A década que adoeceu Barra Longa
- Gisele Santoli e Joyce Campolina
- há 2 dias
- 17 min de leitura
Moradores afirmam que os impactos causados pelo rompimento da Barragem de Fundão continuam afetando a qualidade de vida no município

Mais de dez anos após o rompimento da Barragem de Fundão, de responsabilidade das empresas Vale e BHP (Samarco), a lama já não cobre visualmente as ruas de Barra Longa como em 2015. No entanto, as consequências do desastre ainda são percebidas, seja no declínio da saúde da população ou nas rachaduras e trincas que seguem comprometendo a estrutura de suas casas.
SAÚDE
O contraste deixado pelo desastre-crime
Entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019, a Assessoria Técnica Independente (ATI) da Associação Estadual de Defesa Ambiental e Social (Aedas) realizou em Barra Longa um levantamento com 220 atingidos residentes na cidade, a partir da aplicação de questionários. A pesquisa apontou um crescimento expressivo no número de doenças relatadas pelos moradores após o rompimento da barragem. Antes do desastre, 34,5% dos entrevistados afirmaram possuir algum problema de saúde. Depois da tragédia, esse índice saltou para 72,7%.
O estudo, último feito no município, indica um crescimento alarmante em casos de doenças dermatológicas, que saíram de 1,4% para 18,2%. Dentre as queixas de transtornos mentais e psicológicos, os números saltaram de 11,4% para 24,5%. Já as doenças respiratórias evoluíram de 4,1% para 26,4%. Segundo Gilda Maria Cardoso Machado, de 61 anos, nascida no bairro Volta da Capela em Barra Longa, o cenário de “canteiro de obras” que se instaurou logo após o rompimento é um dos causadores dessa defasagem na saúde e está longe de terminar. “É uma poeira que ninguém aguenta mais. Tá todo mundo ficando doente”, lamenta.

No mesmo levantamento, intitulado “Construção local sobre as ações em Saúde e Ambiente no município de Barra Longa”, publicado em julho de 2021, outro ponto que foi abordado pela Assessoria Técnica foi o aumento no uso contínuo de medicamentos, que saiu de 29,1% para 54,5%. No próprio relatório, a AEDAS destaca a prioridade de “estratégias e ações com o objetivo de dar assistência a esses atingidos, com necessidades de tratamento e cuidados específicos em saúde mental”. Entretanto, dez anos e meio após o rompimento, nenhuma medida efetiva de acolhimento e acompanhamento contínuo da população foi implementada.
Segundo Tácia Vital, 36, técnica de farmácia da Farmácia de Minas, programa do SUS que garante acesso gratuito à população para medicamentos de alto custo, o aumento na procura por medicamentos psiquiátricos se tornou perceptível em sua rotina de trabalho. “Saída de remédio aumentou demais, fica todo mundo muito ansioso. Muita gente passou a beber mais, os casos de alcoolismo aqui em Barra Longa são muito altos”, declara.
O problema atravessou não somente a esfera farmacêutica da cidade. No Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), o aumento das demandas também foi registrado. Dados enviados pela instituição mostram que o número de atendimentos realizados passou de 1.320 em 2015 para 6.222 em 2018. Segundo Sandra de Oliveira, 49, coordenadora do CRAS, grande parte das demandas atuais está ligada a problemas emocionais e conflitos relacionados ao processo de reparação. “É indenização, são os programas que não atingem todas as comunidades, as reformas, os aluguéis sociais. Problema psicológico, de saúde então, nem se fala. É difícil não ficar doente”, dispara.
Gesteira e Volta da Capela adoecidas

Gesteira e Volta da Capela, ambas áreas formadas por comunidades quilombolas, representam os dois únicos locais a apresentar uma totalidade de registros de doenças após o rompimento. Durante pesquisa publicada no mesmo dossiê da AEDAS, realizada pela equipe da UFOP em 2021, foi identificada a retirada parcial dos rejeitos das “áreas nobres do centro da cidade, onde habitam principalmente as pessoas brancas e de mais alta renda, e são levados para os topos de morro e outras áreas que residem majoritariamente populações negras”.
“Pegaram o rejeito de Barra Longa e colocaram aqui no campo, e estão construindo o campo por cima. Além do parque de exposições lá do prefeito, né? Tudo aqui na comunidade”, conta Aleteia Flávia, 45, liderança do quilombo ribeirinho da Volta da Capela. O espaço do campo de futebol Papão do Beira-rio e a área do Parque de Exposições, que funcionou como sede da prefeitura até o fim do ano passado, foram utilizados como depósito final da lama retirada do centro da cidade. Posteriormente, as estruturas foram construídas sobre o local. O campo, que ainda passa por obras, faz divisa com os quintais de diversas casas da região.

