Entre o lazer e o silêncio: os impactos da ocupação noturna da "Savassinha" em Ouro Preto
- Fernanda França e Tainá Quirino
- 25 de jul.
- 12 min de leitura
Atualizado: 31 de jul.
A concentração de bares na região da Bauxita, em Ouro Preto, tem provocado mudança na dinâmica do bairro e gerado reclamações dos moradores devido ao barulho, acúmulo de lixo, desordem nas vias públicas e de outros impactos na convivência urbana.

Ouça na íntegra:
A cidade histórica de Ouro Preto tem seu solo ocupado por 39 bairros, sendo que o bairro Bauxita, que antes era apenas residencial, agora é um bairro misto com centros comerciais, pubs, repúblicas e residências. Um trecho da Rua Professor Paulo Magalhães Gomes, apelidado de “Savassinha”, também localizado no bairro, é frequentado por diferentes públicos. Seu apelido é uma alusão ao bairro Savassi, em Belo Horizonte, famoso por sua grande quantidade de bares. O público frequentador é bastante diverso e, em sua maioria, utiliza motos e cavalos como meio de transporte para chegar e ir embora do local. O intenso movimento tem gerado queixas por parte dos moradores. Entre as principais reclamações estão o excesso de barulho provocado por carros com caixa de som, manobras de motociclistas empinando motos, episódios de pessoas urinando em frente às casas próximas e o lixo acumulado na via. Páginas no Instagram têm sido canais para a publicação desses conteúdos, principalmente pelos últimos acontecimentos dos jogos do Brasil na Copa do Mundo.
O trecho, que concentra 7 estabelecimentos, atrai frequentadores pela gastronomia e pela famosa cervejinha gelada. Além da tradicional cervejinha gelada, os “copões” também são comercializados, uma bebida mais acessível e com maior disponibilidade, o que faz com que os bares sejam muito frequentados por jovens da região.

Marcelo Assunção, 69, um dos quatro presidentes da Associação de Moradores do bairro Bauxita e responsável pela região mais alta, onde está localizada a Praça Dr. Benedito Gonçalves Xavier, conhecida como Cojan, relembra que a chegada da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em 1969, modificou a dinâmica do bairro. Segundo ele, a transformação se intensificou em 2006, com a expansão da universidade e a criação de novos cursos.
“Em 2006 veio o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, e aí a universidade deu um pulo, né? A gente tinha um plano diretor que definia mais ou menos como era a ocupação do bairro”, relata.
Com o aumento do número de estudantes, as festas promovidas nas repúblicas passaram a ser uma das principais reclamações dos moradores, dando origem às primeiras demandas apresentadas à associação do bairro. “Com relação à perturbação, é muito barulho. A primeira demanda que surgiu foi criada em relação às repúblicas. Era um inferno. Era mesmo. Isso era uma coisa de louco. Se tivesse aqui uma hora dessas, era um inferninho”, relembra.
Segundo Marcelo, após um período em que a situação foi controlada, as reclamações relacionadas à perturbação do sossego voltaram a crescer. Desta vez, porém, o problema está concentrado na região dos bares, que passaram a atrair grande circulação de pessoas durante a noite.
Além do barulho, outra reivindicação recorrente dos moradores é o uso das ruas e das portas das residências como local para urinar. O morador afirma que a solução para esse problema depende da existência de uma base legal que permita cobrar providências do poder público. O Código de Posturas de Ouro Preto, instituído pela Lei Municipal n.º 178/1980, estabelece normas sobre a organização da cidade, o uso dos espaços públicos e a fiscalização municipal, mas não prevê a obrigatoriedade da instalação de banheiros públicos em locais com grande concentração de pessoas. Segundo ele, essa ausência dificulta a cobrança de medidas por parte da Prefeitura.
“Se a prefeitura achar que não dá para resolver, aí vamos ter que trazer o Ministério Público. Porque o que a gente tem que ver é o seguinte: eu procurei hoje no Código de Posturas, não tem lei que fala assim: ‘Olha, se tiver uma demanda maior, você tem que disponibilizar banheiro para cada 20 pessoas’. Se tiver isso em alguma legislação, aí fica fácil para a gente fazer. Agora, se não tiver, a gente sempre tenta amarrar em uma legislação, tem que ter base”, afirma.

