O que vale a memória de Antônio Pereira
- Ana Giulia e Thais Soares
- há 11 minutos
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Moradores do distrito de Ouro Preto convivem com o terrorismo de barragem provocado pela ação minerária, mas resistem ao apagamento do território

Resistir quando tudo ao seu redor insiste em te destruir: esse é o cotidiano dos moradores do distrito de Antônio Pereira, localizado em Ouro Preto, a cerca de 7,5 km de distância da barragem Doutor. A comunidade, como outras de inúmeras cidades mineiras, é atravessada pela atividade minerária, mas permanece viva e mantém pulsante, de forma coletiva, a memória do território.
A mineração está cada vez mais enraizada no distrito, o que força os moradores a conviverem com placas de rota de fuga, sirenes, casas depredadas, portas e janelas fechadas por paredes. Além da perda do direito de ir e vir no território que é sinônimo de lar para tantos, isso tudo ainda configura o que pode ser chamado de terrorismo de barragem. Esse cenário passou a fazer parte da rotina da comunidade quando a mineradora Vale expandiu a Mina Timbopeba. Com o esgotamento da capacidade de armazenamento de rejeitos, a empresa criou a barragem Doutor com capacidade para acumular cerca de 35 milhões de metros cúbicos.
A barragem Doutor foi construída pelo método a montante, considerado mais barato, mas também mais perigoso, em razão da estrutura ser arquitetada para crescer em cima do próprio rejeito depositado. Por isso, suas operações foram suspensas em março de 2019, após mudanças nas regras de segurança da Agência Nacional de Mineração (ANM) implementadas a partir dos desastres-crime em Mariana (2015) e em Brumadinho (2019). Depois de vistorias técnicas e inspeções, a barragem entrou em processo de descaracterização (Leia Mais), deixando de funcionar como depósito de rejeitos a fim de reduzir os riscos de rompimento.
Um ano depois, em uma escala de até 3 que indica o risco de rompimento, a estrutura foi classificada em Nível 2 de Emergência. Em meio à pandemia de Covid-19, famílias foram removidas de suas casas, pois moravam na Zona de Autossalvamento (ZAS), área em que não há tempo suficiente para assistência em caso de rompimento e os moradores devem saber as rotas de fuga. Essas medidas, advindas da Política Nacional de Segurança de Barragens, preveem ações para tentar reduzir riscos em situações de emergência. Para quem vive na região, porém, os protocolos não eliminam a sensação de insegurança que passou a fazer parte do cotidiano da comunidade.

Morar próximo a uma barragem é uma realidade que Gislene Costa Farias Alves, 44 anos, vivencia diariamente. Conhecida como Duda, ela mora com a família em uma zona de risco (sujeita a impactos diretos em caso de rompimento) na divisa com a ZAS, uma área marcada pelos impactos das medidas de segurança adotadas nos últimos anos. Sua vida e a de tantos outros moradores que permaneceram no território são atravessadas pelo terror. Mesmo estando numa área ainda considerada segura pela mineradora, essas pessoas foram atingidas de diferentes formas ao longo desse processo.
É este o chamado “terrorismo de barragem”, um termo utilizado por variadas organizações civis, em meios acadêmicos e movimentos sociais para denominar o fenômeno de violações de direitos em lugares onde a mineração está presente. Nesse contexto, as barragens de rejeitos sem estabilidade garantida, a retirada de pessoas às pressas de suas casas, a colocação de placas de pontos de encontro e rotas de fuga, mas principalmente as simulações de emergência com sirenes em várias localidades, vêm causando pânico na população e ampliando o clima de insegurança.
“A gente vive com um monstro em cima da cabeça da gente”
A Vale tomou controle amplo sobre o território e, hoje, Duda mora ao lado de casas inabitadas após a retirada das diversas famílias vizinhas. Com isso, a mineradora transforma as tragédias dessas famílias em oportunidades de acumulação, reconfigurando os territórios atingidos conforme os seus interesses. Por outro lado, a gestão da mineradora não se dispõe a criar formas para minimizar os danos gerados à saúde mental da comunidade.
“Eu me senti invisível. Quando tirou todo mundo e eu olhei pra trás, vi que não tinha volta mais. E não tem volta mais porque, com o tempo que decorreu disso tudo, das pessoas saírem, eu sofri demais”, lamenta Duda ao relatar o processo de delimitação da ZAS, com a aplicação de um medidor que “apita” quando a casa vistoriada está em seu perímetro.