Para Maria Aparecida Oliveira, conhecida como Cidinha, de 62 anos e que mora ao lado da construção do campo, viver com a liberdade que vivia antes se tornou uma missão praticamente impossível. “Você precisa ver a poeira que fica lá, não tem como respirar não. Quando eles despejaram o caminhão de brita, então, aquele pó de brita vinha tudo aqui pra casa. Tinha que fechar a janela e ficar dentro de casa. Nós sofremos até hoje as consequências do rompimento da barragem”, lamenta a aposentada.
Ela conta ainda que, durante esses 10 anos, em meio à sujeira gerada pelas obras, quase perdeu a sua filha para o descaso da Vale e BHP (Samarco). “Minha menina deu pneumonia por conta dessa poeira, quase que eu perco ela. Tem o laudo todinho do médico falando que foi justamente a poeira”, relembra a moradora.
1 pediatra para 380 crianças

A falta de acesso à saúde pública se espalha por toda a cidade de Barra Longa. Moradores relatam o descaso no atendimento às crianças da região, de modo geral. A cidade, que possui Ponte Nova como polo hospitalar, conta com um pediatra disponível apenas uma vez por semana para atender às 380 crianças do município. Segundo a quilombola Gilda Machado, 61, as mães pedem para as crianças adoecerem “somente dentro do horário de trabalho do médico, porque se adoecer no dia que o pediatra não tá alí e se não tiver dinheiro para pagar, a criança morre”, ironiza. A agricultora ainda completa que a situação é difícil demais, porque “a doença não tem hora pra chegar”.

Gilda relata ainda as dificuldades enfrentadas para conseguir atendimento médico especializado, disponível apenas em Ponte Nova. Segundo ela, além da falta de profissionais em Barra Longa, a ausência de transporte público e de motoristas do SUS agrava ainda mais a situação das famílias. “Quando não tem pediatra, quase que a filha de Flávia morre, porque a gente foi lá e não tinha motorista do SUS pra levar ela pra lá [Ponte Nova]”, relata.
Um risco que preocupa

A Avaliação de Risco à Saúde Humana (ARSH), produzida pela Ambios Engenharia para a extinta Fundação Renova, identificou em Barra Longa a presença de metais como cádmio, níquel, cobre e zinco no solo superficial e na poeira domiciliar. O relatório aponta, ainda, que o cádmio é classificado como elemento cancerígeno pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC) e que as estimativas de exposição ultrapassaram os limites mínimos de risco em diferentes faixas etárias do município.
A falta de estudos recentes também preocupa pesquisadores que acompanham o caso desde 2015. A professora do Departamento de Direito da UFOP e fundadora do Grupo de Estudos e Pesquisas Socioambientais (GEPSA-UFOP), Tatiana Ribeiro, afirma que diversos impactos foram negligenciados e que a situação enfrentada pela cidade é mais grave do que vem sendo tratada. “Foram feitas diversas recomendações e, caso elas não fossem possíveis, havia inclusive indicação de evacuação do território”, explica.
Segundo a pesquisadora, parte dos estudos iniciados após o desastre foi interrompida ao longo dos anos e inclusive questionados pela Fundação Renova, o que dificulta compreender os efeitos de longo prazo da exposição aos contaminantes. “Existem danos à saúde que sequer são conhecidos ainda”, afirma.
Questionada sobre um próximo estudo no município voltado à qualidade de solo, ar e água em Barra Longa, a secretária de saúde do município, Priscila dos Santos, afirmou “não saber direito”, mas que fará o que está no plano de ação. “Tenho que olhar, mas, se tiver, vamos fazer sim”, alega a secretária. O plano citado por Priscila estabeleceu uma compensação ao poder público e promete a execução de ações no restabelecimento da saúde pública. A população, porém, permanece cética em relação às melhorias na região. “Não acredito que melhora nada. O que tinha que ser feito, já era pra ter sido. Barra Longa é isso agora”, desabafa a técnica em farmácia, Tácia Vital.
“Nada cresce”

