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Um incômodo recorrente e persistente

  • Douglas Júnio, Gustavo Reimberg e Fernanda Maisa
  • há 3 horas
  • 6 min de leitura

População questiona o atraso da obra e enfrenta as consequências da vala profunda aberta onde a Travessa São Gonçalo encontra a Rua do Catete.


Trecho que liga a Travessa São Gonçalo e a Rua do Catete foi interditado desde o final de janeiro deste ano e continua sem solução. Foto: Douglas Júnio. #ParaTodosVerem: Foto de uma rua com uma obra cercada por tapumes metálicos. Em primeiro plano, uma pessoa de costas, com mochila vermelha, desce uma rampa segurando uma sacola. Ao lado, há uma pilha de entulho e, ao fundo, trabalhadores com capacetes atuam no canteiro de obras enquanto pedestres caminham pela calçada. Dia ensolarado. 
Trecho que liga a Travessa São Gonçalo e a Rua do Catete foi interditado desde o final de janeiro deste ano e continua sem solução. Foto: Douglas Júnio. #ParaTodosVerem: Foto de uma rua com uma obra cercada por tapumes metálicos. Em primeiro plano, uma pessoa de costas, com mochila vermelha, desce uma rampa segurando uma sacola. Ao lado, há uma pilha de entulho e, ao fundo, trabalhadores com capacetes atuam no canteiro de obras enquanto pedestres caminham pela calçada. Dia ensolarado. 

No final de janeiro de 2026, época das fortes chuvas que atingiram Mariana, moradores da cidade foram surpreendidos com a abertura de um grande buraco na Travessa São Gonçalo com a Rua do Catete, uma das vias de acesso mais importantes do município. O local afetado é a principal passagem de moradores que residem ao longo da travessa e no bairro São Gonçalo, acima da passarela.


Depois de cinco meses, o buraco segue aberto e toma quase toda a entrada da Travessa São Gonçalo. A cavidade se tornou tão profunda que é possível ver o córrego que passa por baixo da Rua do Catete e deságua no Ribeirão do Carmo. Graciele Braz, 47 anos, morava a poucos metros de onde surgiu o buraco. A moradora, dona de um mercadinho localizado ao lado de sua casa, foi informada pela prefeitura de que não poderia mais continuar morando e nem trabalhando no local devido ao risco de desabamento.


Para sanar o problema, a prefeitura fez a locação de outros dois imóveis: um para a Graciele morar provisoriamente e outro para a instalação e funcionamento do mercadinho. Apesar de comentar que o novo local do mercadinho é melhor para as suas vendas, ela ressalta que sente falta do antigo lar. “Não vejo a hora de voltar para casa”, ela diz.


A papelaria ao lado também precisou ser realocada. Juliana Aparecida, 39 anos, empreendedora e proprietária do estabelecimento, conseguiu um novo local para o funcionamento do seu negócio, também pago pela prefeitura. Entretanto, não foi amparada em toda a logística de mudança. Ela relata que teve que arcar sozinha com a troca da fachada da papelaria e o transporte dos produtos. Além disso, a mudança ocorreu durante a época de maior faturamento da papelaria no ano.


“A gente perdeu muito cliente, né? E foi numa época que relativamente para a gente é uma época muito boa, que é a volta às aulas. A gente teve todo um investimento para voltar às aulas e não foi aquilo que nós esperávamos, devido a gente ter tido essa mudança de espaço”, reclama Juliana, que precisou se mudar com a família para uma nova residência. Apesar do aluguel ser pago pela Prefeitura, ela conta que precisou arcar com um guincho para retirar o carro da família da garagem, que também abrigava os automóveis de outros moradores.


Milton Carvalho, de 78 anos, também foi afetado. Dono de uma loja de autopeças e proprietário do estacionamento que comporta os carros de alguns residentes da Travessa São Gonçalo, ele relata que está sendo prejudicado pela obra. Segundo Milton, ele perdeu nove aluguéis, pois os automóveis não podem ficar mais estacionados no local, por não ter passagem para os carros.


Na extremidade esquerda da foto, o mercadinho de Graciele, ao lado dele a papelaria e residência de Juliana. Foto: Douglas Júnio. #ParaTodosVerem: Foto de uma rua com um canteiro de obras cercado por tapumes metálicos e um portão de madeira. À esquerda, há um pequeno mercado; ao fundo, prédios comerciais e residenciais. Alguns carros estão estacionados na via, em um dia ensolarado. 
Na extremidade esquerda da foto, o mercadinho de Graciele, ao lado dele a papelaria e residência de Juliana. Foto: Douglas Júnio. #ParaTodosVerem: Foto de uma rua com um canteiro de obras cercado por tapumes metálicos e um portão de madeira. À esquerda, há um pequeno mercado; ao fundo, prédios comerciais e residenciais. Alguns carros estão estacionados na via, em um dia ensolarado. 

No início, o buraco foi isolado por um tapume de metal que bloqueou todo o acesso à Travessa, forçando as pessoas a fazerem o contorno no quarteirão para acessar o restante da pequena via ou o bairro logo acima. O trajeto exigia descer a Rua do Catete até a Rua da Glória e, por fim, retornar pela Rua Prefeito João Sampaio, totalizando mais de 1 km. Diante do longo tempo de caminhada, moradores não viram outra alternativa a não ser forçar a passagem para conseguir acesso à travessa. Como consequência, e após muitas queixas por parte dos residentes, foi construído um acesso por uma escadaria que passa ao lado da vala. 