As reclamações apresentadas acima, elaboradas pela Associação de Moradores da região, reúnem as principais demandas da comunidade, principalmente as questões da movimentação dos bares. O documento foi produzido no âmbito do programa Mão Dupla, firmado entre a Federação das Associações de Moradores de Ouro Preto (FAMOP) e a Prefeitura de Ouro Preto. Segundo a associação, as demandas foram coletadas por meio de questionários aplicados nas residências e encaminhadas ao município até o dia 5 de julho de 2026. Pelo acordo estabelecido no programa, a Prefeitura tem o prazo de 60 dias após o recebimento para informar se as solicitações serão ou não implementadas.
“A gente tenta sempre lidar da melhor forma para minimizar o impacto que um ambiente comercial causa aos moradores.”
O silêncio perdido
A rotina dos moradores da região tem sido marcada por noites mal dormidas e pela sensação de abandono, diante dos transtornos causados pelo movimento dos bares. Maria (nome fictício utilizado para preservar a identidade da entrevistada, que preferiu não se identificar) conta que acorda diariamente às 5h30 para trabalhar, mas frequentemente tem o descanso interrompido pelo barulho que se estende pela madrugada.
Segundo ela, por volta da meia-noite, de sexta a domingo, a região se transforma em um ponto de aglomeração, marcado por som alto, músicas em volume elevado e manobras de motociclistas empinando motos nas ruas. "Quando é meia-noite, uma hora da manhã, começa o funk, moto sendo empinada, som alto e a bagunça. Nós perdemos horas de trabalho devido à movimentação até tarde", afirma.
Para Maria, os problemas vão além da perturbação do sossego. Ela relata que, ao amanhecer, é comum encontrar garrafas de vidro, copos descartáveis e outros resíduos espalhados em frente à sua residência, além do forte cheiro de urina deixado por frequentadores da Savassinha. A moradora também afirma conviver constantemente com o cheiro de drogas ilícitas dentro de casa, situação que, segundo ela, compromete o bem-estar de sua família. "Não dá nem para ir à cozinha que já sentimos o cheiro muito forte", conta. De acordo com a entrevistada, a quantidade de resíduos deixados nas ruas após os finais de semana dificulta o trabalho dos profissionais responsáveis pela limpeza urbana e contribui para a degradação do espaço público. "Na segunda-feira, fica muito lixo acumulado para a gari varrer. A rua está ficando imunda", diz.
Na tentativa de buscar soluções, Maria afirma ter procurado representantes do poder público e encaminhado vídeos que mostram a situação enfrentada pelos moradores. Segundo ela, os registros foram enviados à Associação de Bairro, que posteriormente repassou as denúncias aos órgãos competentes. No entanto, até o momento, ela diz não ter recebido qualquer retorno ou percebido mudanças significativas na fiscalização da região.
Outra preocupação destacada pela moradora é a presença frequente de adolescentes consumindo bebidas alcoólicas e permanecendo nas ruas durante a madrugada. De acordo com seu relato, a situação já foi comunicada ao Conselho Tutelar, mas, segundo ela, o problema persiste. Para Maria, é necessário que haja uma fiscalização mais efetiva, especialmente após o encerramento das atividades dos estabelecimentos, quando muitas pessoas permanecem nas vias públicas.
Carlos (nome fictício utilizado para preservar a identidade do entrevistado, que preferiu não se identificar) também é morador da região. Segundo ele, o excesso de barulho e as frequentes discussões e brigas que ocorrem comprometem a tranquilidade dos moradores e interferem diretamente em sua rotina. "Muito barulho e, às vezes, até briga", afirma.
Carlos conta que a perturbação sonora dificulta até mesmo a realização de atividades simples dentro de casa. De acordo com o entrevistado, o volume do som impede os moradores de assistir televisão ou acompanhar um telejornal com tranquilidade. "Você não consegue assistir uma televisão, um jornal, por conta do barulho. E a questão do som atrapalha também", relata.
O morador também denuncia situações recorrentes de desrespeito nas proximidades de sua residência. A utilização da porta da sua casa como banheiro o obriga a ter que realizar uma constante limpeza do local: "Já encontrei muitas pessoas urinando na porta da minha casa e, muitas das vezes, eu tenho que limpar", conta.
Na tentativa de buscar providências, Carlos afirma já ter procurado um vereador da região e o presidente da associação de bairro para relatar os problemas enfrentados pela comunidade. Portanto, reclama que nenhuma resposta ou medida concreta foi apresentada aos moradores até o momento.
Apesar dos transtornos, ele acredita que a convivência entre moradores, comerciantes e frequentadores é possível, desde que haja mais respeito e conscientização por parte de quem frequenta a região. Como alternativa para minimizar os problemas, ele sugere a instalação de banheiros químicos e um maior envolvimento dos próprios estabelecimentos na orientação de seus clientes. "Colocar banheiro químico e os funcionários dos bares incentivarem as pessoas a utilizarem o banheiro, ou ao menos avisarem da disponibilidade", conclui.
