A trajetória do Festival de Inverno de Ouro Preto como símbolo de resistência e cultura
- Douglas Júnio, Fernanda Maísa e Gustavo Reimberg
- há 4 horas
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O Festival atravessa gerações e se mantém como um importante agente cultural e artístico para a cidade

É julho novamente e, com ele, o Festival de Inverno retorna para mais uma edição repleta de oficinas, apresentações musicais, exposições e atividades culturais.
O Festival de Inverno provocou impactos diretos na história de Ouro Preto. O turismo, a economia e principalmente a cultura da cidade sofreram profundas modificações sob a influência do evento. Ao longo das edições, a junção entre a arquitetura barroca e histórica, o clima ameno e a intensa produção de arte resultaram em um espaço repleto de trocas culturais, inovação artística e resistência política. Desde a sua criação, o festival passou por grandes marcos.
Quase 60 anos da primeira edição
Em 1967, Ouro Preto sediou a primeira edição do Festival de Inverno realizado em ação conjunta da Fundação de Educação Artística (FEA), instituição localizada em Belo Horizonte, com Escola de Belas Artes (EBA) e a Reitoria da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
A Fundação já vinha realizando, desde 1965, cursos de música no período das férias de julho, mas Berenice Menegale, pianista e uma das fundadoras da FEA, cultivava o desejo de realizar essas atividades intensivas na cidade de Ouro Preto. Paralelamente, Haroldo Mattos, professor da Escola de Belas Artes da UFMG, juntamente com outros docentes, também compartilhavam da ideia de realizar um festival com cursos artísticos na cidade histórica. Após a interlocução das duas instituições, foi possível a realização da primeira edição do Festival de Inverno, nome idealizado pelo professor da Faculdade de Educação da mesma universidade, José Adolfo Moura.
Em entrevista para o Jornal Lampião, Berenice Menegale conta como foi a relação com as instituições locais: “[Fomos] recebidos com entusiasmo pela Universidade de Ouro Preto [UFOP] e pela Prefeitura da cidade, o evento obteve enorme sucesso e recebeu estudantes de todo o país“. Assim a Prefeitura marcou sua participação já na primeira edição com apoio financeiro e articulação local, mobilizando os espaços da cidade para a realização das oficinas.
Cartazes usados para divulgação dos 3 primeiros Festivais de Inverno, em 1967, 1968 e 1969. Foto: Arquivo histórico da UFMG.
O evento reuniu artistas vindos de vários lugares do país, promovendo um grande intercâmbio cultural de alunos e professores como um espaço de experimentação, iniciação e pesquisa na área artística. Em sua vasta programação, o festival realizava cursos de férias de artes plásticas, música, cinema e teatro. O resultado foi um grande sucesso que, posteriormente, ultrapassou as fronteiras brasileiras.

Virada cultural
O festival, que inicialmente se inspirava na estética barroca e colonial, ao longo das edições se tornou um espaço de vanguarda, contemporâneo, e deixou de olhar apenas para o passado. É o que relata Guilherme Paoliello, professor aposentado do Departamento de Música da UFOP, que estudou o evento em sua pesquisa de doutorado.

