Outras imagens e novos olhares para Ouro Preto
- Alberto Godefroid, Bárbara Guido e Milena Pereira
- há 3 horas
- 9 min de leitura
Entre roteiros comunitários e uma galeria recém-inaugurada, pesquisadores e artistas ampliam as formas de contar Ouro Preto e convidam moradores e visitantes a percorrer histórias pouco presentes nos circuitos tradicionais.

Conhecida internacionalmente pelo patrimônio colonial, Ouro Preto consolidou sua imagem pública em torno das igrejas barrocas, dos museus e da mineração. Fora desse circuito tradicional, pesquisadores, artistas e coletivos têm proposto outras formas de compreender a cidade, evidenciando o protagonismo das populações negras em sua formação.
“Você passa a entender mais como um exemplar de uma cidade africana do que necessariamente uma cidade portuguesa.”
Douglas Aparecido, filósofo e fundador do Palma Preta
Entre eles está o Circuito Palma Preta, iniciativa criada pelo filósofo e artista plástico Douglas Aparecido, de 44 anos. O projeto nasceu das pesquisas que ele desenvolvia sobre as técnicas africanas empregadas na mineração e, desde 2017, organiza roteiros educacionais, turísticos e de base comunitária voltados para a valorização da presença africana na cidade. A proposta adota uma perspectiva decolonial, ou seja, busca questionar narrativas históricas centradas na herança europeia e evidenciar o protagonismo das populações africanas e afro-brasileiras na formação de Ouro Preto.
“A gente começou pelas galerias e percebeu que precisava ler a própria cidade”, conta Douglas ao explicar que o trabalho teve início nas antigas galerias subterrâneas de mineração. Com o tempo, ele percebeu que compreender Ouro Preto exigia olhar também para a superfície, onde permanecem marcas da presença africana na arquitetura, nas formas de ocupação do território e na produção cultural.
Hoje, os roteiros percorrem bairros como Padre Faria e Antônio Dias, onde o visitante encontra comunidades, antigas estruturas da mineração e patrimônios como a Capela do Padre Faria, fundamentais para compreender o início da ocupação da cidade e a participação negra em sua formação. Segundo Douglas, alterar o percurso também transforma a forma de olhar para Ouro Preto. “Você passa a entender mais como um exemplar de uma cidade africana do que necessariamente uma cidade portuguesa. Isso está nas técnicas, na forma de fazer”, afirma.
Um retorno às origens: a perspectiva decolonial dos roteiros turísticos organizados por Douglas Aparecido (de vermelho, na primeira foto) em Ouro Preto atraem cada vez mais turistas e ouro-pretanos. Fotos: Acervo do Circuito Palma Preta. #ParaTodosVerem: Uma galeria de fotografias que mostram um grupo de pessoas realizando passeios na cidade de Ouro Preto. As pessoas aparecem caminhando por ladeiras de paralelepípedo, trilhas na vegetação, visitando igrejas antigas e observando bairros na encosta. Há momentos de interação, sorrisos e contato com a natureza.
Os percursos do Palma Preta aproximam visitantes de artistas, moradores, grupos culturais e territórios. Entre esses espaços está uma casa no bairro Antônio Dias que, até pouco tempo atrás, fazia parte apenas da memória de uma família de artistas. Mas, hoje, ela abriga a Ndanji Galeria, um espaço dedicado à arte negra contemporânea.
Uma casa de artistas
Ndanji é uma palavra de origem quimbundo (língua bantu falada principalmente no noroeste de Angola, incluindo a região de Luanda) que significa raiz. O termo também pode ser traduzido como base, filão de mina, rocha ou a baqueta utilizada para tocar tambores. Porém, em Ouro Preto ganhou um novo significado e passou a nomear um espaço que reúne essas diferentes ideias: memória, ancestralidade e criação artística.
Foi a artista visual Danielle dos Anjos, 40 anos, quem escolheu esse nome para a galeria inaugurada em junho deste ano. O espaço ocupa a antiga casa dos avós da artista, onde funcionou, durante décadas, o salão de beleza da avó e, mais tarde, o da mãe, além do ateliê de um de seus tios. Ao transformar o imóvel em galeria, Danielle deu continuidade à história da casa como lugar de trabalho, convivência e produção artística.
A mudança começou de forma despretensiosa, pois Danielle procurava apenas um espaço maior para desenvolver sua produção. “Eu não estava pensando em galeria ainda. Só precisava de um espaço para eu pintar, para eu esculpir, fazer meus trabalhos”, lembra. Enquanto reformava a casa, ela conciliava a obra com o trabalho no Museu da Inconfidência, onde acompanhou debates sobre a presença de artistas negros nos espaços expositivos e participou da montagem da exposição “Barroco, mesmo”, da artista mineira Sônia Gomes.
“Isso foi em 2025. A exposição em que eu estava trabalhando era a primeira de uma mulher negra dentro do Museu da Inconfidência”, destaca Danielle ao recordar as conversas sobre a falta de espaços para pessoas negras exporem. Essas discussões, somadas à reforma da antiga casa da família, fizeram Danielle enxergar um novo destino para o imóvel que manteve parte como ateliê e parte como galeria. “A ideia do espaço surge dentro da casa da minha família, uma família preta que já tem uma tradição das artes em Ouro Preto. Quis criar um lugar para trocar pesquisas e trabalhos com outras pessoas negras”, diz Danielle.

