Cuidado e pertencimento para além do Mês do Orgulho
- Laura Avelar e Eduardo Queiroz
- há 1 dia
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Em junho, iniciativas promovidas em Mariana para a população LGBTQIAPN+ buscam fortalecer vínculos, ampliar o acesso a direitos e construir espaços de pertencimento.

Neste mês, a comunidade LGBTQIAPN+ ganha maior visibilidade por meio de campanhas, eventos e ações voltadas à diversidade. A data remete às mobilizações que surgiram após a Revolta de Stonewall*, em 1969, e continua sendo um momento de reivindicação de direitos e de reflexão sobre os desafios que ainda atravessam a vida dessa população. A ampliação da visibilidade, contudo, não elimina os obstáculos presentes no cotidiano. Questões relacionadas à falta de acesso à saúde, à educação, ao mercado de trabalho e à ocupação dos espaços da cidade ainda fazem parte da realidade de muitas pessoas LGBTQIAPN+ em municípios do interior. O Centro de Referência em Direitos Humanos (CRDH) de Mariana, nesse sentido, oferece serviços e realiza atividades que buscam promover o pertencimento e o exercício da cidadania dessa população.
*A história do Mês do Orgulho está relacionada à revolta de Stonewall, que ocorreu nos Estados Unidos em junho de 1969. A revolta, liderada por pessoas LGBTQIAPN+, ocorreu em resposta à violência policial cometida no bar Stonewall Inn, um espaço de convivência desta comunidade. Desde então, o mês de junho foi escolhido para sediar protestos, paradas e tematizar o orgulho LGBQIAPN+. |
Lorran Victor é um homem trans de 31 anos, residente de Mariana. Natural de Belo Horizonte, ele mudou-se para Mariana em 2016, inicialmente para cursar administração na Universidade Federal de Ouro Preto. Durante este processo de mudança, Lorran diz que conheceu o preconceito de verdade. “Eu vim para cá quando eu tinha 21 anos e parte da minha adolescência e o começo da minha vida adulta eu vivi dentro de uma bolha, né? Porque quando eu morava em Belo Horizonte, todo meu convívio, toda minha vida social era dentro da própria comunidade LGBT. Eu tinha essa possibilidade lá. E aqui eu digo que foi o lugar onde eu conheci o que é o preconceito de verdade, sabe? Eu não tinha noção de quão grave as coisas eram”, conta Lorran.

Em Mariana, trajetórias marcadas por processos de exclusão se apoiam em iniciativas que buscam construir redes de apoio, acolhimento e participação social. Para quem vivencia essas experiências de preconceito e discriminação, políticas públicas específicas e espaços coletivos de convivência podem representar mais do que o acesso a um serviço. Eles se tornam pontos de encontro, locais de escuta e oportunidades para estabelecer relações que fortalecem o sentimento de pertencimento.
Gabriella Pimenta, natural de Mariana e advogada, é uma mulher lésbica de 28 anos que participa ativamente, como representante da sociedade civil no Conselho Municipal dos Direitos LGBTQIAP+, da construção de políticas públicas voltadas para a população LGBTQIAPN+. Gabriella defende a importância da comunidade usufruir dessas políticas e de ocupar estes espaços coletivos.
“Ocupar os nossos espaços é muito importante. Se a gente parar para pensar em todo o contexto de luta, desde Stonewall, nós enfrentamos muitas barreiras e hoje a gente consegue ocupar esses espaços e dizer: ‘Olha, eu existo, olha, eu pertenço’. E assim, concretizar direitos fundamentais. Então, é extremamente importante que a gente vá, que a gente participe, que a gente ocupe, que a gente traga a nossa fala para esse ambiente que inclusive é muito acolhedor”, reforça Gabriella.
É nesse contexto que atua o Centro de Referência em Direitos Humanos (CRDH) de Mariana, oferecendo acolhimento, orientação e encaminhamentos para diferentes demandas, além de promover atividades voltadas à convivência e ao fortalecimento de vínculos. Durante o Mês do Orgulho, essas ações ganham destaque em uma programação especial construída a partir das necessidades observadas junto aos usuários do serviço.
ENCONTRO, CRIAÇÃO E CONVIVÊNCIA
Na programação deste ano, oficinas, atividades recreativas e ações culturais ocuparam diferentes espaços do CRDH. A proposta surgiu a partir de um entendimento compartilhado pela equipe: criar oportunidades para que pessoas LGBTQIAPN+ possam se encontrar, trocar experiências e construir redes de apoio. “Eu sou uma pessoa muito solitária, né? Não tenho muito convívio social. Então, essas propostas de convivência são muito importantes para mim no dia a dia, para eu sair um pouco de casa, ter com quem conversar”, fala Lorran.
#ParaTodosVerem: Sequência de fotos em que há duas pessoas sentadas à mesa, pintando materiais coloridos com pincéis, professora Giseli Barros ofertando sua oficina no CRDH, sentada em uma cadeira com um vaso de flor ao seu lado, o livro Quarto de Despejo de Carolina Maria de Jesus colocado sobre uma mesa, um círculo de pessoas sentadas em cadeiras, participando de uma oficina e a fachada do prédio do CRDH.
Segundo a equipe do CRDH, as atividades desenvolvidas durante o Mês do Orgulho dialogam com um trabalho realizado ao longo de todo o ano. Oficinas de artesanato, escrita criativa e outras práticas integrativas fazem parte de uma estratégia voltada para o fortalecimento comunitário e para a promoção da autonomia dos usuários.
Cherry Oliveira Pereira Miranda, mulher trans, marianense de 20 anos, gostaria que as pessoas entendessem a importância de iniciativas como esta. “São muito mais do que encontros, é estar em espaços que não ocupamos naturalmente. É a união entre pessoas que cansaram de lutar sozinhas, é um caminho seguro para sermos nós mesmos com outras pessoas iguais a nós”, afirma Cherry.