Segundo Paoliello, é a partir da quarta edição, em 1970, que o experimentalismo e a vanguarda se consolidam. Naquele ano, uma apresentação de “happening”, chamada de "Concerto Confronto", coordenada pelo professor Hans Koellreutter, dentro da igreja São Francisco, marca essa virada de mentalidade do evento. “Completamente anárquico. Foi um sucesso. Era como se enchesse a igreja de ruídos e vozes. O padre da paróquia não deixou ser realizado novamente”, relata.
Ainda de acordo com Guilherme, Eládio Perez Gonzalez era um dos professores da FEA e, em 1970, fez uma importante constatação: o evento ainda era voltado para matrizes hegemônicas e européias. Os concertos de encerramento, por exemplo, costumavam ser obras de músicas eruditas, vindas da Europa. A partir de 1971, então, compositores residentes passaram a produzir obras musicais para cada edição. A produção artística passou a ser também contemporânea e local.
O experimentalismo na arte foi predominante ao longo da década de 70, o que passou a chamar cada vez mais a atenção dos jovens. Segundo Paoliello, o evento ainda passou a abranger diversas outras áreas artísticas, o que contribuiu para o seu crescimento em estrutura e popularidade ao longo daquele período.
A repressão de 64
O Festival de Inverno surgiu em um momento delicado da política brasileira: a Ditadura Militar. O golpe de estado, realizado para tirar o presidente João Goulart e colocar os militares no poder, ocorreu em abril de 1964. A repressão das forças armadas perdurou até 1985, somando mais de 20 anos de violência contra os cidadãos brasileiros.
Nas capitais brasileiras, a ditadura era conhecida pela violência e censura incisivas, mas, em Ouro Preto, uma cidade do interior, a repressão acontecia de forma um pouco menos drástica, segundo a pesquisadora do projeto “A Ditadura em Minas Gerais”, Letícia Ribeiro. Para ela, a metáfora do “sufoco", conceito apresentado nas pesquisas do historiador Leon Kaminski, esclarece o fluxo de pessoas para locais interioranos naquela época. “Não é dizendo que a repressão não acontecia. Ela acontecia, mas o comparativo com as capitais era porque elas são menos rígidas. Então, aqui [Ouro Preto] se tinha um alívio. Assim, as pessoas iam para o interior, muito influenciadas também pelo movimento hippie”.
Esse fenômeno contribuiu para a intensificação da “Brigada do Vício” em Ouro Preto, setor do Departamento Estadual de Ordem Política e Social (DOPS), que se dizia responsável pelo combate ao uso de drogas e pela repressão a usuários. Eles associavam o consumo de substâncias a planos comunistas dos jovens. Ao ver esse grande número de pessoas que se abrigavam em locais públicos, influenciados pelo movimento hippie e pela estrutura turística inadequada para receber tantos visitantes, a Brigada do Vício reprimia aqueles que estavam nas ruas da cidade.
Em sua dissertação de mestrado, “Por Entre a Neblina: O Festival de Inverno de Ouro Preto (1967-1979) e a experiência histórica dos anos setenta”, Leon Kaminski destaca que aquela juventude era marcada por pensamentos e comportamentos mais progressistas em relação à sexualidade e ao uso de entorpecentes. Eles adotavam o estilo de vida da contracultura e enxergavam determinados comportamentos como uma forma de oposição ao governo. Assim, simultaneamente à programação oficial do evento, a vida noturna se intensificou na cidade.

