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O ritmo traumático do silêncio

  • Giovanna Felix
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

De alguma forma, eu me lembro quando a barragem de Fundão estourou em 2015. Eu tinha 11 anos, minha mãe me buscava na escola em São Paulo e o telefone dela não parava de tocar. As pessoas acreditavam que, só por ela ser mineira, tinha risco de ter atingido algum familiar nosso. Estávamos a centenas de quilômetros de distância e, felizmente, todos estavam bem. Ao chegar em casa, o jornal confirmou e escancarou um medo que eu nem sabia que era possível existir. A cena de destruição e horror nunca saiu da minha cabeça. As pessoas choravam desesperadamente, mesmo ainda sem saber a dimensão total do que havia acontecido e o que, ou quem, tinham perdido. 


Elas só sabiam que tinham perdido quase tudo: a casa, o carro, os documentos, os brinquedos, as materialidades das memórias. 


Eu me lembro das pessoas se mobilizando pelo Brasil. Era doação de água, comida, roupas e tudo o que pudesse ser enviado à Mariana para ajudar as pessoas atingidas a sobreviverem àquelas condições que foram impostas. Essa notícia se perpetuou na mídia por dias ou por semanas, até que outro fato catastrófico mobilizasse o país, fazendo a lama virar apenas lembrança para quem não viveu na pele - e na alma - a tragédia-crime provocada pela Vale e BHP (Samarco). Eu segui com a minha vida e a cena de destruição ficou em um lugar remoto da minha memória. 


O resto do país também seguiu em frente, pois a marca da lama chocou temporariamente e depois foi substituída por outro fato impactante.


Nos quase 11 anos seguintes, outras catástrofes marcaram a humanidade. Houve, em Brumadinho, outro rompimento criminoso. Sobrevivemos a uma pandemia que deixou mais de 700 mil mortos no Brasil e que mudou, por um tempo, o nosso jeito de viver. Vimos o início de uma guerra que perdura até hoje. Encaramos, a cada ano, grandes enchentes por conta das intensas chuvas letais. Acompanhamos diariamente os casos de feminicídios aumentarem e ouvimos falar em números de mortos. 


Mas são sempre números, nunca os nomes; é sempre a morte e nunca a dor dos que ficam. 


Eu me acostumei a ver notícias ruins no jornal, na televisão, no computador e no celular. Era ao acordar, durante as aulas, na hora da janta, o dia inteiro como se fosse uma trilha sonora que, em algum momento, te deixava anestesiada e você passava a ignorar os fatos para continuar vivendo. Isso, de certa forma, acaba banalizando o medo de uma tragédia ocorrer por perto ou da possibilidade de uma catástrofe atingir nossa comunidade. Ou seja, as fatalidades continuam acontecendo e a vida continua seguindo. 


Durante o caos, a vida acontece de modo diferente: dá para ver a angústia, o desespero e o medo no olhar de todos, mas o tempo passa e, de repente, todo esse sentimento parece sumir. 


Foram oito anos deixando de pensar na tragédia de Fundão, até o momento em que comecei a ter mais contato com pessoas atingidas e suas histórias por conta do curso de jornalismo. Só aí pude ver que a vida delas mudou para sempre. Quando pisei em Mariana pela primeira vez, diferente do que estava no meu imaginário, a cidade estava intacta. Mariana é um lugar que viu a destruição de perto, mas longe da sede do município e de seu centro histórico, onde as pessoas também seguiram em frente, já que os maiores danos não estão ali e nem são perceptíveis a olho nu. Periférica e distrital, a realidade “escondida” em uma cidade com forte apelo turístico é escancarada em Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, onde o tempo parou junto com a chegada da lama. Também pararam as casas e vidas levadas pela onda de rejeitos da mineração. 


As marcas  de lama ficaram impregnadas nas paredes e nas mentes do que - e de quem - restou de pé. 


O desastre-crime de Fundão escancarou não somente a fragilidade das comunidades frente à mineração, a urgência das questões socioambientais e o poder das grandes mineradoras, mas também a forma como lidamos com tragédias. No começo, todo mundo fica impactado e preocupado; depois vem o medo de acontecer novamente ou pior; em seguida cresce o espírito solidário e percebemos uma grande mobilização social; mas, em pouco tempo, para quem não viveu a tragédia, tudo vira assunto do passado. Só resta às pessoas que foram vítimas ou que foram atingidas, seguir a vida em seu novo e traumático ritmo. 


O medo e a solidariedade ficam escondidos em um lugar profundo demais para serem compartilhados nos dias “normais”.  


Me perguntei para onde foi toda essa empatia e comoção. A resposta demorou, porém chegou em sala de aula, onde pude conviver cada vez mais com relatos que me marcam a cada dia. Aquele olhar angustiado que tanto vi na televisão, agora estava mais próximo do que nunca. Onde eu estive durante todo esse tempo que não pude ver o sofrimento dessas pessoas enquanto elas lutavam? Como conseguimos esquecer toda aquela cena de horror que gerou tanto sofrimento aos atingidos? O medo não foi embora, ele continua naqueles que perderam ou foram expulsos de suas casas. O medo está no olhar das mães que não conseguem dormir tranquilas pensando no lugar onde seus filhos brincam. O medo está no comerciante que tem receio de perder tudo novamente. O medo se instaurou naqueles que, ao ouvirem um barulho de sirene, já sentem o pânico despertar. 


O medo está com as pessoas que dormem de tênis até hoje, pois, se algo acontecer, existe a esperança de correr e salvar alguma coisa, nem que seja sua própria vida, em apenas seis segundos.


O resto do país conseguiu seguir em frente, sem se dar conta de que uma parte da população tem resistido desde o momento do rompimento. Diante das muitas tragédias a que somos apresentados diariamente, precisamos lembrar que as pessoas atingidas ainda têm que lidar com essas dores do passado, todas muito presentes. O medo segue morando em um lugar obscuro, e só quem o viu de perto sabe que é uma sombra que não consegue se deixar para trás. 


Agora, com tudo revivido na minha memória, sigo com uma certeza: desistir nunca foi, e nunca será, uma opção. 


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