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Entre o torno e a memória: o ofício das panelas de pedra em Cachoeira do Campo

  • Bianca Almeida e Larissa Rimulo
  • há 4 dias
  • 3 min de leitura

46ª edição


Ouça a notícia na íntegra:


Tradição secular atravessa gerações no distrito de Ouro Preto, onde artesãos mantêm viva a arte de transformar pedra-sabão em utensílios com identidade e afeto.


#PTV: A foto mostra um conjunto de panelas de pedra-sabão com acabamento em cobre, empilhadas. Elas têm corpo escuro e maciço, característico da pedra-sabão, e faixas metálicas e alças em cobre que reforçam a estrutura.
As panelas de pedra-sabão com acabamento em cobre garantem durabilidade e melhor retenção de calor. | Foto: Bianca Almeida

O som agudo do torno ecoa pela oficina e a poeira fina cobre o chão em Cachoeira do Campo, distrito de Ouro Preto. É nesse cenário que blocos pesados de pedra-sabão ganham forma e se transformam em panelas, tradição que atravessa gerações. Se, nos tempos coloniais, a rocha serviu para erguer igrejas e esculpir santos, hoje ela se consolida como matéria-prima de utensílios que preservam a memória e o cotidiano da comunidade.


#PTV: A imagem mostra um conjunto de panelas de pedra-sabão empilhadas, de tom cinza-claro com veios naturais da pedra. Elas possuem alças de madeira e tampas arredondadas com pegadores também de pedra. Ao fundo, vê-se um ambiente externo de feira de artesanatos, com um cesto de flores artificiais em cores vivas, amarelas, vermelhas e lilases, contrastando com as panelas.
Feirinha de Cachoeira do Campo: panelas de pedra-sabão que contam a história e encantam turistas. | Foto: Bianca Almeida

Para alguns, o ofício chega de forma inesperada. Foi o caso de Sérgio de Almeida. Primeiro arriscou um risco na pedra, depois observou outros artesãos no torno e se lançou na prática. O “primeiro pilãozinho” virou rotina. Hoje, domina corte, modelagem e polimento. “Meu processo de trabalho é de muita correria, mas ao mesmo tempo de muito carinho com a produção”, conta. Sérgio trabalha em uma fábrica local e, ao lado da esposa Josie, mantém uma loja onde comercializa suas peças.


#PTV: A imagem mostra vários pilões de pedra-sabão dispostos lado a lado em uma prateleira. Cada pilão tem formato cilíndrico, com superfície acinzentada e textura levemente rugosa, característica da pedra natural. Dentro de cada um há um socador de pedra, também cinza, posicionado inclinado. O fundo é escuro, destacando as peças.
Pilões de pedra-sabão usados para moer alimentos; a superfície lisa permite triturar sem absorver sabores ou umidade. | Foto: Bianca Almeida

Já para Valmir da Costa, a pedra-sabão é destino de vida inteira. Há mais de três décadas, ele conduz todas as etapas: da extração na pedreira até a venda. A filha, Silmara de Costa, cresceu entre blocos serrados e o barulho do torno. Formada em engenharia de produção pela UFOP, hoje ajuda a organizar a produção da família. “Meu pai sempre fez todas as etapas, desde a extração até a comercialização. Continua firme, mesmo com a mão de obra escassa”, relata.


A família também investiu em inovação. Além das panelas tradicionais, Valmir criou um modelo de panela de pressão em pedra-sabão e desenvolveu um tipo exclusivo de alça de metal em cobre. O trabalho é feito com a chamada “pedra azul”, considerada mais resistente. “Não é toda pedra que serve. Essa não racha fácil, e os clientes procuram justamente por isso”, explica Silmara.


#PTV: A imagem mostra uma panela de pressão feita inteiramente de pedra, com corpo arredondado e tom escuro. Ela possui faixas e alças de metal em cobre que reforçam a estrutura e acrescentam um detalhe elegante. A tampa, também de pedra, tem um pegador robusto. Ao fundo, outras panelas semelhantes aparecem sobre uma superfície de madeira, em um ambiente interno com utensílios e objetos artesanais.
Artesãos de Cachoeira do Campo desenvolveram modelos das panelas de pressão com tampas e alças adaptadas, mantendo o design tradicional e a funcionalidade da pressão moderna. | Foto: Bianca Almeida

No vocabulário popular, a rocha é chamada de pedra-sabão. Na linguagem técnica, trata-se da esteatita, uma rocha metamórfica rica em talco, que pode conter outros minerais, como magnesita e clorita. Essas variações determinam diferenças de densidade e de resistência ao calor. Entre os artesãos de Cachoeira do Campo, a “pedra azul” se tornou um termo comercial para identificar lotes mais duráveis, embora não seja uma classificação geológica formal.

As peças produzidas pela família Costa já chegaram ao Mercado Central de Belo Horizonte e a Brasília, mas é no distrito que a loja se mantém como ponto de encontro de moradores e turistas. Ali, entre pilões, grelhas e panelas, cada objeto carrega mais do que a função de cozinhar: traduz memória e identidade.


Essa dimensão afetiva também conquista quem leva a panela para casa. Jusileine Monteiro, professora no Vale do Paraíba (SP), conheceu a produção durante uma viagem a Mariana e decidiu comprar. “Me remete à infância, me remetem à casa de vó. Presenteei minha mãe, porque também gosta do mesmo sabor que ela proporciona, esse aconchego de poder cozinhar, estar com os familiares, com as pessoas que ama, e proporcionar isso também para os nossos filhos, o sabor da comida”, conta.


Depoimentos como o dela mostram a força que sustenta o ofício: a panela de pedra não é apenas utensílio de cozinha, mas um objeto que conecta passado e presente. Em Cachoeira do Campo, cada peça que sai do torno mantém viva uma tradição que encontra, no valor afetivo, seu caminho de permanência.


#PTV: A imagem mostra uma pessoa segurando e apontando para uma tampa circular de pedra, com borda reforçada por uma faixa de metal em cobre. A pessoa tem unhas longas e pintadas de vermelho, usa anéis prateados e um colar com pingente de cruz. Ao fundo, vê-se o interior de uma loja com prateleiras repletas de objetos artesanais, incluindo cestos, utensílios e enfeites coloridos. Sobre a mesa à frente, há um celular vermelho e um caderno espiralado aberto.
O interior e o exterior das panelas são lixados para remover rebarbas e deixar a superfície mais lisa, preparada para o acabamento final, o processo de cura. | Foto: Bianca Almeida

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