Da redação à investigação
- Alberto Godefroid, Bárbara Guido e Milena Pereira
- 2 de jul.
- 10 min de leitura
Com passagem pelo jornalismo e pela Delegacia da Mulher, a delegada Aline Lourenço fala sobre a rotina na Polícia Civil, o atendimento às vítimas e os desafios da segurança pública em Mariana (MG).

Antes de ocupar o gabinete da delegacia, Aline Lourenço, 35 anos, nascida em Belo Horizonte, conheceu parte da rotina policial pelas ruas, atuando como repórter. O trabalho no jornalismo a colocou em contato com investigações, boletins de ocorrência, vítimas e agentes da segurança pública. A experiência despertou seu interesse pelo Direito, curso em que se graduou em 2019 na Universidade Federal de Ouro Preto e que, depois, abriu caminho para sua atuação na Polícia Civil.
Delegada titular da cidade de Mariana desde abril de 2026, Aline chegou após atuar em Belo Horizonte, no plantão da Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher, Criança, Adolescente e Vítimas de Intolerâncias, além do plantão digital, lidando diretamente na assistência a grupos vulneráveis. Hoje, ela está à frente de uma delegacia com demandas variadas e uma realidade diferente daquela que conheceu na capital.
Em entrevista ao Lampião, ela fala sobre a mudança de carreira, a rotina policial, o combate à violência doméstica e a relação entre a Polícia Civil e a população.
Jornal Lampião (JL). Antes de chegar à Polícia Civil, você começou sua trajetória profissional no jornalismo. Como foi essa transição de carreira, do jornalismo para o Direito, até assumir o cargo de delegada?
Aline Lourenço (AL). Eu me formei em Jornalismo muito nova, em 2014, aos 21 anos, e logo comecei a trabalhar em jornais, como repórter de rua, na editoria de Cidades. Acompanhei alguns casos de repercussão em Belo Horizonte e, a partir daí, surgiu um interesse em seguir para a área do Direito. Eu não tinha especificamente o plano de me tornar delegada, mas aquilo plantou uma sementinha. Lembro de um caso que me marcou muito, em que acompanhei o trabalho investigativo de um delegado. No início, pensei que o Direito poderia me auxiliar como jornalista, mas ao longo do caminho descobri que queria ser delegada de polícia.
JL. Essa sua experiência como jornalista te ajudou na escuta, apuração e contato com pessoas em situação de vulnerabilidade?
AL. Existe uma interface entre a atividade de repórter e a atividade investigativa. Eu lembro, e utilizo até hoje, uma frase de uma chefe que tive em uma redação, que dizia que não existe resposta mal dada, existe pergunta mal feita. Isso vale para a investigação também, porque muitas vezes é o nosso olhar que direciona a oitiva [ato formal de escuta] de uma testemunha, de uma vítima ou até o interrogatório do preso. Essa experiência ajudou muito a construir esse olhar de apuração.
“Hoje recebemos, em média, de três a cinco pedidos de
medidas protetivas por dia.”
JL. Quais demandas chegam com maior frequência à delegacia hoje?
AL. A maior parte dos casos está relacionada à violência doméstica, algo que acontece em todo o país. Recebemos muitos pedidos de medidas protetivas de urgência e, a partir deles, instauramos as investigações. Hoje recebemos, em média, de três a cinco pedidos de medidas protetivas por dia, o que é uma quantidade alta. Também temos casos envolvendo pessoas em situação de vulnerabilidade, homicídios e tráfico, mas a violência doméstica é a principal demanda.
JL. Como é conduzido o atendimento quando a vítima procura assistência na delegacia?
AL. Quando a procura é espontânea, geralmente para solicitar uma medida protetiva, contamos com um núcleo especializado de atendimento à mulher, o primeiro da região. Também temos a Sala Lilás, um ambiente mais humanizado. Ela difere de um ambiente policial mais hostil, fechado, pois é um espaço pensado para o atendimento da mulher, de crianças e adolescentes também, que muitas vezes acompanham essas mulheres.