Além dos impactos diretos na saúde, moradores relatam mudanças profundas nas condições de vida e trabalho após o rompimento. Gilda Machado, moradora do bairro Volta da Capela, que mexia com a terra desde os 7 anos, criada na beira do rio, perdeu o próprio sustento após o rompimento da barragem. Hoje, após receber notificação enviada pela Vale e BHP (Samarco) a respeito da interrupção do auxílio-aluguel, não sabe como vai se sustentar. “Plantava milho, feijão, tudo na beira-rio pra vender e não dá pra fazer aqui mais. Não cresce. Hoje, tudo que a gente tem é comprado. E agora, sem o auxílio, como que compra?”, ressalta a quilombola.

Para Cidinha, também moradora do bairro, a situação ainda é de desconfiança. “Essa terra, às vezes, planta ali igual ao pé de laranja. Fica muito bonito, mas daí a pouco elas caem todas. Isso dá esperança pra gente, né?”, se entristece. Ela, que mora ao lado de uma pilha de rejeito coberta pela antiga Fundação Renova, segue convivendo diariamente com a poeira, o medo e a sensação de abandono que ainda marcam Barra Longa.
“Querem calar a gente a qualquer preço. Ninguém quer que a gente fale”, Aleteia Flávia
MORADIA
A saúde dos lares
A dispersão da poeira e a forma como as empresas mineradoras lidaram com as reparações a serem feitas em cada local, não afetaram apenas a saúde física dos moradores de Barra Longa, mas também a saúde de seus lares. As reformas nas casas que foram diretamente atingidas pelos rejeitos não tiveram resultado positivo a longo prazo, e casas que não foram diretamente atingidas no dia do rompimento da barragem, posteriormente sofreram abalos como trincas e rachaduras, ou telhas deslocadas e fora do lugar.
As obras do campo de Futebol Papão do Beira-rio e do Parque de Exposições da cidade, ainda em andamento, são descritas pelos moradores da região como “um arrastão de prejuízos”. Cidinha, que já havia reformado sua casa usando o dinheiro que recebeu em um antigo acordo com a Renova, relata que está novamente com trincas em casa devido aos maquinários pesados utilizados nas construções. “Usei os 37 mil para fazer a reforma na casa e, mesmo assim, vocês vão ver meu muro rachado, meu terreno rachado, tudo por causa do campo. Eles têm um rolete pesado que, quando usam, treme minha casa toda”, desabafa.
De 2015 até 2026, o Campo de Futebol Papão do Beira-Rio passa por constantes reformas.
Na última reforma foi retirado rejeito do centro da cidade para assentar o campo.
Edson Norberto, vizinho de Cidinha, afirma viver os mesmos problemas com a sua casa, que faz divisa direta com o campo. Segundo ele, durante um período da obra, precisou se realocar, pois os rejeitos estavam sendo despejados no quintal de sua casa. “Eu tive que ir para a casa do meu pai, porque lá a lama passou no fundo, mas não atingiu a casa. Eles mesmo [empresas responsáveis] não me ofereceram nada”, desabafa o morador.
O prefeito do município, Elson Magnata, foi contatado para esclarecimentos referentes ao despejo do rejeito em áreas historicamente marginalizadas. No entanto, não obtivemos retorno.

Estudos alarmantes
De acordo com o Relatório Final da Perícia Técnica das edificações de Barra Longa, concluído pela AEDAS em 2018, os impactos do grande fluxo de caminhões na região são agravados pela ausência de planejamento na construção do município. Tal fato foi desconsiderado pelas mineradoras responsáveis quando autorizaram o tráfego pesado na região.

