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Só o que sobra é a falta

  • Mariana Barreto
  • há 2 dias
  • 6 min de leitura

Maria do Carmo da Silva D’Angelo, seu lar e sua luta diante de perdas irreparáveis e memórias que resistem


Maria do Carmo da Silva D’Angelo, 52 anos, liderança na luta por direitos e justiça na zona rural de Mariana fotografada em 08 de maio de 2026. Foto: Mariana Barreto. #ParaTodosVerem: Maria do Carmo da Silva D’Angelo posa em frente à folhas verdes. Maria é uma mulher branca, de cabelo preto curto, e tem 52 anos. Usa blusa branca e calça preta. A foto mostra do seu tronco para cima. Ela segura nas mãos um óculos de grau de armação preta.
Maria do Carmo da Silva D’Angelo, 52 anos, liderança na luta por direitos e justiça na zona rural de Mariana fotografada em 08 de maio de 2026. Foto: Mariana Barreto. #ParaTodosVerem: Maria do Carmo da Silva D’Angelo posa em frente à folhas verdes. Maria é uma mulher branca, de cabelo preto curto, e tem 52 anos. Usa blusa branca e calça preta. A foto mostra do seu tronco para cima. Ela segura nas mãos um óculos de grau de armação preta.

Em 2012, um fotógrafo foi chamado para um sítio em Paracatu de Cima. Seu trabalho seria registrar momentos da celebração dos 50 anos de casamento entre Francisca Eni da Silva e Geraldo Nascimento da Silva. As Bodas de Ouro foram comemoradas em frente à casa amarela do casal, no enorme campo aberto que abrigava uma horta, um pasto, e, naquele momento, toda a família. As centenas de registros da festa foram reunidas em um álbum de fotos, adornado, de capa dura, e com quase um palmo de espessura. Uma memória sólida como aquela união.


Trinta e nove anos antes, em 1973, nasceu Maria do Carmo, filha do casal. Como os outros seis irmãos, veio ao mundo dentro da casa amarela, em uma cama de madeira maciça, no quarto que continuou sendo seu até os 21 anos, idade em que ela mesma se casou e construiu seu próprio lugar. Cresceu entre vacas, porcos, galinhas e cães, no gramado verde onde sua mãe cultivava tudo que florescia no solo de Minas Gerais. O cheiro da cana exalava da engenhoca na cozinha. O barulho do moinho de fubá ressoava nos ouvidos. A água do riacho que cortava o sítio molhava os pés brincalhões que passaram a infância banhando-se ali.


Dessa época, Maria conta: “Não sobrou nada”.


Hoje, Maria do Carmo Silva D’Angelo é uma das lideranças femininas mais atuantes e respeitadas pelas pessoas e comunidades atingidas da zona rural de Mariana. Ela integra a Comissão de Atingidos e Atingidas pela Barragem de Fundão (CABF) desde 2016. Teve participação intensiva na luta por justiça e reparação, desde a contestação e  reformulação do Programa de Levantamento e Cadastro dos Impactados, criado à época pela Fundação Renova, até as ações atualmente relacionadas ao Novo Acordo do Rio Doce, repactuação vigente desde novembro de 2024. É mulher, esposa, mãe de dois filhos, liderança local e atingida pelo maior desastre-crime socioambiental no Brasil, que em 2015 devastou o subdistrito marianense em que nasceu, Paracatu de Cima.


Foi dia 5 de novembro de 2015. O cheiro fresco das frutas no pomar foi encoberto pelo dos rejeitos que, em meio à lama, afundaram o sítio onde Maria cresceu. As narinas que antes sentiam o aroma agradável do campo, sangraram, feridas pela ardência que o forte odor da devastação causou. A brisa do riacho cedeu ao vento avassalador da queda da lama. O barulho dos animais, do fubá e do caldo de cana, era agora o som ensurdecedor da destruição, e o álbum de fotos das Bodas de Ouro, acostumado com a gaveta do quarto da Dona Eni, se juntava ao resíduo mineral, para nunca mais ser encontrado. 


Na casa onde se abrigaram para se proteger do alcance do desastre, a luz foi a primeira falta a ser percebida. Todas as outras faltas, amanheceram. 


“Foi quando meu pai olhou pra casa dele e viu tudo destruído.

Uma vida inteira de trabalho…”


Maria nunca tinha visto seu pai chorar antes daquela manhã, dia 6 de novembro de 2015. 


A noite foi passada em claro, com a esperança de que tudo aquilo não fosse real. Seu Geraldo e Dona Eni pensavam em voltar para sua casa, limpar o que imaginavam ser “só uma água”, e não a enorme massa que soterrou sua história. Não só os documentos o registro de suas identidades, mas um lar inteiro com as suas digitais, era agora inalcançável.


Maria morava pouco acima do terreno dos pais, que foi totalmente tomado. A lama parou na sua porta, uma ironia infeliz ao desconvite que, naquele dia, levou muito mais do que as portas e janelas da casa amarela onde viveu toda a infância. Ela e a família recusaram-se a deixar seu lar, até serem forçados a sair, cerca de 20 dias depois. Nesse intervalo, a procura em meio à lama não cessou, mas cavar o barro endurecido até as mãos doerem não foi suficiente para desenterrar as memórias mais importantes, como o álbum.


“A gente procurou, mas sabendo que não ia encontrar”. 


Pouco conseguiu ser salvo. 