JL. Muitas mulheres procuram a delegacia quando estão em situação de violência. Como é feito o encaminhamento para que elas recebam atendimento e proteção?
AL. Nós temos uma rede de prevenção à violência doméstica. Eu recebo, às vezes em tempo real pelo WhatsApp, atendimentos em que a polícia me avisa que uma mulher vai ser encaminhada. Nossa primeira preocupação e prioridade é sempre encaminhá-la para o atendimento de saúde. Depois, esses relatórios médicos, com autorização da vítima, são compartilhados com a gente para que possamos fazer um exame de corpo de delito e, assim, evitar a revitimização, ou seja, que a mulher passe várias vezes pelo mesmo processo de ter que fazer um exame médico ou relatar [o caso]. Muitas vezes existe uma demanda de retirada de pertences da residência e a gente faz essa articulação com a Polícia Municipal para encaminhá-la, acompanhar no domicílio e levá-la para um local seguro. Posteriormente, todos esses pedidos de medida protetiva, ou de descumprimento de medida protetiva, são comunicados imediatamente tanto para o Ministério Público quanto para o Judiciário.
“O primeiro passo é sempre identificar os sinais de violência.”
JL. Diversas vezes de forma sutil, a violência não aparece primeiro como agressão física e pode ser difícil para a própria mulher reconhecer o que está vivendo. Como identificar esses sinais e buscar ajuda antes que a situação se agrave?
AL. O primeiro passo é sempre identificar os sinais de violência, seja física, psicológica ou moral. Até porque a própria Lei Maria da Penha prevê outros tipos de violência que não só a física. A violência pode ser moral, pode ser psicológica, até patrimonial. Muitas vezes a mulher que está inserida nesse contexto não identifica [a violência], principalmente quando não é tão explícita quanto uma violência física. Uma agressão física é mais fácil de identificar, mas uma violência psicológica nem sempre. O primeiro passo é identificar esses sinais, seja a própria mulher ou aquelas pessoas mais próximas a ela. Uma vez identificados, que essas pessoas procurem ajuda, seja da polícia, da própria assistência do município ou do Ministério Público, que também é uma porta de entrada.
JL. A sua trajetória na Polícia Civil passa por Belo Horizonte, antes de chegar a Mariana. Acreditamos serem realidades bem distintas de uma mesma instituição, mesmo estando no mesmo estado. Na comparação entre esses contextos, quais são hoje os maiores desafios da delegacia de Mariana em relação à estrutura, equipe e atendimento?
AL. Eu acredito que, como toda instituição policial, gostaríamos de contar com mais efetivo e mais recursos, porque hoje a demanda é muito grande. O contexto de criminalidade que a gente tem hoje não é aquele de 10, 15 anos atrás. Embora Mariana seja uma cidade com estimativa de 70 mil habitantes, a gente tem uma população flutuante muito grande, que vem de fora e impacta diretamente no tipo de criminalidade que a gente tem aqui.

JL. O aumento da população flutuante na cidade também está ligado ao processo de reconstrução e reparação de danos após o rompimento da barragem de Fundão, em 2015. Esse cenário influencia a atuação da Polícia Civil?
AL. O controle social também é uma das formas de prevenção da criminalidade. A gente sabe que Mariana teve episódios que impactaram diretamente o contexto social da cidade. O rompimento da barragem em 2015 foi algo muito importante para a sociedade e para a comunidade marianense. Isso impacta nas questões sociais e reflete no próprio trabalho da Polícia Civil, porque aumenta a nossa demanda relacionada a essa heterogeneidade da população.
“Mais mulheres ocupando cargos de poder e decisão faz com que o nosso olhar também seja diferenciado.”
JL. A presença de mulheres em espaços de liderança ainda representa uma mudança importante em áreas tradicionalmente ocupadas por homens, como a segurança pública. Na sua avaliação, o que a presença de uma mulher à frente da delegacia pode acrescentar, tanto à relação com a população, quanto à forma de conduzir o trabalho policial?
AL. Embora historicamente as instituições policiais sejam ambientes predominantemente masculinos, a gente já vê esse cenário mudando. Eu vejo, até pela minha turma [no curso de formação], uma presença mais substancial de mulheres fazendo treinamento para a polícia. A gente vê mulheres em cargos de chefia e é muito interessante que, nesse momento, tenha também duas juízas, duas promotoras e uma delegada na cidade. Isso reflete as mudanças estruturais que estão acontecendo no nosso país como um todo, não só dentro da polícia, mas dentro do Judiciário. Mais mulheres ocupando cargos de poder e decisão faz com que o nosso olhar também seja diferenciado. Uma mulher vai ter um olhar diferenciado para a questão da violência doméstica e dos crimes contra a dignidade sexual. A gente carrega muito das nossas experiências e isso contribui também para o crescimento institucional.
JL. Como mulher em uma instituição historicamente masculina, você já enfrentou algum tipo de discriminação ou preconceito ao longo da carreira?
AL. Dentro da instituição eu não me recordo de ter enfrentado algo nesse sentido. Sempre fui muito respeitada pelas equipes com as quais trabalhei. Tenho a felicidade de trabalhar com pessoas que reconhecem a importância da representatividade feminina e também entendem a questão da hierarquia, que é um dos pilares da Polícia Civil. Todos reconhecem a liderança e a gestão. Talvez as situações mais diferentes aconteçam no contato com o público, porque algumas pessoas ainda demonstram um certo ar de surpresa ao ver uma mulher ocupando essa posição. Mas eu acho que isso está mudando e, no geral, minhas experiências têm sido positivas.
JL. Na sua trajetória, o estudo aparece como caminho para independência, estabilidade e ocupação de espaços de liderança. Como essa experiência orienta a forma como você vê a presença de mulheres em carreiras como a sua na Polícia Civil?
AL. Eu digo sempre: estudem, estudem muito, estudem quando puderem, porque estudar é privilégio, não é sacrifício. É muito bom quando a gente não depende de outras pessoas para ter a vida que quer. Eu sempre coloquei isso na minha cabeça, que precisava construir a vida e a carreira que eu queria por mim mesma, porque se é outra pessoa que te dá, do mesmo jeito ela pode tirar. Quando você constrói o seu próprio “castelo”, é muito difícil sair dali. Não existe essa história de príncipe encantado que vai te salvar. Quem vai te salvar é você mesma. Então, estudem, trabalhem, sejam independentes, porque é muito bom viver dessa forma.