De acordo com Letícia Ribeiro: “Quando todos esses movimentos começaram a surgir e o grande público começou a chegar nas primeiras edições, isso incomodou muito a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Sociedade e Família (TFP), principalmente a ala tradicional ouropretana. Então, tiveram várias manifestações contra o festival, principalmente na programação que acontecia nas ruas", afirma Letícia. A ponto de apelidá-lo de "Festival do Inferno".
“Na época dos anos de chumbo, não houve propriamente interferência na realização do festival, mas sim constrangimento, ameaças, prisões de estudantes e presença policial”, comenta Berenice Menegale sobre a repressão durante as festividades.
Um grande caso de repressão à cultura na cidade foi a prisão do famoso grupo norte-americano The Living Theatre, em 1971, convidados pelo festival para fazer parte da programação oficial. O grupo se apresentou pelas ruas de Ouro Preto e logo incomodou a ala tradicional ouropretana e a TFP, que ficaram assustados com o modo de vida que levavam e pediram a saída dos artistas da cidade. Eles saíram da programação oficial, mas ainda continuaram na cidade se apresentando na programação paralela ao festival oficial aos fins de semana. Segundo Letícia, houve a implantação de drogas na casa onde estavam residindo. Eles foram levados para o DOPS de Belo Horizonte, onde foram torturados.
O The Living Theatre era formado por integrantes de diferentes nacionalidades, tanto de latino-americanas quanto estadunidenses. Seus líderes eram Judith Malina e seu marido, Julian Beck. A prisão e a tortura de artistas estrangeiros durante a passagem pelo Brasil provocaram uma forte crise diplomática e ampliaram as críticas internacionais ao regime brasileiro. A Prefeitura de Ouro Preto tem registro de ofícios recebidos do mundo inteiro, principalmente dos Estados Unidos, questionando o que havia acontecido com o grupo, segundo Letícia. Os artistas ficaram presos durante 3 meses, e depois de julgados, foram liberados e mandados de volta aos EUA.
No ano de 1979, aconteceu a última edição do Festival sediada em Ouro Preto, dessa primeira fase. Segundo Berenice: “O sucesso do Festival de Inverno teve enorme reverberação na imprensa, o que levava à cidade, nos fins de semana, um número excessivo de pessoas que a cidade não tinha, naquela época, meios de alojar e atender. Essa foi uma das causas da mudança para outras cidades”.
As festividades de inverno retornam
Após 14 anos de interrupção, o festival retornou a Ouro Preto no ano de 1993, e seguiu até 1999, ainda sob a direção da UFMG. De 2000 até 2004, o evento esteve sob a direção do Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), segundo o Chefe de Gabinete da Reitoria da UFOP, Rondon Marques, que nesse período atuava como jornalista na TV Top Cultura, principal emissora da Região dos Inconfidentes.
Cartazes do Festival de Inverno entre os anos de 1993 e 1999. Foto: Arquivo histórico da UFMG #ParaTodosVerem: Cartaz do 25º Festival de Inverno da UFMG, realizado em Ouro Preto (MG), de 3 a 31 de julho de 1993.
Ainda em 2004, foi criado o primeiro festival centralizado pela UFOP, com o nome de “Fórum das Artes". O evento também contou com o apoio do poder público municipal. Rondon conta que, naquele ano, o festival tinha Portugal como temática . A ideia inicial da nova organização seria celebrar países diferentes em suas próximas edições, mas não foi continuada.
Um ano depois, em 2005, a UFOP assumiu a coordenação do Festival de Inverno com a parceria das Prefeituras de Ouro Preto e de Mariana, lançando o “Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana: Fórum das Artes”. O professor Guilherme Paoliello, que iniciou as atividades na UFOP em 1998, conta que o evento retornou menor e com menos força. Naquele momento, a universidade sentia a necessidade de ir além da realização de ações artísticas, trazendo discussões acadêmicas aprofundadas sobre arte.

