Após evacuações forçadas, Vila Samarco busca o recomeço
- Alberto Godefroid, Bárbara Guido e Milena Pereira
- há 2 dias
- 8 min de leitura
O risco de rompimento da barragem Doutor, pertencente à Vale, expulsou moradores, reorganizou a rotina, os caminhos e as relações de uma comunidade construída em torno da mineração.

O silêncio é uma das primeiras coisas que se percebe na Vila Residencial Antônio Pereira, conhecida até hoje pelos moradores como Vila Samarco, mesmo nome da mineradora que, nos anos 1970, usou a área do distrito de Antônio Pereira, em Ouro Preto, para abrigar seus funcionários.
Ele atravessa as ruas largas, acompanha fachadas vazias e permanece solitário diante das casas fechadas da parte baixa da vila. Portões trancados. Janelas fechadas. Em muitas grades e muros, o mesmo aviso colocado pela mineradora Vale: “Propriedade particular. Área protegida e monitorada. Proibida a entrada de pessoas não autorizadas”.
Na parte desocupada do lugar, o mato começa a tomar conta do caminho. Cresce pelas calçadas, avança sobre os jardins das residências e cobre pedaços das vias sem calçamento. As casas seguem fechadas, solitárias, umas ao lado das outras.
Os avisos não se limitam aos muros das propriedades: placas de rota de fuga estão nas esquinas, nas praças, diante da escola, próximas ao ponto de ônibus, tanto nas regiões habitadas quanto nas que foram evacuadas.
Setas brancas sobre placas azuis e laranjas indicam caminhos de evacuação. Em diferentes pontos da vila, placas sinalizam os locais de encontro previstos em caso de emergência.
Os sinais convivem com bicicletas apoiadas nas calçadas, jardins bem cuidados e crianças voltando da escola.
Mais perto da área de risco, outras placas começam a surgir: “Atenção: você está em área de risco. Se ouvir uma mensagem de voz e sirene, siga as rotas de fuga até o ponto de encontro mais próximo.”
Enquanto tenta retomar a normalidade, a vila convive com placas de rotas de fuga, áreas de risco e casas abandonadas.
Fotos: Alberto Godefroid e Milena Pereira.
Na Vila Samarco, o risco foi incorporado à paisagem.
Mas nem sempre foi assim.
Da parte alta da vila, a barragem Doutor permanece visível no horizonte. Em alguns pontos, ela aparece ao fundo das ruas, próxima às antigas casas dos gerentes e da escola. À noite, suas luzes permanecem acesas sobre a serra. Da comunidade, é possível observá-las à distância.
“Uma vila privilegiada”
A vila, criada para abrigar os funcionários do Complexo de Germano, pertencente à Samarco, foi planejada para que os operários e gerentes não tivessem que se deslocar dali para acessar suas demandas diárias.
“A Vila tinha de tudo”, lembra Avelino Moreira, 80 anos, aposentado e morador há quase 40 anos. “Médico, manutenção, coleta de lixo, mecânico. Era uma vila privilegiada.”
A Samarco construiu casas, áreas de lazer, organizou o abastecimento de água, o transporte e a escola. Havia clubes, quadras, festas promovidas pela própria empresa e ônibus circulando diariamente pela vila. Tudo parecia organizado para manter a mineração funcionando sem interrupção.
Durante décadas, a vila funcionou como um organismo próprio. A própria arquitetura refletia a hierarquia da mineração. As casas “A” pertenciam aos gerentes. As “B”, aos funcionários com formação técnica ou superior. Mais abaixo estavam as “C”, destinadas aos trabalhadores operacionais, eletricistas, mecânicos e operadores de usina.
Apesar disso, a vila nunca foi apenas extensão da empresa e, com o tempo, os moradores desenvolveram vínculos próprios.
Alexandre D’Angelo, projetista mecânico, nasceu ali em 1977. Filho de funcionários da Samarco, cresceu no lugar e, assim como muitos, mudou-se para estudar. Depois de constituir uma família, voltou para criar os filhos. Desde 2021, é presidente da associação de moradores.
“Eu fui para Belo Horizonte estudar e trabalhar”, lembra Alexandre. “Depois que casei, trouxe minha família de volta para cá para ser criada aos moldes do que eu fui criado. Lugar seguro, onde as pessoas se conheciam, onde os filhos tinham liberdade para ficar na rua.”
Quando fala de lá, Alexandre parece medir a distância entre a vila de antes e a de agora: “Os jovens cresceram juntos, estudando nas mesmas escolas, participando das mesmas atividades. A gente tinha uma ligação muito forte entre vizinhos. Era como uma grande família”.
Os filhos dos funcionários atravessavam a vila de bicicleta, estudavam juntos e passavam as tardes nos clubes da comunidade. Alexandre lembra das aulas de natação, das atividades esportivas e das festas promovidas pela própria Samarco.
“A gente viveu esse momento, uma bonança muito grande.”
Luiz Fragoso, 64 anos, guarda lembranças parecidas. Fotógrafo, mudou-se de Brasília para Antônio Pereira há quase vinte anos, depois de passar temporadas na região durante as férias. O que o encantou não foi a mineração: “As casas não tinham muro”, lembra. “A gente sentava na rede e via macacos passando”.
Nas fotografias guardadas por Luiz, a vila parecia existir em outro ritmo. Ruas cheias. Festas. Casas abertas. Quintais ocupados. A paisagem ainda sem alertas.
O acervo do fotógrafo Luiz Fragoso preserva a memória de uma vila cheia, ocupada por festas, brincadeiras e encontros entre vizinhos. Foto: Acervo de Luiz Fragoso.
Sai a Samarco, permanece a comunidade