JL. Agora falando de uma fase completamente nova da sua vida, você está prestes a viver mais intensamente a maternidade. Como essa espera tem atravessado a sua rotina como delegada e a sua forma de olhar para a própria carreira?
AL. O desafio da maternidade está só começando. A gestação já traz mudanças, inclusive físicas, mas, graças a Deus, estou vivendo uma gravidez muito tranquila. Tenho conseguido exercer a minha profissão normalmente. Por exemplo, recentemente participei de uma operação na rua. É interessante ver uma mulher grávida, de colete e armada, em uma atividade que, talvez há algum tempo, as pessoas não estavam acostumadas a ver. Isso mostra que é possível conciliar. Eu ainda não sei como será depois que minha filha nascer, mas acho que vamos aprendendo à medida que os desafios aparecem. Vou passar pelas mesmas questões que toda mãe enfrenta ao tentar conciliar carreira, maternidade e família.
JL. Em algum momento você sentiu que precisava escolher entre a carreira e a maternidade?
AL. Eu sempre tive comigo que o primeiro passo era garantir a carreira e a estabilidade porque, desde a faculdade, eu já tinha um olhar voltado para o concurso público e sabia que queria seguir esse caminho. As coisas aconteceram nesse sentido: primeiro construir uma carreira e conquistar estabilidade, para depois começar a pensar nos planos relacionados à maternidade. Acho que a minha geração tem buscado isso, firmar primeiro o pé na carreira para depois conseguir realizar outros sonhos e objetivos ligados à família e à maternidade.
JL. Por fim, como você gostaria que a população de Mariana enxergasse o trabalho da Polícia Civil?
AL. Eu gostaria que as pessoas se sentissem mais próximas do trabalho da Polícia Civil e entendessem que a gente está aqui como parceiros. Nosso trabalho é repressão, mas também prevenção. E nós precisamos desenvolver um papel muito importante de conscientizar as pessoas sobre os papéis delas. O primeiro tipo de controle da criminalidade é o controle social. Quando os laços são bem fortalecidos dentro da comunidade, nas escolas, nas igrejas, é muito mais difícil que ocorra ali dentro algum tipo de violência. A gente também tem o papel de fiscalizar, de reportar. A polícia exerce esse papel muito importante também na prevenção, na conscientização das pessoas sobre os papéis que elas exercem no combate à criminalidade. A segurança pública é direito, mas é dever de todos também.
(Entrevista concedida em 18/07/2026)
Serviço à população A Delegacia da Polícia Civil de Mariana (MG) funciona de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 12h e das 14h às 18h30, no prédio do antigo Fórum, na Avenida Getúlio Vargas. O telefone para contato é (31) 3557-2811. Fora do horário de expediente, os atendimentos são realizados pela Delegacia de Plantão de Ouro Preto, que funciona 24 horas por dia, na Rua Professor Francisco Pignataro, nº 10, bairro Bauxita. Mulheres em situação de violência também podem procurar a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) de Ouro Preto, localizada na Rua Professor Geraldo Nunes, nº 554, bairro Vila Itacolomy. Os telefones são (31) 3552-6800 e (31) 97595-3335. Denúncias anônimas podem ser feitas pelo Disque 181. |



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