Tarifa de água e esgoto é reajustada a partir de julho
- Eduardo de Queiroz, Laura Avelar e Natália Xavier
- 25 de jul.
- 8 min de leitura
Atualizado: 31 de jul.
Reajuste eleva a tarifa mínima residencial em 56,4% a partir de julho, mas apenas duas estações, construídas para os reassentamentos de Novo Bento Rodrigues e Paracatu, fazem o tratamento de esgoto no município de Mariana

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A partir de julho de 2026, o novo valor da tarifa vinculada ao consumo de água e de esgoto em Mariana entrará em vigor. A mudança, autorizada pela Agência Reguladora Intermunicipal dos Serviços de Saneamento de Minas Gerais (ARIS-MG), eleva a tarifa mínima residencial de R$ 19,60 para R$ 30,65, um reajuste de 56,4%, para as casas ainda sem hidrômetro instalado. Já as residências hidrometradas pagarão proporcionalmente ao consumo de água.
A cobrança chega em um momento em que, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SINISA), apenas 44,7% do esgoto gerado no município é coletado e nenhuma parcela desse volume recebe tratamento fora dos reassentamentos de Novo Bento Rodrigues e Paracatu, construídos com recursos da extinta Fundação Renova.
A revisão tarifária é conduzida pelo Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Mariana (SAAE), responsável pelo abastecimento de água e pelo esgotamento sanitário no município. Segundo a empresa, a última revisão de tarifas ocorreu em 2019 e, desde então, o consumo de água na cidade cresceu 275% acima da média estadual, enquanto a inadimplência dos usuários chegou a 67%. É esse cenário financeiro que, conforme alegam o SAAE e a ARIS-MG, justifica o novo modelo de cobrança, mesmo que não seja condizente com a realidade do saneamento básico oferecido à população marianense.