A partir de 1995, segundo Avelino, a Samarco começou a vender as casas e, aos poucos, deixou de administrar o território. Oficialmente, o lugar passou a se chamar Vila Residencial Antônio Pereira e, pela primeira vez, a vila deixou de funcionar sob a lógica da empresa. O nome mudou, mas o pertencimento, não.
“Você vai em Mariana, você vai em Ouro Preto… ninguém fala Vila Residencial”, conta Avelino. “Todo mundo fala Vila Samarco”.
Mesmo sem a administração direta da Samarco, a mineração continuou organizando economicamente o território. Muitos moradores seguiram trabalhando nas mineradoras da região. Outros abriram pequenos comércios voltados para atender trabalhadores das empresas.
Durante décadas, a mineração organizou economicamente o território sem nunca alertar sobre a barragem ser uma ameaça imediata.
Apesar disso, a barragem Doutor, operada pela Vale e hoje em processo de descaracterização, com previsão de encerramento para 2029, permanece visível e assustadora no horizonte de quase toda a vila.
Em dias mais nublados, a estrutura quase desaparece entre a serra. Em outros, surge com nitidez acima das casas e acompanha o fundo da paisagem.
De repente Zona de Autossalvamento

Em março de 2019, o pedido do Ministério Público de Minas Gerais pela suspensão das atividades foi acatado. Apesar disso, em abril de 2020, a barragem Doutor teve o seu grau de emergência elevado para o nível 2, o que significa que a empresa não foi capaz de garantir sua estabilidade.
Com a atualização das condições de segurança, parte de Antônio Pereira e da Vila Samarco foi incluída na Zona de Autossalvamento (ZAS), área de até 10 km em que, em caso de rompimento da barragem, a chegada do rejeito é tão rápida que não há tempo suficiente para a atuação das autoridades de resgate. Nesses locais, a evacuação depende exclusivamente da ação autônoma dos moradores.
A partir de então, os residentes da vila passaram a conviver com um novo termo: mancha.
A mancha de inundação é uma projeção técnica que determina até onde a lama carregada de rejeitos do processo minerário chegaria em caso de rompimento da estrutura. No entanto, na vila, ela deixa de ser apenas uma projeção e passa a funcionar como fronteira.
Avelino conta que, em meio ao isolamento social durante a pandemia de COVID-19, moradores foram removidos pela Vale e 73 casas interditadas. Elas permanecem vazias até hoje. A comunidade foi repentinamente deslocada de um lugar de segurança e tranquilidade para um território marcado pelo risco de morte.
“Foi um terror”, lembra Avelino. “Imagina você morando aqui há muito tempo e, de repente, ouvir que tem que sair porque a barragem pode romper. Mexeu muito com o nosso psicológico”.

Com o avanço das discussões sobre o risco da barragem Doutor, muitas famílias deixaram a vila. “Depois que começou a circular a informação, o pessoal começou a se desesperar”, recorda Luiz Fragoso.
Algumas receberam indenizações da Vale, outras deixaram suas casas mesmo estando fora da “zona de risco”. Parte dos imóveis passou a ser ocupada por trabalhadores terceirizados ligados às mineradoras. Casas antes ocupadas por famílias transformaram-se em alojamentos.
“Antes eram muitas famílias”, diz Luiz. “Hoje tem muita gente. Uma casa com dez, vinte homens, pessoas que nem se conhecem”.
Para Alexandre, essa mudança também alterou a dinâmica da comunidade: “A gente começa a ter uma população flutuante aqui. Passa a conviver com um outro modo de vida, diferente. A gente passa a se trancar mais dentro de casa (...) Se iniciou esse modo mais estressante de viver”, relata.
Ele diz que os efeitos da barragem não ficaram restritos às casas desocupadas. “A gente começa a perder aquele vínculo de instância familiar. As pessoas começam a ter medo de vir, os parentes começam a ter medo de vir.”
Renascer

Mesmo com as mudanças, alguns moradores permaneceram. Outros até voltaram.
A escola, financiada pela Samarco (joint-venture da Vale e BHP) até o rompimento da barragem de Fundão, sofreu o risco de fechamento, mas foi salva por Cláudia Winder e seu marido. Desde 2017 sob sua administração, passou a se chamar Colégio Renascer e atende 136 alunos do ensino infantil ao fundamental II.
“Eu vejo o colégio muito como missão”, conta Cláudia. “E não como uma empresa, unicamente”.

Cláudia mora na vila desde 2014 e fala da escola como quem fala da própria comunidade. Para ela, manter as salas de aula abertas significa também tentar ampliar o horizonte das crianças que crescem em um território marcado pela mineração. “A gente tenta abrir a mente desses meninos para conhecer um mundo que não seja só Antônio Pereira.”
Ela conta também que muitos alunos crescem acreditando que o destino natural é trabalhar para as mineradoras da região. Dirigir caminhão. Transportar minério. “Nós já levamos muitos deles para conhecer Belo Horizonte”, diz. “Tem menino que nunca tinha saído daqui.”
Com o mesmo olhar para o futuro, a vida segue sendo retomada. A padaria voltou a funcionar. O clube foi reaberto. Crianças continuam atravessando as ruas a caminho da escola. Bicicletas seguem encostadas nas calçadas. Avelino reforça: “A vila, a passos lentos, está andando. Nós não paramos”.
Do alto, a barragem Doutor continua observando o movimento.




















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