“O prejuízo de uma vida”
- Ana Laura Diniz
- há 2 dias
- 4 min de leitura
O ônibus descia lentamente pelas ruas, enquanto o barulho do motor se misturava às reclamações típicas do fim do mês. Mochilas gastas, botas sujas de minério e rostos cansados ocupavam os bancos apertados naquele fim de tarde cinzento. No fundo, três amigos que dividem a mesma rotina: trabalho pesado, contas acumuladas e medo do futuro.
— Cada mês parece mais pesado que o outro. As contas de água, de energia, o mercado, nada disso tá cabendo mais no meu bolso. Fui comprar um leite para o meu filho esses dias e tava mais de oito reais! Comé que pode isso? Tenho medo do que o futuro nos prepara — reflete Luís que, apesar de sempre silencioso e distante das conversas do ônibus, daquela vez deixou escapar um raro desabafo enquanto amassava entre os dedos a pequena notinha do mercado que ainda trazia guardada no bolso.
— Nem me fale! Trabalho o dia todo para nada. Já vou começar o próximo mês devendo mais de quatro mil. Um monte de gente recebendo indenização por causa disso e daquilo, ganhando a maior grana, e eu aqui pelejando pra pagar minhas dívidas. Só porque aconteceu aquele acidente lá no trabalho, agora fica todo mundo recebendo essa tal reparação enquanto a gente, que mais precisa, não para de ralar pra ganhar mixaria no final do mês, né não, Carlão? — fala Ricardo.
Carlão permanecia olhando pela janela, mas o reflexo do vidro escondia parte de sua expressão. Seus braços firmes apertavam a mochila no colo. Com ar calmo e aparentemente despreocupado, ele responde ao colega:
— Esse mês as contas vieram caras mesmo, só de gasolina gasto mais de trezentos reais. Mercado? Nem me fale. Com a família grande, o bolso pesa. Mas tenho que corrigir você numa coisa, meu amigo…
— Como assim? Sobre o que? Vai falar que eu não ando trabalhando, é? — corta Ricardo enquanto se levanta para dar espaço a uma senhora cansada que acabava de entrar no ônibus.
— Trabalhando eu sei que você está porque todo mundo aqui rala muito. Mas você não pode falar que aquilo foi um acidente não! Aquilo foi um crime!
Algumas pessoas levantam os olhos discretamente. O ônibus segue em movimento, mas o clima parece desacelerar.
— Que crime o que? O pessoal tá tirando é vantagem disso. É um trem que dura tanto que já tá atrapalhando nossas vidas. — se exalta Ricardo.
Carlão suspira fundo antes de responder e, pela primeira vez, tira os olhos da janela:
— Com isso eu concordo, ele tá durando muito mesmo. Nem todos foram indenizados e, ainda assim, levam marcas fortes de lá. Isso precisa mesmo acabar, precisa ser resolvido logo. É muito sofrimento!.
O tom tranquilo que ocupava o fundo do ônibus desapareceu. O ranger do coletivo nos quebra-molas e ruas esburacadas parecem acompanhar o peso que cresce na conversa. Passageiros antes distraídos começam a abaixar o volume do celular, interromper conversas e olhar discretamente para os três.
— Pois fale você, isso, para as famílias que perderam alguém! Fale isso para todos que vivem em medo contínuo todos os dias! Fale, fale! — exalta-se Carlão.
Luís permanece em silêncio observando os dois amigos e, agora, é ele apertando os dedos com força contra a barra do assento à sua frente. Ricardo ainda tenta soltar um riso nervoso, mas o desconforto já havia tomado conta do ônibus inteiro:
— Calma, pô. Não precisa se exaltar, tá todo mundo cansado aqui.
Carlão engole seco. Seus olhos ficam vermelhos não apenas pela raiva, mas pelo cansaço acumulado de quem vive há anos tentando seguir em frente sem conseguir sair do mesmo lugar.
— E você acha que eles não estão? Você acha que eu não estou? Não posso ouvir um barulho mais alto, uma sirene, nem mesmo o som de um trovão ou da chuva. Eu vivo em alerta. Sabe quanto tempo demorou para os rejeitos chegarem até nós, meus amigos? Seis segundos. Com seis segundos, eu te garanto, você perde tudo. Quem eu sou? O que eu tô fazendo aqui, morando em lugares que não me pertencem? Eu não quero ser alguém que “veio da lama”, um “oportunista”. Vocês não sabem o que é sentir um desgosto tão grande de si mesmo que te imobiliza, que te faz se submeter a esses tipos de trabalho só para manter sua família viva. Esse sou eu, Ricardo, o cara que você diz só querer tirar vantagem. Você não tem noção do que é perder uma vida, do que é perder amigos, família, casa, seu lar. Minha dor não passa desde que a barragem rompeu. Eu ainda luto por quem eu era, por tudo que eu fui.
O silêncio agora toma conta de todo o ônibus. Nem o vendedor ambulante que havia acabado de subir se atreveu a falar. A chuva fina começa a bater nas janelas e, por alguns segundos, só se escuta o som do motor e das gotas caindo no vidro.
O ônibus para, as portas se abrem e Carlão levanta devagar, ainda respirando pesado. Solta aos poucos a mochila das mãos, como quem finalmente desprende algo preso há muito tempo dentro do peito. Sem olhar para trás, caminha lentamente até a porta. Ricardo permanece parado, sem reação. Luís abaixa a cabeça. Antes de descer, Carlão encara os dois por um breve instante e, em um último suspiro, solta:
— Medo eu tenho é de vocês.
As portas se fecham novamente. O ônibus volta a seguir seu caminho, mas as pessoas ali dentro já não eram mais as mesmas. Luis observa a cadeira vazia deixada pelo amigo e, quase num sussurro, responde:
— É, Ricardo, não dá para calcular o prejuízo de uma vida.




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