O papel da fiscalização
Em entrevista com o secretário de segurança e trânsito de Ouro Preto, Moisés dos Santos, ele relata que a Savassinha recebe ações conjuntas da Polícia Militar, Guarda Municipal e Fiscalização de Posturas para coibir as pessoas que estejam em desacordo com a lei: “Nós sabemos que os comerciantes precisam trabalhar, sabemos também que a diversão e o direito ao lazer é constitucional. Só que tem que ter uma harmonia entre o comércio, os frequentadores e também os moradores da região.”
Sobre as denúncias citadas por Maria, ele confirma, dizendo que “A gente tem recebido algumas denúncias, via Ouvidoria, da prefeitura ou até mesmo aqui nos canais da Fiscalização e Postura. Todas elas são checadas e enviadas para as equipes que temos de plantão todos os finais de semana, e elas têm agido em consonância com a nossa lei e com as nossas legislações vigentes”. Além disso, ele também apresenta que estão atentos a questões ligadas aos menores de idade: “Recentemente fiz um ofício ao juiz da Vara Criminal e da Infância e da Juventude da Comarca de Ouro Preto, o Dr. Áderson Antônio de Paulo, que está instituindo novamente o Conselho de Juizado de Menores, justamente porque, nessas denúncias, percebemos relatos sobre muitos menores que estão utilizando aquele espaço de forma errada, além do lazer, e utilizando produtos inadequados.”
Moisés destaca ainda que são utilizados inclusive recursos tecnológicos para realizar essas fiscalizações: “Temos câmeras de vídeo de monitoramento da Guarda Municipal naquela região. As pessoas estão utilizando o espaço para fazer atos de vandalismo, muitos motoqueiros empinando motos, algazarras, que de certa forma perturbam o sossego alheio. Então isso também está sendo combatido”, ressalta o secretário.
O secretário afirma que uma ação conjunta poderá ser realizada para minimizar os impactos, mas ainda não foi realizada porque aguardam um retorno concreto por parte do judiciário: “Estamos aguardando a resposta do Meritíssimo Dr. Áderson Antônio.. Recentemente pedi um assessor para checar junto ao Fórum para que a gente possa tomar as providências, e é muito importante que o Juizado de Menores também faça parte dessa equipe de fiscalização. O que temos até o momento é o Termo de Ajustamento de Condutas (TAC), datado de 2022, que todos os comerciantes assinaram”.
O TAC, assinado em 2022, propõe que os bares, lanchonetes e similares situados no bairro tenham parâmetros para o funcionamento, visando conciliar a atividade comercial com o sossego público e o uso adequado das calçadas e vias públicas. O termo impõe aos comerciantes uma série de obrigações, que incluem o cumprimento de protocolos sanitários, a regularização de alvarás, o respeito à faixa de pedestres, respeitar a faixa livre de 2 metros na calçada, não realizar eventos e/ou atrações de entretenimento (atrações artísticas, música ao vivo e afins) de qualquer natureza, o encerramento de atrações artísticas até as 00h00min e fechamento total dos estabelecimentos até às 01h00min. Caberá à Secretaria Municipal de Defesa Social fiscalizar o cumprimento dessas normas, estando os infratores sujeitos a penalidades que variam de multas (a partir de 50 Unidade Padrão Municipal (UPM’s) e apreensão de equipamentos até a interdição do local e a cassação do alvará de funcionamento.
Nossa equipe de repórteres checou e encontrou uma atualização do TAC. Publicado no Diário Oficial de Ouro Preto em 16/01/2026 (Edição n.º 3828), ele estabelece normas rígidas para o funcionamento. Entre elas encontra-se a responsabilidade do estabelecimento pela limpeza diária do espaço público ocupado, prezando pela segurança dos consumidores. Eles também devem evitar vasilhames de vidro ou porcelana, além disso, foram proibidos de realizar eventos sem licença prévia.
O que os empreendedores dizem?
Para os empresários Bob, de 46 anos, e Cíntia, de 36, proprietários do restaurante Du Bob e da adega Du Bob, a intensa movimentação noturna na região é consequência de um processo de expansão comercial que vem transformando o bairro nos últimos anos. Os comerciantes, que atuam na região desde 2019, defendem que a Bauxita deixou de ser apenas um espaço residencial e se consolidou como um importante centro de comércio e entretenimento de Ouro Preto. "Ouro Preto não tem mais para onde crescer e a única oportunidade que a cidade tem de crescer comercialmente é a região da Bauxita. Hoje, ela é um bairro de uso misto, residencial e comercial", afirma Bob.