Do medidor de água à tarifa de esgoto: como chegamos até aqui

Ao longo das revisões tarifárias realizadas desde 2019, o SAAE vem avançando na instalação de hidrômetros. São cerca de 9 mil equipamentos instalados até o momento, o equivalente a aproximadamente 30% dos 29.616 domicílios do município, segundo dados fornecidos pela própria autarquia. A meta estabelecida é hidrometrar 80% das casas de Mariana até o fim deste ano.
Coleta não é tratamento
Coletar esgoto é recolhê-lo das residências por meio da rede de tubulações e levá-lo a algum destino. Tratar esgoto é submeter esse material, já coletado, a um processo físico e químico, em estações chamadas ETEs (Estações de Tratamento de Esgoto), que removem poluentes e patógenos (organismos que são capazes de causar doença em um hospedeiro) antes de devolver a água a rios, lagoas ou mares.
Um município pode coletar grande parte do esgoto que produz e, ainda assim, tratar muito pouco (ou nada) dele, caso não existam ETEs suficientes. Este é o cenário registrado hoje em Mariana, onde 44,7% do esgoto é coletado, mas nenhuma parcela desse volume recebe tratamento fora das duas estações que atendem os reassentamentos de Novo Bento Rodrigues e Paracatu.
O SAAE opera quatro estações de tratamento de água no município. Conhecidas como ETAs, elas são instalações que têm como objetivo tornar a água captada em água potável e própria para consumo. A ETA Sul, em Passagem de Mariana, é a maior delas, com capacidade para tratar 70 litros de água por segundo, atendendo os bairros Estrela do Sul, Rosário, São Gonçalo e São Pedro. O SAAE informa em seu portal oficial que um projeto de ampliação deve dobrar essa capacidade.
A ETA Santa Rita, com 21 litros por segundo, abastece o bairro de Santa Rita de Cássia e parte do Cabanas e Santa Clara. A ETA Matadouro e a ETA Seminário, cada uma com 18 litros por segundo, completam o sistema, atendendo, respectivamente, os bairros Matadouro, Galego, Cruzeiro do Sul e Santana, e os bairros São José (Chácara), Cabanas, São Pedro e a Rua Dom Viçoso.
#ParaTodosVerem: Na primeira imagem há um corpo d'água, ao fundo uma edificação do SAAE, ao seu lado um carro prata e, ao fundo, montanhas. Em seguida, há um reservatório de água, uma edificação do SAAE e várias árvores. Na terceira imagem, há uma elevação no solo com uma edificação do SAAE, ao centro uma árvore e ao redor tubos de tratamento de água.
Apesar da existência dessas ETAs, os moradores de Mariana ainda sofrem com a falta de água. Harrison Lima, 24, morador do bairro Rosário, diz que sua residência instalou uma reserva de água própria devido à frequente falta do recurso. “Nós temos duas caixas d' água, temos essa reserva. No final de 2025, eles instalaram uma caixa para o bairro Rosário, só que ela não distribui para o bairro inteiro. Tem ruas que ainda ficam sem água, que é o caso da minha”, fala ele.
Eliane Antônia Francisca, 58, mora no bairro Cartuxa mas precisa fazer algo semelhante. “Tem um tempo que falta mais, por conta da seca. Às vezes cai em um dia, aí fica dois dias sem… A gente tem que usar com cautela, pra não faltar na nossa casa. Lá em casa, tem uma caixa que colhe água da chuva, aí a gente usa essa água. Mas a vizinhança não tem a mesma sorte”, fala ela.
Pelo lado do tratamento do esgoto, a estrutura é mais restrita, com apenas duas ETEs, localizadas nos reassentamentos de Novo Bento Rodrigues e Paracatu, ambas erguidas em parceria com a extinta Fundação Renova. O tratamento nessas estações segue três fases: a preliminar, que retira sólidos maiores por gradeamento e caixa de areia; a secundária, com lagoas facultativas que decompõem a matéria orgânica por ação de bactérias; e a terciária, com lagoas de maturação e um filtro de pedra que removem patógenos e sólidos remanescentes antes de a água ser devolvida ao meio ambiente.
Serviço mal feito, comunidade insatisfeita
Os dados oficiais mostram que os desafios do saneamento em Mariana vão além do tratamento de esgoto. Segundo o SINISA 2024, cerca de 4.894 habitantes do município, o equivalente a 7,6% da população, ainda não têm seu esgoto coletado por nenhum sistema. Na distribuição de água, 21,5% de tudo o que é captado se perde na rede, por vazamentos, ligações clandestinas ou falhas de medição, índice pouco abaixo da média nacional, de 36,2%, mas que ainda representa um volume expressivo diante da tarifa que passa a ser cobrada por consumo.
A própria hidrometração, base técnica que sustenta a legalidade da cobrança por consumo, segue incompleta. O levantamento mais recente do SINISA (2024) registrava índice de hidrometração de apenas 7,9% no município e, mesmo com o avanço mais recente informado pelo SAAE, cerca de 9 mil hidrômetros instalados, ainda deixa a maior parte da cidade sem medição individual. Isso faz com que grande parte da população pague, por ora, a tarifa mínima fixa, independentemente do quanto efetivamente consome.