Quadro de madeira encontrado por Maria em meio aos rejeitos, manchado de lama. Foto: Arquivo pessoal. #ParaTodosVerem: Quadro decorativo de madeira, com manchas marrons de lama. No centro do quadro, uma pomba de madeira em relevo, com uma flor, também de madeira, ao seu redor. Espalhadas pelo quadro estão flores menores, amarelas, também em relevo.
Quadro de madeira encontrado por Maria em meio aos rejeitos, manchado de lama. Foto: Arquivo pessoal. #ParaTodosVerem: Quadro decorativo de madeira, com manchas marrons de lama. No centro do quadro, uma pomba de madeira em relevo, com uma flor, também de madeira, ao seu redor. Espalhadas pelo quadro estão flores menores, amarelas, também em relevo.

“Esse quadro eu achei ele todo destruído no meio da lama [...] Aí eu consegui cavar e tirar ele, mas mesmo assim foi muita sorte a gente encontrar ele. Minha mãe queria muito encontrar esse quadro [...] aí eu consegui pegar as peças dele que tinham soltado, colar de novo, dei uma lavada assim, mas deixei com lama”.


Em meio a tanta falta, faltava sono. Maria e o marido revezavam para dormir, tanto era o trauma e o medo de que, a qualquer momento, o pesadelo poderia se repetir. O coração palpitava planejando: levantar, pegar as crianças, correr, encontrar um lugar que a lama não alcança. Quando era sua vez, não conseguia. A lama, parada na porta, invadia qualquer sonho. Ela assistiu muitos amanheceres, mas nenhum galo cantava. Depois do sono, passou a faltar ar. Maria nunca tinha ido ao psiquiatra antes. Foi diagnosticado com síndrome do pânico. 


“É como se o mundo estivesse revirando em cima da gente”.


Maria do Carmo é uma mulher católica e bastante religiosa, como era sua mãe, e sua avó antes dela. Ela se lembra de um quadro dado pela avó a seu pai: grande, com uma imagem santa, preso a um pacotinho com terra de Jerusalém. Ficava pregado na parede do quarto. Tanto se acostumou a olhar para ele, que nunca imaginou que um dia não o veria mais. A terra santa embaixo de tanta terra criminosa. O jeito foi encontrar Deus dentro de si. É assim que ela diz ter forças para lidar com as faltas, e seguir com o propósito de cuidar de um novo lar, dos filhos, e dos direitos de sua família e outros atingidos.


“Quando eu fico muito triste pensando nessas coisas, eu acho que a única forma de eu conseguir forças é em Deus”.


A memória individual e coletiva é um direito assegurado pelo Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH3) (2010) no Brasil, mas Maria hoje é responsável por manter sozinha muitas de suas memórias, cujos registros foram apagados. Não só ela, mas outros atingidos, diariamente sentem, entre tantas outras, a falta de fotografias, cadernos, presentes, livros com dedicatórias, coleções. Perderam na lama itens que contam sua história. Sofreram um rompimento com o tempo e a própria memória. Preservo aqui parte molecular da memória de Maria, impossível de recuperar, tampouco, de indenizar. 


“No meu peito existe um buraco que acho

que não vai ser preenchido nunca”.


Conversei com Maria dois dias antes do domingo de Dia das Mães deste ano (2026), e ouvi ela me contar sobre sua falecida mãe, que naquele fim de semana, ainda por vir, faria, especialmente, falta. Ouvi sobre Dona Eni na varanda da casa amarela que hoje falta em Paracatu de Cima, usando um vestido cor de palha, na festa de 50 anos de casamento, que fazem falta os registros. Me restou imaginar o álbum, que hoje falta no espaço da gaveta, e escrever sobre as fotografias, que, sem memória, provavelmente sentem a falta do olhar de Maria, em algum lugar. 


Dona Eni faleceu em 2023. A última vez que Maria olhou o álbum de fotos das Bodas de Ouro foi em 2013. Tantas fotos de sua mãe estavam lá, mas hoje, só o que sobra, é a falta, e a memória, que persiste em preencher as lacunas do que a lama levou.


Dona Eni e Seu Geraldo na celebração das Bodas de Ouro, em 2012. Foto: Arquivo pessoal. #ParaTodosVerem: Dona Eni e Seu Geraldo abraçados na festa de Bodas de Ouro de seu casamento. Dona Eni é uma mulher idosa, branca, tem cabelos brancos, e usa um vestido amarelo claro, brincos, aliança e óculos. Seu Geraldo é um homem idoso, alto, branco, e usa uma camisa social branca, cinto, calça cinza escura e aliança. Um padre com um microfone na mão encosta no ombro de Dona Eni. O padre é pardo, com cabelo baixo, usa uma túnica branca e estola verde. A foto os mostra do tronco para cima. Ao fundo, uma mesa com toalha branca. Em cima da mesa há velas e uma bíblia. Vê-se também cadeiras marrons e tecidos verdes decorativos. Uma lona de alumínio cobre o local.
Dona Eni e Seu Geraldo na celebração das Bodas de Ouro, em 2012. Foto: Arquivo pessoal. #ParaTodosVerem: Dona Eni e Seu Geraldo abraçados na festa de Bodas de Ouro de seu casamento. Dona Eni é uma mulher idosa, branca, tem cabelos brancos, e usa um vestido amarelo claro, brincos, aliança e óculos. Seu Geraldo é um homem idoso, alto, branco, e usa uma camisa social branca, cinto, calça cinza escura e aliança. Um padre com um microfone na mão encosta no ombro de Dona Eni. O padre é pardo, com cabelo baixo, usa uma túnica branca e estola verde. A foto os mostra do tronco para cima. Ao fundo, uma mesa com toalha branca. Em cima da mesa há velas e uma bíblia. Vê-se também cadeiras marrons e tecidos verdes decorativos. Uma lona de alumínio cobre o local.


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O Lampião é o jornal-laboratório do curso de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), produzido durante a disciplina Laboratório Integrado I - Cobertura Noticiosa Hiperlocal.

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