Quem visita a Ndanji ainda encontra vestígios dessa história. Objetos do antigo salão de beleza e referências aos artistas que passaram pela casa convivem com pinturas, gravuras e instalações da exposição inaugural. Danielle cresceu nesse ambiente e atribui à convivência familiar parte de sua formação artística. “Eu conheço muito de arte porque fui às vernissages do meu tio e fui ao teatro com meu outro tio. Isso está sempre muito presente e, quando surgiu a possibilidade de construir alguma coisa mais sólida, pensei: por que não manter esse lugar que já virou uma tradição?”, comenta ela.

Antes mesmo da inauguração, a casa voltou a se tornar um ponto de encontro da vizinhança. Enquanto organizava os últimos detalhes da galeria, Danielle improvisou o caderno de visitas sobre uma cadeira. Uma moradora da mesma rua percebeu a situação, convidou a artista a acompanhá-la e voltaram logo em seguida com uma mesa e uma toalha emprestadas. “Ela falou: ‘Vamos lá em casa’. Voltou com a mesa e a toalha. Os vizinhos já perguntavam quando eu ia abrir para visitação”, lembra. A mesa continua até hoje na recepção da galeria como símbolo do envolvimento da comunidade com o novo espaço.
Esse desejo de fazer da Ndanji um lugar de encontros também orientou a exposição inaugural. Em vez de reunir artistas que compartilhassem uma única perspectiva sobre a identidade negra, Danielle convidou pessoas com trajetórias e pesquisas distintas. Dessa forma, colocou em diálogo diferentes maneiras de pensar memória, ancestralidade, território e produção artística negra contemporânea. Foi assim que nasceu a proposta de AUTO F(r)ICÇÕES, primeira mostra da galeria.
Arte, identidade e autorrepresentação