Paoliello também atuou no festival como curador, de 2009 a 2016. Ele relata que o período de maior impulsionamento do evento coincidiu com o crescimento das universidades federais, por conta do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades (REUNI), projeto que previa mais recursos financeiros para as universidades federais. “O Festival de Inverno é um projeto de extensão. Se a extensão tem mais recursos, eles tinham condições de expandir o festival”, conta. Segundo o ex-curador, a onda de investimentos se estendeu até meados de 2014 e 2015. Durante esse período, o evento se tornou grande novamente.
O professor ainda destaca um ponto importante dessa nova fase, que não estava presente na década de 70: “Os estudantes da UFOP que movimentavam a máquina do evento. Isso era incrível”. Grande parte da logística, organização e comunicação passou a ser feita pelos estudantes de diferentes cursos da universidade.
A parceria entre a UFOP e as Prefeituras de Ouro Preto e Mariana se estendeu até o ano de 2019, quando o festival foi interrompido pela pandemia, e retornou em 2022 com duas programações coexistentes. Uma elaborada pela Prefeitura de Ouro Preto, visando impulsionar o turismo, e outra pela UFOP, com caráter educativo e extensionista.
Para Raquel Leite, atual pró-reitora adjunta de extensão e cultura da UFOP, o “objetivo maior é que tenham atividades formativas e educativas”, diz sobre a programação realizada pela universidade, que também se estende a Mariana e João Monlevade. Ela atuou diretamente na elaboração de um plano de cultura dentro da UFOP. Dentre as determinações do plano, estava a reformulação do Festival de Inverno, que passou a ser chamado de Festival de Inverno Universitário (FIU), desde a edição de 2025.
O festival na atualidade
Em 2026, o festival reúne shows, apresentações de artes cênicas, música, exposições, lançamentos de livros e CD's e, apesar do número menor de atrações em relação a festivais anteriores, também cursos e oficinas. Toda a programação cultural do FIU 2026 é alinhada a um tema do imaginário popular da cidade: “O sol na cabeça”, verso da música “Trem Azul”, do Clube da Esquina. A escolha homenageia a musicalidade mineira e propõe uma reflexão sobre as mudanças climáticas.
Já a programação da Prefeitura é “Annamélia de Ouro Preto e Ouro Preto de Annamélia”, em homenagem à artista ouropretana e professora da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP), uma de suas fundadoras.
Para Guilherme Paoliello, existe uma diferença entre o Festival de Inverno realizado na década de 70 e hoje em dia, pela prefeitura. “Se tornou um festival do espetáculo, do grande show, do grande evento na praça Tiradentes lotada de gente. E aí o critério deixou de ser um critério acadêmico, de construção da arte mesmo, e passou a atender interesses do entretenimento.” Guilherme ainda completa: “A música de mercado, a música da indústria cultural, os grandes nomes, eles já têm o espaço consagrado. O espaço do festival não é o espaço para aquilo ali.”
Kelly Mendes, professora de artes visuais na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás tem contato com o Festival de Inverno desde criança, quando era aluna da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP), na época da ditadura. Por ter vivenciado os festivais anteriores e por ter um pensamento voltado à educação, Kelly compartilha da mesma opinião de Guilherme. “Eu sinto falta das oficinas, eu sinto falta desse movimento, porque nesses locais de oficina, você não é um espectador. Você produz no coletivo. Então, as oficinas são fundamentais para construção de público, para construção cultural, artística”, diz Kelly.
A professora ainda complementa: “Quando um festival se resume a um espaço de consumo ou de espectadores passivos que vão assistir, vão ver e vão consumir, eu acho que é pouco, né? O Festival de Inverno precisa promover o diálogo entre as pessoas e o diálogo na diversidade.”
Mas, apesar destas questões, Guilherme reflete que, por outro lado, o “festival do espetáculo” permitiu que a adesão do evento pela população crescesse.
Segundo a Secretaria de Cultura e Turismo de Ouro Preto, nesse ano de 2026, o município espera receber 95 mil visitantes no mês de julho, ocupando mais de 85% da rede de hotelaria do município.

O festival permanece como um forte agente de intercâmbio cultural, promovendo encontros entre diferentes expressões artísticas, estilos musicais, e culturas de diversas partes do mundo . O prefeito de Ouro Preto, Angelo Oswaldo, reforça que o festival é de grande importância para a cidade, na formação da juventude das cidades históricas, como centro de cultura e turismo para despertar e lançar vocações e talentos.
Ele completa dizendo que o festival ainda precisa buscar o resgate de sua parte extensionista e formadora, renovando a parceria entre as duas prefeituras, UFOP, Ministério da Cultura, Ministério da Educação e Governo do Estado. “Tem que ser montado com antecedência e organizado como um evento nacional, como já foi. Se não, ficamos só em uma festa julina, o que é pouco diante do nosso potencial e da lembrança do passado admirável”.
Em compensação, a programação proposta pelo FIU resgata ideais que estiveram presentes na trajetória do festival, como o foco em oficinas e atividades educativas. “As universidades e a UFOP são instituições culturais. Ponto. Nós produzimos cultura, fazemos gestão e temos a responsabilidade de apoiar os agentes culturais, principalmente os agentes locais”, diz a pró-reitora sobre objetivos da universidade quanto a produção cultural.
Raquel Leite ainda destaca que, apesar de haver múltiplas programações e com intuitos diferentes, elas não competem entre si, mas se complementam: “Somos parceiros e nos apoiamos”, diz. “A gente entende que quanto mais atividades culturais com perspectivas diferentes tiverem, melhor. É ótimo que existam atividades que tenham uma perspectiva voltada ao turismo e à economia criativa. Ótimo, entendeu?”, completa.
























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