas vezes o errado virou certo.
Diante de tantos ataques às mulheres e dos altos índices de feminicídio, procuro ensinar o respeito e fazer com que eles respeitem colegas, professoras, namoradas e futuras esposas."
Sinais na escola
A escola é um dos principais espaços de socialização dos adolescentes, sendo um ambiente onde comportamentos, discursos e valores podem ser observados de forma mais ampla. Em Mariana, apesar de já contarem com a Patrulha Maria da Penha, a Comissão Municipal de Enfrentamento à Violência Doméstica e o Conselho Municipal de Defesa dos Direitos das Mulheres, observa-se um aumento nos casos de violência contra a mulher. A Lei Ordinária Municipal nº 4.084/2026 denominada Lei Larissa Maria de Oliveira, foi instituída em homenagem a Larissa Maria de Oliveira, assassinada por seu companheiro no bairro Santa Clara em 3 de fevereiro de 2026. A ação brutal vitimou Larissa, de 25 anos, e sua filha Maria Fernanda, de apenas 2 anos.
O objetivo da lei, aprovada por unanimidade pela Câmara Municipal de Mariana, é capacitar a rede de proteção à mulher para reconhecer sinais de violência antes que medidas extremas sejam tomadas. Além do monitoramento, a lei foca na educação de base como ferramenta de transformação a longo prazo, levando o debate para dentro das escolas. Em entrevista, o vereador de Mariana, Ítalo de Majelinha destacou: “Ter palestras nas escolas, palestras para meninos, palestras em empresas e ações que visem promover essa conscientização para as mulheres, mas principalmente para os homens. Porque essa é uma pauta que eu defendi na Câmara, e quem comete a violência são os homens. A gente fica querendo falar para as mulheres, mas, se ela não for atacada, não precisa se defender.” destaca.
Os professores, assim como os pais, são fundamentais no debate sobre o impacto dos discursos no desenvolvimento dos jovens. Maria Rita, professora de História em Ouro Preto, afirma que sua escola promove o respeito e intervém contra comportamentos de represália. Ela destaca a importância de formar cidadãos conscientes e, sobre o amplo acesso dos estudantes às redes sociais, pontua a necessidade de discernimento, "A gente sempre trabalhou temas como cidadania, participação política e o papel do cidadão dentro da sociedade, para que os alunos se compreendam como sujeitos políticos e cidadãos que devem respeitar os direitos dos outros. A política vai além das questões partidárias, eles precisam entender que, enquanto seres sociais e pertencentes a diferentes grupos, como a escola, a família, um grupo de futebol ou em qualquer outro espaço de convivência eles possuem seus direitos e deveres."
A gente quer saber
Para compreender melhor a visão da população sobre os movimentos Red Pill e Trad Wife e seus possíveis impactos na formação de adolescentes, fomos às ruas de Mariana para ouvir diferentes opiniões. Por meio do quadro Povo Fala, algumas pessoas compartilharam suas percepções sobre o tema, relatando experiências e reflexões sobre a influência desses conteúdos nas redes sociais e na construção de comportamentos e valores entre crianças e adolescentes.
Pedro Lucas, de 24, afirmou conhecer o movimento Red Pill principalmente por meio de conteúdos que aparecem frequentemente em suas redes sociais. Para ele, o problema não está apenas nas decepções amorosas ou conflitos comuns dos relacionamentos, mas na forma como o movimento constrói uma narrativa de oposição entre homens e mulheres. "Eu vejo a galera consumindo esse conteúdo falando que as mulheres estão tentando controlar os homens, tentando controlar o mundo", comentou.
Já Raíssa, de 21, relatou que conhece tanto o Red Pill quanto o Trad Wife por encontrá-los com frequência em plataformas como Instagram e Twitter. Em sua visão, a influência desses movimentos sobre adolescentes não acontece apenas pela internet, mas também pelo ambiente familiar. Ela acredita que muitos jovens reproduzem comportamentos machistas observados em casa e reforçados por discursos conservadores difundidos por adultos. "Os adolescentes são reflexo dos pais deles, são reflexo do que eles veem em casa", afirmou. Raíssa também destacou que o ideal de submissão feminina promovido por alguns conteúdos direcionados às mulheres pode limitar a autonomia e a emancipação feminina.
As estudantes Ana Carolina, de 20, e Ana Laura, de 19, demonstraram preocupação com a popularização desses discursos entre crianças e adolescentes. Ana Laura observou que conteúdos frequentemente apresentados como "piadas" acabam influenciando comportamentos e atitudes machistas entre jovens cada vez mais novos. Ela destacou que esse tipo de discurso já pode ser percebido no comportamento de crianças e adolescentes em idade escolar. "A gente vê um pouco o traço dessas piadas no comportamento de crianças de 12 e 13 anos", ressaltou.
Ana Carolina complementou a análise ao afirmar que os movimentos contribuem para a objetificação e a inferiorização das mulheres. Segundo ela, o problema se torna ainda mais preocupante quando mulheres também passam a reproduzir discursos machistas e misóginos.
De modo geral, as entrevistas revelam uma percepção crítica em relação aos movimentos Red Pill e Trad Wife. Os participantes apontaram que esses conteúdos podem influenciar adolescentes na construção de valores e comportamentos, especialmente quando encontram respaldo tanto no ambiente digital quanto nas relações familiares e sociais.
Na região dos Inconfidentes, os movimentos Red Pill e Trad Wife difundidos nas redes sociais já influenciam a forma como muitos adolescentes compreendem os papéis de gênero e os relacionamentos. Os impactos aparecem no cotidiano, reforçando estereótipos, naturalizando a misoginia e impondo expectativas rígidas tanto para meninas quanto para meninos. Durante a construção desta matéria, foi perceptível a presença desses movimentos na vida dos adolescentes, seja diretamente ou através de discursos misóginos. Muito além de uma tendência virtual, eles afetam diretamente a vida e a identidade dos jovens. Combater essa realidade exige um esforço conjunto focado em educação crítica, igualdade de gênero e preocupação com o ambiente digital para que os adolescentes saibam questionar o que consomem na internet e escolham construir relações mais saudáveis e respeitosas.


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