Trajeto feito pelos moradores da travessa com a interdição da via, e o caminho antes da interdição. Mapa por: Ana Laura Diniz

#ParaTodosVerem: Mapa da região central de Mariana, ilustrado em fundo branco, com ruas representadas por linhas azuis. O percurso alternativo aparece destacado por uma linha pontilhada amarela. Próximo à parte inferior, um círculo vermelho indica um buraco ao lado do ponto de partida, identificado em verde.


Este novo acesso precisou ser construído no terreno ao lado, onde um casal e seus três filhos moram de aluguel. Kátia Alves, 37 anos, contou que, após avisar a família da necessidade da obra, a prefeitura entrou em contato com o proprietário do imóvel para comunicá-lo sobre a utilização do terreno. E,a conta que sua família não se opôs à construção da nova passagem, já que o buraco se estendeu a uma parte do terreno onde ela mora. 


Em contrapartida, Kátia relata que perdeu a privacidade após o início da construção do acesso, pois a passagem fica muito próxima à porta de sua sala. Ela também afirma que uma das dificuldades decorrentes da obra foi a limitação do seu terreno. “Era o espaço que eu tinha para as minhas crianças brincarem. Perdi grande parte do espaço que eu tinha de secar roupa, de criança brincar, de carro. Então incomoda, né?”, diz a moradora que ainda reclama do barulho na escadaria, provocado pela circulação de pessoas, especialmente durante a madrugada, o que atrapalha o sono de sua família.


Local onde foi construída a passarela de acesso para os moradores da travessa. Grande parte do terreno de Kátia foi usado. Foto: Douglas Júnio. #ParaTodosVerem: Foto tirada de um ponto elevado mostrando um canteiro de obras cercado por tapumes metálicos. No interior, há materiais de construção, um banheiro químico e uma escada de acesso. Ao redor, aparecem casas, prédios e a rua em frente, em um dia ensolarado.
Local onde foi construída a passarela de acesso para os moradores da travessa. Grande parte do terreno de Kátia foi usado. Foto: Douglas Júnio. #ParaTodosVerem: Foto tirada de um ponto elevado mostrando um canteiro de obras cercado por tapumes metálicos. No interior, há materiais de construção, um banheiro químico e uma escada de acesso. Ao redor, aparecem casas, prédios e a rua em frente, em um dia ensolarado.

Com o espaço limitado, a família perdeu a garagem onde estacionava o carro. Kátia conta que precisou entrar em contato com a prefeitura para solicitar o aluguel de uma nova localidade para guardar o seu veículo. Ela diz encontrar dificuldades para ir até a nova garagem, já que o lugar alugado é distante de sua casa. “A minha garagem também abriu uma cratera. Além disso, a gente ficou preocupado em como é que está a estrutura da casa, do risco, né?”, questiona Kátia.


Outro problema acarretado pela obra e que afeta não somente os moradores da região, mas também toda a população que transita pela Rua do Catete, é a obstrução da calçada. A área isolada para o reparo do buraco também ocupou a passagem de pedestres e diminuiu o espaço para o fluxo dos automóveis.


Com a interdição da calçada, as pessoas precisam se arriscar em meio à rua apertada para pedestres e carros. Foto: Douglas Júnio. #ParaTodosVerem: Um tapume de madeira fechado, duas mulheres passando entre ele e um carro branco em movimento. Uma mulher usa blusa branca e calça jeans azul escuro e outra uma blusa azul, mochila e calça cinza.
Com a interdição da calçada, as pessoas precisam se arriscar em meio à rua apertada para pedestres e carros. Foto: Douglas Júnio. #ParaTodosVerem: Um tapume de madeira fechado, duas mulheres passando entre ele e um carro branco em movimento. Uma mulher usa blusa branca e calça jeans azul escuro e outra uma blusa azul, mochila e calça cinza.

Os moradores expõem que a abertura frequente de buracos no início da travessa teve início há mais de dois anos, quando um caminhão de materiais tentou subir a rua e provocou o primeiro deslocamento da pavimentação. Na época, foi solicitado à Prefeitura de Mariana que solucionasse o ocorrido, mas houve demora no atendimento do chamado. Depois de alguns meses, a solução trazida pelo órgão municipal foi preencher o buraco com areia e, segundo Kátia, uma camada fina de concreto. Juliana lembra também que os moradores realizaram diversas reclamações junto à Prefeitura por causa da abertura de buracos na área, mas, segundo ela, não foram levados a sério. “Não precisava esperar chegar até onde chegou, né? Se tivessem dado atenção às nossas reclamações, não precisávamos ter passado por esse transtorno todo”, ela diz. 


Moradores questionam a demora que levou ao início da obra e quando será o  término. Eles relatam a falta de contato com a prefeitura, que não os informam sobre o andamento durante esses cinco meses que já duram as obras. “A expectativa é de que a obra realmente resolva o problema. O anseio e o medo é esperar a próxima chuva para a gente ver se realmente foi resolvido e o que vai acontecer. Saber se foi feito um trabalho com excelência, um trabalho que vai ajudar os moradores do Catete”, Juliana acrescenta. 


O Jornal Lampião questionou a Prefeitura de Mariana sobre as várias denúncias apresentadas pelos moradores e relatadas nesta matéria, mas não obteve resposta até a data desta publicação.




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O Lampião é o jornal-laboratório do curso de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), produzido durante a disciplina Laboratório Integrado I - Cobertura Noticiosa Hiperlocal.

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