Entre o torno e a memória: o ofício das panelas de pedra em Cachoeira do Campo
- Bianca Almeida e Larissa Rimulo
- há 4 dias
- 3 min de leitura
46ª edição
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Tradição secular atravessa gerações no distrito de Ouro Preto, onde artesãos mantêm viva a arte de transformar pedra-sabão em utensílios com identidade e afeto.

O som agudo do torno ecoa pela oficina e a poeira fina cobre o chão em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto. É nesse cenário que blocos pesados de pedra-sabão ganham forma e se transformam em panelas, tradição que atravessa gerações. Se, nos tempos coloniais, a rocha serviu para erguer igrejas e esculpir santos, hoje ela se consolida como matéria-prima de utensílios que preservam a memória e o cotidiano da comunidade.

Para alguns, o ofício chega de forma inesperada. Foi o caso de Sérgio de Almeida. Primeiro arriscou um risco na pedra, depois observou outros artesãos no torno e se lançou na prática. O “primeiro pilãozinho” virou rotina. Hoje, domina corte, modelagem e polimento. “Meu processo de trabalho é de muita correria, mas ao mesmo tempo de muito carinho com a produção”, conta. Sérgio trabalha em uma fábrica local e, ao lado da esposa Josie, mantém uma loja onde comercializa suas peças.

Já para Valmir da Costa, a pedra-sabão é destino de vida inteira. Há mais de três décadas, ele conduz todas as etapas: da extração na pedreira até a venda. A filha, Silmara de Costa, cresceu entre blocos serrados e o barulho do torno. Formada em engenharia de produção pela UFOP, hoje ajuda a organizar a produção da família. “Meu pai sempre fez todas as etapas, desde a extração até a comercialização. Continua firme, mesmo com a mão de obra escassa”, relata.
A família também investiu em inovação. Além das panelas tradicionais, Valmir criou um modelo de panela de pressão em pedra-sabão e desenvolveu um tipo exclusivo de alça de metal em cobre. O trabalho é feito com a chamada “pedra azul”, considerada mais resistente. “Não é toda pedra que serve. Essa não racha fácil, e os clientes procuram justamente por isso”, explica Silmara.

No vocabulário popular, a rocha é chamada de pedra-sabão. Na linguagem técnica, trata-se da esteatita, uma rocha metamórfica rica em talco, que pode conter outros minerais, como magnesita e clorita. Essas variações determinam diferenças de densidade e de resistência ao calor. Entre os artesãos de Cachoeira do Campo, a “pedra azul” se tornou um termo comercial para identificar lotes mais duráveis, embora não seja uma classificação geológica formal.
As peças produzidas pela família Costa já chegaram ao Mercado Central de Belo Horizonte e a Brasília, mas é no distrito que a loja se mantém como ponto de encontro de moradores e turistas. Ali, entre pilões, grelhas e panelas, cada objeto carrega mais do que a função de cozinhar: traduz memória e identidade.
Essa dimensão afetiva também conquista quem leva a panela para casa. Jusileine Monteiro, professora no Vale do Paraíba (SP), conheceu a produção durante uma viagem a Mariana e decidiu comprar. “Me remete à infância, me remetem à casa de vó. Presenteei minha mãe, porque também gosta do mesmo sabor que ela proporciona, esse aconchego de poder cozinhar, estar com os familiares, com as pessoas que ama, e proporcionar isso também para os nossos filhos, o sabor da comida”, conta.
Depoimentos como o dela mostram a força que sustenta o ofício: a panela de pedra não é apenas utensílio de cozinha, mas um objeto que conecta passado e presente. Em Cachoeira do Campo, cada peça que sai do torno mantém viva uma tradição que encontra, no valor afetivo, seu caminho de permanência.

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