Diante desse quadro, os moradores de Mariana demonstram insatisfação em relação à qualidade do serviço prestado e ao novo valor da tarifa. Gabriela Santos, moradora do Barro Preto, não acha a cobrança justa. “Eu acho que essa taxação de água na cidade só seria conveniente se nossa água realmente chegasse tratada até as residências, porque não chega. No meu bairro, qualquer chuvinha que cai, a água chega barrenta na torneira”, diz ela.
Para lidar com as adversidades do saneamento básico e fornecimento de água na cidade, os moradores de Mariana precisam recorrer a métodos alternativos. “Mesmo com as chuvas intensas nessa cidade, nós temos cortes de água diariamente. Nós economizamos água quando falta e solicitamos o caminhão pipa. Só que o caminhão pipa, infelizmente, não atende no mesmo dia. Passa dois, três dias para chegar até a residência e mesmo assim, quando chega, a água não é de qualidade… Nós vemos que está cheia de terra e minério fino”, complementa Gabriela.
“Então, se é pra cobrar água, que tenha água nas torneiras.
E de qualidade!”
A fim de esclarecer algumas questões referentes à revisão na cobrança e solicitar posicionamento sobre as demandas levantadas pela comunidade, a equipe do jornal Lampião tentou contato com o SAAE, porém o órgão não deu retorno às tentativas por diversos meios. Em seu portal oficial, porém, a autarquia declara que a revisão tarifária é necessária para garantir o equilíbrio econômico-financeiro, reduzir o descumprimento do pagamento da fatura e manter a qualidade dos serviços de água e esgoto.
Em outra nota pública, também divulgada em seu site oficial sob o título "Esclarecimentos sobre a Revisão Tarifária", o SAAE Mariana defende a legalidade da cobrança, ancorada no Parecer Técnico DAF/ARIS-MG nº 022/2025 e na Resolução ARIS-MG nº 202/2025. Segundo o órgão responsável pelo serviço de saneamento básico, a resolução autoriza expressamente a cobrança da tarifa mínima nas localidades atendidas, "mesmo onde não há efetiva medição do consumo".
Apesar de não apresentar uma justificativa clara, o ARIS-MG declara que “embora nem todas as unidades usuárias disponham, no momento, de medidores individuais, é viável que o SAAE, no curto ou médio prazo, organize-se para concluir a instalação dos hidrômetros, viabilizando assim a efetiva cobrança pelo consumo”. Sobre o impacto financeiro nas famílias de baixa renda, a empresa cita a Tarifa Social. Segundo as regulamentações, famílias inscritas no CadÚnico (Cadastro Único), em situação de extrema pobreza ou com renda per capita de até meio salário mínimo, têm direito a desconto de 50% a 65% sobre a tarifa residencial, aplicado nos primeiros 15m³ consumidos.
A qualidade do serviço justifica o aumento na cobrança?
Segundo estudo apresentado pela ARIS-MG na audiência pública de novembro de 2025, mesmo após o reajuste, Mariana segue com uma das tarifas de água mais baixas da região. Em comparativo publicado pelo próprio SAAE, para um consumo de 10 mil litros, o valor cobrado em Mariana é de R$ 59,63, contra R$ 64,21 em Ponte Nova, R$ 67,10 em Viçosa e R$ 103,05 na área atendida pela Copasa.
Os dados históricos do SINISA reforçam esse cenário: antes da revisão de 2026, a tarifa média de água em Mariana era de R$ 2,10 por metro cúbico, cerca de 63% mais baixa que a média nacional, de R$ 5,70, o que ajuda a explicar por que o SAAE relata dependência de repasses da Prefeitura e inadimplência de 67% para cobrir seus custos operacionais.
Ao mesmo tempo, o Marco Legal do Saneamento (Lei nº 11.445/2007, atualizada pela Lei nº 14.026/2020) estabelece que, até 2033, 99% da população brasileira deve ter acesso à água tratada e 90%, à coleta e ao tratamento de esgoto, meta que impõe às cidades, inclusive às de tarifas mais baixas, a necessidade de equilíbrio financeiro para investir em expansão da rede.

Os números levantados expõem uma disparidade que a nova tarifa, por si só, não resolve. Mariana passa a cobrar dos moradores por um serviço de esgotamento sanitário que, segundo os próprios dados oficiais do setor, trata 0% do volume que coleta fora dos dois reassentamentos específicos. Entre a meta prevista para 2033 e a realidade atual do município, com hidrometração parcial, 7,6% da população sem coleta de esgoto e um histórico de investimentos prometidos e não concluídos, o desafio da SAAE é provar à população que o valor extra pago na conta de água se converterá, de fato, em eficiência e transparência.
Harrison avalia a qualidade do serviço prestado atualmente, diante do valor das cobranças e das adversidades que o saneamento básico enfrenta historicamente no município. “Tem lugares piores, mas pode melhorar. Pode melhorar muita coisa”, diz ele.
O órgão orienta que moradores com dúvidas sobre o número do hidrômetro ou valores cobrados procurem o setor comercial, pelos telefones 115 ou (31) 3557-9300, ou pessoalmente, na Rua Antônio Olinto, nº 34, Centro.










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