O peso que uma inundação de rejeitos causa no solo é 3x maior do que o de uma inundação de águas da chuva. Fotos: acervo Aedas.
#ParaTodosVerem: À esquerda, ilustração didática em corte transversal mostrando o relevo de um vale. No centro, há um rio azul com setas vermelhas apontando para baixo indicando peso de 1 tonelada por metro cúbico. À direita, uma encosta amarela indica a "área urbana" e, no subsolo, uma faixa marrom destaca a "camada compressível". O céu ao fundo é azul claro.

À direita, Ilustração similar à anterior, mas agora o leito do rio está preenchido por uma espessa camada de lama escura. Diversas setas vermelhas apontam para baixo com a indicação de peso maior, de 3,18 toneladas por metro cúbico. Linhas pontilhadas vermelhas no subsolo mostram a deformação gerada sobre a "camada compressível".
Nesse mesmo estudo de 2018 foi constatado que 77% dos 183 imóveis contabilizados tiveram movimentação de maquinários pesados nas proximidades e que 86,03% apresentavam algum dano na época. Entre estes danos, estavam: problemas na rede hidráulica ou de esgoto; pintura e/ou piso danificados pela poeira; obras de responsabilidade das empresas contratadas inacabadas e/ou mal executadas; obras de responsabilidade de empresas contratadas com problemas arquitetônicos e/ou em desconformidade com a vontade do morador; bens perdidos pela invasão da lama e não devidamente ressarcidos.
Dos mesmos imóveis considerados, nos que foram realizados reparos na época, 39% foram de responsabilidade das empresas terceirizadas e 61% foram de iniciativa própria do morador.