Apesar de reconhecerem os incômodos causados pelo aumento da circulação de pessoas, os empresários acreditam que o crescimento da região é inevitável e precisa ser discutido de forma conjunta entre comerciantes, moradores e poder público. Segundo eles, o desenvolvimento econômico do bairro também gera benefícios, como a criação de empregos e a descentralização das atividades do Centro Histórico.
Os proprietários destacam ainda que os bares da região seguem um acordo firmado com a Prefeitura de Ouro Preto e a Associação de Moradores, que estabelece o encerramento das atividades à meia-noite e a dispersão do público até a uma hora da manhã. No entanto, a redução do horário de funcionamento, segundo Bob, trouxe impactos significativos para os empreendimentos. "A gente perdeu cerca de duas horas e meia de funcionamento. Isso impactou muito no nosso faturamento e também nos empregos, porque deixamos de contratar mais pessoas", relata.
Além disso, ele relata que as perdas financeiras fizeram com que os estabelecimentos não gerassem mais empregos. Atualmente, grande parte da mão de obra é composta por estudantes universitários, que procuram os bares em busca de trabalhos temporários e freelancers para complementar a renda e se manter na cidade.
"A maioria das pessoas que eu emprego hoje são estudantes. Não é por preferência, porque a gente gostaria de contratar mais pessoas da região, mas falta mão de obra. E os universitários acabam procurando esse tipo de serviço porque querem um trabalho freelancer para ter uma renda", explica Bob.
Os comerciantes também afirmam receber reclamações frequentes relacionadas ao barulho e à movimentação na região. Segundo Bob, as denúncias resultam em fiscalizações constantes por parte da Prefeitura e da Polícia Militar. No entanto, ele afirma que, na maioria das vezes, as equipes não encontram irregularidades dentro dos estabelecimentos, mas sim uma grande circulação de pessoas nas ruas, algo que, segundo o empresário, foge do controle dos comerciantes.
“A gente tenta sempre lidar da melhor forma para minimizar o impacto que um ambiente comercial causa aos moradores.
Mas também recebemos reclamações infundadas e denúncias de som alto que, muitas vezes, a fiscalização vem e constata que não existem", diz o empresário.
De acordo com o empresário, todos os estabelecimentos locais convivem diariamente com a presença dos órgãos de fiscalização. "A gente é fiscalizado todo dia. Recebemos denúncias de som alto e de outras situações, mas muitas vezes a fiscalização vem aqui e vê que aquilo que foi denunciado não existe", afirma. Para os proprietários, as fiscalizações são importantes para garantir o cumprimento das normas, mas parte das reclamações acaba responsabilizando os comerciantes por situações que acontecem fora de seus estabelecimentos.
Sobre as reclamações relacionadas ao odor de urina e à permanência de pessoas nas ruas, Bob e Cíntia ressaltam que todos os estabelecimentos possuem banheiros e estrutura para atender seus clientes, mas que não têm controle sobre as ações de quem permanece nos espaços públicos. "O que está dentro do nosso estabelecimento, a gente consegue controlar. O que está na rua já sai da nossa alçada. Os bares oferecem banheiro e toda a estrutura necessária, mas não conseguimos controlar a falta de educação de algumas pessoas", afirma Bob.
Para os empresários, a Bauxita se tornou o principal ponto de lazer e entretenimento de moradores e estudantes de Ouro Preto. Diante dos conflitos entre a atividade comercial e a vizinhança, eles defendem que a construção de soluções passa pelo diálogo e pela busca de medidas que conciliem o desenvolvimento da região com a qualidade de vida dos moradores. "Isso vai ser um assunto que realmente precisa ser discutido entre prefeitura, comércio local e moradores para que exista uma convivência entre o crescimento da região e a qualidade de vida de quem mora aqui", conclui o proprietário.

Enquanto a Bauxita se consolida como um dos principais espaços de lazer e entretenimento de Ouro Preto, a ocupação noturna da “Savassinha” evidencia os desafios de conciliar interesses distintos. De um lado, comerciantes defendem a importância econômica e social dos bares, responsáveis por gerar empregos e movimentar a vida noturna da cidade. Do outro, moradores relatam os impactos do barulho, da movimentação intensa e das mudanças na rotina do bairro. Entre reclamações, fiscalizações e acordos, a discussão aponta para a necessidade de um diálogo contínuo entre poder público, empresários e comunidade, em busca de soluções que permitam o desenvolvimento da região sem comprometer a qualidade de vida de quem vive nela.




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