A exposição inaugural da Ndanji, AUTO F(r)ICÇÕES, reúne obras de Danielle dos Anjos, Gio de Oliveira e Marcinha Baobá, com curadoria de Saulo Calixto, 31 anos, mestrando e pós-graduando em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Logo na entrada, retratos de mulheres negras recebem o visitante e, ao longo do percurso, pinturas, gravuras e objetos aproximam diferentes linguagens e formas de autorrepresentação. Em vez de oferecer uma leitura única sobre a experiência negra, a mostra coloca em diálogo trajetórias e produções artísticas distintas.
“O ser negro não é único. A gente não é igual”
Danielle dos Anjos, artista visual e idealizadora da Ndanji Galeria.
Segundo Saulo, a curadoria buscou preservar as singularidades de cada artista ao mesmo tempo em que construía relações entre as obras. Foi desse processo que surgiu o nome da exposição. “Ficção não é mentira. Ficção é narrativa”, explica o curador. “Depois apareceu a ideia da fricção. Quando essas obras são colocadas juntas, elas causam uma fricção de entendimento, de linguagem e de propostas.”
Para Danielle, essa diversidade era fundamental para inaugurar a galeria. “A gente queria abrir a galeria discutindo identidade. O ser negro não é único. A gente não é igual. São três artistas que pensam identidade de formas completamente diferentes”, diz. Na avaliação de Saulo, a exposição também amplia o circuito cultural da cidade ao criar um espaço independente voltado à arte negra contemporânea em um bairro historicamente marcado pela produção artística.
O curador considera que conhecer quem produz essas obras também faz parte da experiência da visita. “Tem pessoas trabalhando para desmistificar essas histórias e contar outras. Me interessa apresentar a imagem negra por um viés que ainda está sendo pouco explorado. Quando alguém entra naquele espaço e encontra uma galeria instalada na casa de uma família negra de artistas, alguma conversa já começa ali”, afirma.
“Ouro Preto é uma cidade muito mais periférica do que central. São vários centros dentro do que se entende como centro histórico.”
Saulo Calixto, curador da exposição AUTO F(r)ICÇÕES.
Para Danielle, a Ndanji também fortalece uma rede de artistas que já existe em Antônio Dias. A proximidade entre ateliês, coletivos e produtores culturais faz com que os próprios artistas compartilhem oportunidades e indiquem o trabalho uns dos outros. “Tem ateliês aqui perto. Quando alguém procura um trabalho que eu não faço, indico outro artista. Eles fazem a mesma coisa comigo. A gente vai criando essa conversa”, comenta. Na avaliação da artista, essa circulação evidencia uma produção cultural intensa que ainda recebe pouca visibilidade. “Tem muito artista, muito músico, muito ator, muito grupo de teatro, muitos ateliês. Existe uma potência muito grande aqui”, afirma.

O desafio de permanecer
Manter uma galeria independente em Ouro Preto também envolve desafios. Pouco mais de um mês após a inauguração, Danielle ainda busca formar um público que incorpore o espaço ao cotidiano da cidade. Embora a Rua Bernardo de Vasconcelos seja passagem constante de moradores e turistas, poucos entram espontaneamente na galeria. “É um espaço de arte contemporânea negra. As pessoas que vêm para Ouro Preto ainda não estão interessadas nesse tipo de coisa. É muito raro”, afirma.
Para ela, consolidar a Ndanji depende tanto do fluxo turístico, quanto da construção de vínculos com a comunidade. Enquanto prepara as próximas exposições, Danielle concentra seus esforços em fazer da galeria um espaço incorporado ao cotidiano de Ouro Preto, frequentado tanto por moradores quanto por visitantes. “Quero que as pessoas venham, conversem, tomem um café e façam deste espaço um lugar de encontro. O principal agora é conseguir construir um público que venha, visite, converse e participe, nem que seja sentando aqui, batendo papo e tomando café”, diz.

A permanência de iniciativas como essa também passa por políticas públicas, avalia Danielle. Embora reconheça a importância dos editais para fomentar a produção artística, ela defende ações que garantam condições para a manutenção dos espaços culturais. “Política cultural não pode ser só edital. Também precisa ajudar a facilitar alvarás, autorizações e fazer as coisas acontecerem”, comenta.
Saulo compartilha da mesma percepção. Para ele, Ouro Preto reúne artistas, pesquisadores e iniciativas capazes de ampliar as narrativas sobre a cidade, mas esses espaços ainda permanecem à margem dos circuitos culturais mais conhecidos. “Existem pessoas fazendo, querendo fazer. Esses espaços precisam ser fortalecidos, divulgados e fazer parte de um circuito. A cidade não pode olhar apenas para o Museu da Inconfidência, para a Casa dos Contos ou para a FAOP”, diz o pesquisador.
















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