Ao mesmo tempo em que proporcionam momentos de convivência, algumas dessas atividades também contribuem para debates sobre geração de renda e inclusão social, especialmente para grupos que enfrentam maiores dificuldades de inserção no mercado de trabalho.
O trabalho desenvolvido pelo CRDH vai além da realização de eventos e oficinas. A partir do contato cotidiano com os usuários, a equipe identifica questões que atravessam diferentes dimensões da vida da população LGBTQIAPN+. Entre elas estão dificuldades de acesso a serviços públicos, barreiras impostas por processos de discriminação e desafios relacionados à permanência em espaços educacionais e profissionais.
O Centro atua como uma porta de entrada para demandas relacionadas à saúde, saúde mental, assistência social, educação e retificação de nome e gênero, articulando encaminhamentos junto à rede de proteção do município. As atividades também incluem ações de formação voltadas a profissionais de diferentes áreas do serviço público. A proposta busca ampliar o conhecimento sobre diversidade sexual e de gênero e contribuir para atendimentos mais qualificados nos equipamentos municipais.
OCUPAR A CIDADE TAMBÉM É UM DIREITO
Saulo Camêllo, de 29 anos e formado em direito, é coordenador de Direitos Humanos da Subsecretaria da Mulher e Direitos Humanos de Mariana e faz parte da equipe do CRDH. Seu trabalho com a comunidade LGBTQIAPN+ começou ainda na graduação, quando suas inquietações desencadearam em pesquisas sobre o tema.

Liana Paula, marianense de 28 anos, é formada em pedagogia pela Universidade Federal de Ouro Preto, chefe do Departamento de Promoção à Diversidade e também compõe a equipe do CRDH. A partir de sua vivência como uma mulher negra e trans e de seu ingresso no meio acadêmico, Liana percebeu a importância da luta pelos seus direitos e da comunidade.

Ambos, tanto Saulo quanto Liana, destacam que muitas pessoas LGBTQIAPN+, especialmente pessoas trans, enfrentam dificuldades para acessar determinados espaços da cidade. Em alguns casos, a exclusão social produz afastamentos que impactam não apenas o acesso a serviços, mas também a participação na vida cultural e comunitária do município. “A população trans, por exemplo, é vítima de uma invisibilidade, de um silenciamento. Então, muitas dessas pessoas têm medo de acessar esses lugares. A gente vem auxiliando nessa ocupação de espaços e também pensando em uma reparação histórica”, fala Liana Paula.
Nesse sentido, o CRDH passou a desenvolver atividades que partem do entendimento de que a cidadania também envolve a possibilidade dessas pessoas circularem pela cidade, estabelecer vínculos e construir memórias nos territórios que se habitam. “Nós percebemos, na cidade de Mariana, que esse contexto de exclusão faz com que pessoas LGBTIAPN+ não tenham direito de acessar a cidade, de acessar os equipamentos culturais, de acessar os equipamentos públicos. Ao observar essa realidade, nós passamos a fazer passeios, a implementar um serviço de convivência”, complementa Saulo Camêllo.
CONSTRUIR FUTUROS POSSÍVEIS
O acesso a direitos se materializa de diferentes formas. Em alguns casos, ele aparece na possibilidade de utilizar o nome pelo qual a pessoa se reconhece. Em outros, na construção de amizades, no acolhimento recebido em momentos difíceis ou na confiança para ocupar espaços que antes pareciam inacessíveis. Para muitos participantes das atividades promovidas pelo CRDH, esses processos também influenciam a maneira como enxergam o próprio futuro na cidade.
Apesar das adversidades, Gabriella se mantém otimista quanto aos avanços da comunidade LGBTQIAPN+ e à conquista de seus direitos e cidadania. “Eu consigo ver um avanço gigantesco, em diversas situações, como a questão do reconhecimento de pessoas trans por meio do reconhecimento do nome, que é uma coisa tão pessoal. Sei que nós ainda temos alguns desafios, em Mariana, como a questão da saúde de pessoas trans, mas eu consigo ver e sentir esses avanços nos últimos tempos”, diz ela.

Enquanto a programação do Mês do Orgulho mobiliza encontros e atividades ao longo de junho, as experiências compartilhadas pelos participantes evidenciam que o cuidado, a escuta e a convivência não se limitam a uma data específica. Eles fazem parte de um processo contínuo de construção de cidadania, pertencimento e reconhecimento para pessoas LGBTQIAPN+ que vivem e constroem suas trajetórias em Mariana.
“Esperamos que a população LGBT, cada vez mais, saiba que existe esse equipamento para acolher, fazer atividades que visam práticas integrativas de fortalecimento de vínculo e fazer com que a política pública da população LGBT seja construída em conjunto. Nós nunca quisemos fazer uma política de gabinete, que é pensada por uma ou por duas pessoas. Aqui, as políticas públicas são construídas com diálogo, com escuta e com participação social”, finaliza Saulo.














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