top of page

EDITORIAL | O digital que amplia e o impresso que ancora

  • Eduarda Belchior
  • 5 de mar.
  • 5 min de leitura

47º edição


#ParaTodosVerem: A Imagem mostra um computador com o site do jornal-laboratório Lampião (UFOP) aberto na seção “Sobre”. Ao lado, há a versão impressa do jornal com a manchete em verde “Justiça pela metade não é justiça”. A capa destaca os 10 anos do desastre-crime de Fundão, com três fotos. A primeira de Seu Filomeno tocando junto da banda, a segunda sua casa antes do desastre-crime da mineração destruí-la em Bento Rodrigues, e a terceira, uma foto de Filomeno de costas, caminhando em direção às ruínas de sua casa.

Ainda que o jornalismo digital também registre o tempo e a memória, há histórias que precisam ocupar um espaço físico. No Jornal Lampião do período 2025.2, o retorno ao impresso, após vários anos sem ele e já no ciclo inicial da redação, não vem como oposição ao digital, mas em sua complementaridade. Nas primeiras semanas de produção da 47ª edição, revisitamos pessoas e territórios que permanecem com feridas abertas por um dos maiores crimes socioambientais minerários do planeta, reforçando a importância histórica, ética e simbólica que carregam os testemunhos e as narrativas jornalísticas sobre os dez anos do rompimento da Barragem de Fundão, estrutura que pertencia à empresa Samarco, de que Vale e BHP são donas. 


Buscamos cumprir também o papel extensionista e democrático de uma universidade pública localizada em Mariana (MG), epicentro do desastre-crime, que partiu daqui e seguiu percorrendo e devastando regiões ao longo da Bacia do Rio Doce até o mar do Espírito Santo. Desde o início a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) esteve presente e junto das pessoas e das comunidades atingidas, e esse papel se materializa quando as próprias comunidades participam, decisivamente, dos processos de construção das pautas. Mais do que falar sobre, buscamos falar com, reconhecendo a existência e centralidade dos que vivem as consequências dos acontecimentos e das decisões empresariais extrativistas e políticas da região.


Em meio à velocidade das telas, os mais de 6 mil exemplares foram totalmente distribuídos, mão a mão, para as pessoas e comunidades atingidas, que se dispuseram a nos receber e a ceder seu tempo, sua confiança e suas memórias, e também em pontos estratégicos da cidade de Mariana, Ouro Preto e Itabirito. Há uma dimensão sensível, humana e tátil no gesto de manusear a história. É preciso considerar a efetiva capacidade das notícias digitais alcançarem lugares onde a conexão via torres e satélites ainda encontra limites, como é o caso dos subdistritos atingidos Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo. 


Sem abrir mão do digital, o desafio foi retomar e produzir um jornal-laboratório impresso centrado em um marco temporal e que nos exigiu precisão, consciência do espaço limitado do papel e agilidade para cumprir a factualidade e os prazos desafiadores da gráfica. Afinal, ele deveria chegar aos leitores até o dia 05 de novembro, data que lamenta e grita o desastre-crime da Samarco (Vale e BHP).


O impresso que circula e é guardado reafirma que algumas histórias não podem ser apagadas. Acreditamos que foi por esta razão que produções da edição especial do Lampião receberam atenção de veículos relevantes no cenário nacional. Uma de nossas matérias foi publicada pela Agência Pública como reportagem em seu site, além de obtermos colaborações institucionais no Instagram com Jornalistas Livres e o GESTA/UFMG. Houve ainda a colaboração por cessão de materiais fotográficos à Folha de São Paulo. 


Tudo dentro de uma ética jornalística comprometida em informar e ampliar debates sobre os 10 anos do rompimento de Fundão, a luta das pessoas e comunidades atingidas e impasses como os do Novo Acordo do Rio Doce de repactuação assinado em outubro de 2024 pelo Governo Federal, instituições de justiça, Estados de Minas Gerais e Espírito Santo e as empresas Vale e BHP (Samarco), que ainda perpetua exclusões e injustiças. 


Nos demais ciclos, o diálogo nas redes e fora delas com instituições como a Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz), a Casa de Cultura de Mariana, o Centro de Referência à Criança e ao Adolescente (CRIA) e a Fundação de Arte e Ouro Preto (FAOP), também fez com que as pautas saíssem da bolha universitária, alcançando diferentes setores da sociedade marianense, ouro-pretana e brasileira, colocando o Lampião como um interlocutor relevante.