Nossa equipe tentou contato com alguns atingidos que foram removidos, mas nenhum deles aceitou conversar conosco. O medo e os acordos de confidencialidade impostos pela mineradora têm se tornado cada vez mais rigorosos, motivos que Camila Bento, coordenadora do Direito e Participação Social do Instituto Guaicuy, acredita justificar a dificuldade para acessar pessoas que foram removidas da região. “É um grupo que não acredita muito que haverá outras políticas de reparação para eles, justamente por causa do acordo que já fecharam”, comenta ela.
A maioria das casas desses atingidos removidos já foi comprada pela Vale, algo que, de acordo com o Instituto Guaicuy, a mineradora vê como forma de indenização por todos os danos causados a essas famílias. A preservação de seus lares, suas histórias e sua memória no território é, hoje, marcada por perdas e também pela negligência da mineradora, que nem ao menos assegura que o alerta da sirene seja ouvido por toda a população. Nos casos de Bento Rodrigues e Brumadinho, as sirenes de emergência não chegaram a tocar e as pessoas que estavam abaixo da barragem não receberam qualquer tipo de alerta por parte das empresas. Não existe o reconhecimento de que essas inseguranças submetem os moradores de Antônio Pereira a um processo enorme de adoecimento mental
O terror constante do amanhã
A ausência de transparência sobre os reais motivos das remoções, e a discrepância entre os protocolos técnicos e as ações executadas pela Vale S.A evidenciam que o terrorismo de barragens não é consequência de falhas do sistema, mas sim um processo marcado por inconsistências e falta de esclarecimentos que, na prática, contribui para o deslocamento de famílias e para o esvaziamento gradual da comunidade.
Segundo Hariane Alves, coordenadora de Comunicação Social da Guaicuy, não existem levantamentos públicos sobre questões ambientais e sociais que atravessam o distrito. Por isso, são desconhecidos os impactos da poeira, da contaminação de cursos d’água, das obras de descaracterização da barragem e da presença da população operária da mineradora, que está em mais de 3 mil habitantes na região. A falta desses estudos contribui para a invisibilização das violências enfrentadas pelos moradores da comunidade e reforça os processos de culpabilização do próprio território.
Enquanto os impactos estruturais da mineração deixam de ser investigados, Antônio Pereira passa a ser associado apenas à violência, criminalidade e precarização. “As pessoas começam a normalizar uma fala que aquele território é violento. E que aquele território é isso ou aquilo. Ao mesmo tempo, sem entender que é um território em que a polícia chega lá batendo em todo mundo. Que o poder público não funciona lá. Já teve caso de criança que morreu esperando uma ambulância chegar, porque você não tem uma ambulância em Antônio Pereira”, reclama Hariane.
Duda ainda visita o local onde ficavam os cavalos da família, localizado na Zona de Autossalvamento (ZAS). Os animais foram levados, a casa destruída e o que restou foi o terreno onde os seus filhos ajudavam a cuidar dos cavalos desde pequenos. Hoje eles guardam miniaturas coloridas no armário da sala como uma lembrança do passado e forma de preservar uma memória retirada de suas vidas.

Aliliane Veríssimo, moradora da região de Pedreira, localizada perto da famosa Igreja Queimada de Antônio Pereira, vive essa angústia. É evidente, em toda a sua trajetória, a marca que a mineração deixou em sua vida e na vida de sua família. “A gente vive com um monstro em cima da cabeça da gente”, relata, com tristeza, ao lembrar da forma como as obras da mineradora alteraram totalmente seu cotidiano. Antes, no distrito, ela e seu marido conseguiam vender de 8 a 12 litros de leite por dia, mas, hoje em dia, perderam suas criações e toda a vontade de lidar com a casa, a horta e o terreno. A vida no lugar não os acolhe mais.

As famílias de Duda, de Aliliane e de tantas outras pessoas da comunidade foram afetadas de diferentes formas, mas só foram consideradas como uma comunidade atingida em 2024, após 4 anos de terror desde o início do processo de descaracterização. Nesse contexto, as incertezas e inseguranças permanecem, o que resulta na sensação de não conseguir imaginar um futuro vivendo em paz no distrito. O que nos evidencia cada vez mais como os impactos da mineração atravessam os modos de vida, os sonhos e as perspectivas de um futuro tranquilo na comunidade. Além disso, a sirene, que deveria ser um instrumento de alerta, não está sendo ouvida pelos moradores da comunidade, independentemente da distância em que residam, o que indica falhas na atuação da mineradora. O medo, a insegurança e a incerteza estão se tornando cada vez mais enraizados e permanentes no cotidiano dos moradores do distrito. Aliliane reafirma que eles nunca mais serão os mesmos, pois essas marcas não sairão da memória dessas pessoas e dessas famílias, já que dinheiro e bens materiais não apagam os danos causados.
Em meio a imóveis depredados, está a casa em que Wilson Nunes, 69 anos e morador da região, nasceu e foi criado. Garimpeiro desde novo, ele afirma que, mesmo diante desse cenário em que lhe são tiradas tantas possibilidades, sem poder exercer as atividades tradicionais e também sem a liberdade de ir e vir, ele segue resistindo. “Você pode ter certeza que um dos lugares do município de Ouro Preto que tem mais pessoas aguerridas, que lutam mesmo de verdade, é o povo de Antônio Pereira”, conta.

Wilson ainda explica que não há encontro entre moradores da comunidade em que os riscos oferecidos pela Barragem Doutor não sejam parte do assunto. Junto com ele estão pessoas que considera terem sido fundamentais para construir e manter viva a história e a cultura do distrito, como Dona Dunga, Dona Andira, o senhor Emanuel Furtado, fundador do Nacional Futebol Clube, Zé Cardoso, os fundadores da Associação de Moradores, como o Guidão, Iao e Dante.
Apesar da luta coletiva, cada morador do distrito tem sua singularidade e perspectiva. Eles são muito mais do que números registrados pela mineradora e impactados pela mineração. Ressignificar a cada dia o modo de ser e viver Antônio Pereira, essa comunidade repleta de tradições orais e culturais formada por diversos sujeitos que nasceram e cresceram no distrito. Seu Wilson, como garimpeiro tradicional, afirma que já morou alguns anos distante, mas que nunca poderá viver longe de seu lar. Antônio Pereira é, para ele e para tantos outros moradores da região, sinônimo de saudade. Isso faz parte de sua trajetória e de quem ele é.




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