No Brasil, mais de duas mil cidades vivem sob a realidade de desertos ou quase desertos de notícias, segundo o Atlas da Notícia de outubro de 2024 e junho de 2025. Assim, nosso fio condutor ético e editorial é produzir informação hiperlocal, não por acaso, mas como gesto de fortalecimento comunitário e responsabilidade nossa e da universidade que construímos. Na Região dos Inconfidentes, a mineração não se impõe somente em marcos temporais, ela é quem organiza o cotidiano. Seus feitos atravessam decisões públicas, dinâmicas econômicas e modos de vida. Narrar este território com engajamento, escuta e trabalho coletivo é também assumir uma posição diante da justiça social.


A transição do especial impresso para o ciclo seguinte, já no formato exclusivamente digital,  exigiu uma reorganização dos processos e o próprio ritmo de produção. Agora o principal desafio era a outra lógica editorial, que exigiu dos repórteres um deslocamento do olhar para outros nichos da vida na região e a fim de seguirem identificando pautas de interesse público. 


A busca por novos temas atravessou os ciclos seguintes, marcados por um período em que o calendário acadêmico, com seus intervalos, e o social se impuseram com força. O Natal, o Ano Novo e, no Brasil, o Carnaval são datas que reorganizam rotinas, animam a vida coletiva e, muitas vezes, orientam a agenda pública e midiática. Não deixamos de abordá-las, pelo contrário, reconhecemos que também são atravessadas por interesse público. O desafio esteve no recorte das pautas, em tensionar o óbvio e localizar os impactos no território.


No digital ganhamos fôlego para aprofundar ainda mais as reportagens e sustentar textos mais extensos, além de um espaço mais generoso com produções fotográficas. Ao mesmo tempo, enfrentamos a dinâmica de um ambiente em que a atenção é fragmentada, e que grandes textos nem sempre são lidos até o fim. Manter densidade informativa e rigor factual nesse cenário foi parte constitutiva do nosso fazer jornalístico. 


A maior aproximação com linguagens para além da matéria ou reportagem textual e visual, como podcasts e documentários, integra a nossa prática, ampliando as formas de circulação e diálogo com públicos que se relacionam com a informação de maneiras diversas. Ao longo dos ciclos, experimentamos formatos, gêneros e ritmos de produção em um cenário em que o jornalismo contemporâneo exige repórteres capazes de compreender e transitar por diferentes etapas do processo. Essa aposta ampliou a visibilização de uma cobertura que não se restringe a acontecimentos isolados, mas acompanha políticas públicas, debates sobre direitos, manifestações culturais, disputas urbanas, inscrições de memórias, pertencimento e identidade.


Produzir a 47ª edição do Lampião, com seus cinco ciclos, também foi atravessar limites materiais e institucionais, em uma universidade pública marcada pela escassez de recursos. Trabalhamos em uma redação que enfrentou temperaturas superiores às máximas registradas, sem nenhuma ventilação natural e em pleno verão, quando o sistema de climatização quebrou e levou várias semanas para ser consertado. Ainda assim, mantivemos nosso compromisso com o trabalho e com o papel social que acreditamos que um jornal deve cumprir. 


Outro desafio frequente foi o acesso às fontes oficiais de órgãos públicos da região, que, apesar das respeitosas e insistentes tentativas, não atenderam nossas solicitações. Isso em meio à urgência de estar onde os fatos acontecem e a necessidade de informá-los, com precisão e consistência, antes que envelheçam.


A composição da nossa redação também é um aspecto importante de se relatar: oito das nove editorias foram conduzidas por mulheres, em uma equipe de repórteres majoritariamente feminina. O Lampião se orienta por princípios éticos jornalísticos, técnicos e formativos, mas é impactado pelas experiências concretas de quem o constrói. Em um campo historicamente atravessado por conflitos de legitimidade, ocupar espaços de acompanhamento e decisão é também disputar narrativas e memória.


Por fim, registramos nossa gratidão à Comissão dos Atingidos e Atingidas pela Barragem de Fundão de Mariana (CABF), à Cáritas, ao Instituto Guaicuy e ao grupo de pesquisa Conflitos em Territórios Atingidos da Universidade Federal de Ouro Preto (CONTERRA-UFOP), cuja escuta, diálogo e compromisso tornaram essa edição viável e coerente com os territórios. Estendemos o agradecimento à UFOP, que, por meio de sua Reitoria, mesmo em meio a severas limitações orçamentárias, acolheu nossa demanda e tornou possível a concretização desta publicação.


Mais do que prática acadêmica, o Lampião cumpre seu papel como ferramenta de fiscalização, transparência e direito à informação, fruto de uma equipe que soube achar um ritmo em comum, compreendendo as nossas limitações e potencialidades como estudantes de jornalismo em um jornal-laboratório no interior do país.


Comentários


bottom of page