Em conclusão, o relatório afirma que “torna-se claro que o alcance físico da lama por si só é incapaz de determinar aqueles que foram atingidos, ou não, no que diz respeito aos imóveis. Os múltiplos fatores ligados ao rompimento tiveram um grande efeito sobre boa parte dos imóveis no município, especialmente nas regiões onde houve circulação de veículos de grande porte”. Aleteia Flávia, liderança do Quilombo Ribeirinho de Volta da Capela afirma, “Barra Longa nasceu em volta da capela e no início só tinham duas ruas, construídas pela própria população.”.
“A autoconstrução, como técnica passada de geração em geração, é ainda muito utilizada nos dias atuais, [...] surgida como uma maneira de superar as demandas por moradia diante das circunstâncias econômicas, sociais e políticas enfrentadas pela população”, afirma o relatório. Entretanto, destaca a importância da autonomia dos moradores na tomada de decisões a respeito de seus imóveis, para que o serviço seja feito da maneira correta e de um plano urbanístico que possa guiar o desenvolvimento do espaço.
O documento não resultou em mudanças efetivas na cidade e, ainda hoje, em 2026, os problemas permanecem os mesmos. Mércia Trindade, secretária de habitação do Município de Barra Longa e atingida, confirma que o município ainda enfrenta problemas sérios de moradia e o que mais causa problemas são os caminhões, já que a cidade é antiga e não tinha condições de receber tantos veículos pesados.
O bem comunitário
Barra Longa foi o único município que teve seu centro urbano afetado pelos rejeitos em 2015, isto é, igrejas, prédios tombados e até a praça da cidade foram atingidos e, por muito tempo, tiveram o acesso proibido. Durante esses quase 11 anos, os bens comunitários passaram por muitas reformas devido às consequências do rompimento da Barragem em cada época.
Até hoje, quando se visita Barra Longa, é impossível não passar por algum prédio em reforma. A Praça Manoel Lino Mol é o principal exemplo. O local à beira do rio, que já foi local de encontro, descanso e orgulho do município, hoje é lembrete diário do descaso com a história de Barra Longa que essas construções representam.
“Já reformou, reabriu em 2019 e tá assim, fechada de novo”, afirmou um dos moradores da cidade que, em horário de almoço, estava sentado pelas calçadas da cidade por falta de melhor estrutura ao ar livre para descanso e descontração.
Falta de moradias acessíveis
Uma das ações das mineradoras em Barra Longa foi a realocação de pessoas das casas que se encontravam inabitáveis, para que as pessoas fossem morar de aluguel em um lugar custeado pelas mineradoras. Essas moradias em questão eram pagas com um valor inflacionado, visto que precisavam realocar rapidamente as pessoas. Mércia conta que a decisão aumentou os valores de moradia na região e, caso o benefício acabe, as pessoas não conseguiriam mais morar em suas casas atuais.
De acordo com o Portal da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), cerca de 40 famílias atualmente residem nessas moradias temporárias e denunciam que foram notificadas sobre uma possível descontinuidade no auxílio.
Na última audiência pública realizada em Belo Horizonte pela Comissão de Direitos Humanos da ALMG sobre o fim do auxílio-moradia, foi discutida a transparência quanto aos critérios utilizados para as decisões e a garantia de uma participação ativa da comunidade nos processos. Isso, pois muitas das famílias não têm mais suas casas de origem, já que foram destruídas pelo rompimento, e “o aumento significativo dos preços de aluguel no município de Barra Longa é outro fator de preocupação” , completa a ALMG.
Em nota, a Aedas afirmou que “É inadmissível que a Samarco/Fundação Renova estipule prazos de apenas 30 dias para o fim do auxílio, agindo de forma unilateral e sem diálogo transparente com a comunidade. A justificativa das empresas de que não seria “razoável” manter o auxílio para quem não é dono do imóvel ignora o fato de que a perda do lar atingiu a todas e todos, independentemente do título de propriedade”.
A discussão e as audiências sobre o assunto ainda estão ocorrendo e, até o momento, não houve uma resolução.
O reassentamento de Gesteira
Gesteira é uma comunidade de Barra Longa localizada à beira do rio Gualaxo do Norte e que teve a parte baixa do seu território completamente atingida pelos rejeitos do desastre-crime. Com o rompimento da Barragem de Fundão, as famílias que perderam suas casas tiveram que se realocar involuntariamente, pois não podiam mais viver no local destruído pela lama.
Em 2023, após muita luta da comunidade, o acordo do reassentamento de Gesteira foi assinado e, desde então, as instituições responsáveis e as pessoas atingidas vêm trabalhando juntas para que o reassentamento ocorra. Mas, para além disso, lutam para que o reassentamento seja da “forma que Gesteira quer e Gesteira precisa”, afirma Tatiana Ribeiro, professora de Direito da UFOP.
Após o acordo de repactuação, quem se responsabiliza pelos futuros trâmites estabelecidos são: os Ministérios Públicos Federal e do Estado de Minas Gerais; Consórcio Público para Desenvolvimento do Alto Paraopeba (CODAP); Defensoria Pública da União; e o Grupo de Estudos e Pesquisas Socioambientais da UFOP (GEPSA-UFOP).
“O projeto de reassentamento é um projeto de retomada da comunidade.”
Tatiana, coordenadora do GEPSA-UFOP

Esse acordo tem o prazo de 5 anos para ser cumprido e os recursos serão repassados pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) como constatado no último acordo de repactuação que, nesse caso, inclui a comunidade de Gesteira. “O projeto de reassentamento é um projeto de retomada da comunidade.” Tatiana, coordenadora do GEPSA-UFOP
O sonho do reassentamento
O acordo de repactuação do município não cobre o dano individual dos atingidos e não conseguirá ajudar essas pessoas que, após 10 anos, continuam lidando com as consequências do crime socioambiental que elas não cometeram. Mércia Trindade, moradora e secretária de habitação do município, conta que as pessoas queriam um reassentamento, um local para morar que não apresentasse problemas devido a serviços inacabados e garantisse saúde à população. Porém, os valores do acordo de repactuação são para o bem comunitário e não restará recurso para individualizar o processo.
O caso de Yolanda Gouveia, 36, é diferente dos demais atingidos. Ela era moradora de Volta da Capela e teve sua casa interditada devido à instabilidade da estrutura. Porém, a campanha do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) “A Vale destrói, o povo constrói” juntou moradores locais e, em um terreno doado pelo tio de Yolanda na área rural de Barra Longa, construíram a casa que segue até hoje sem os defeitos relatados pelos outros moradores dos locais diretamente atingidos. A moradora conta que a vida no novo lugar é muito mais tranquila. “Sem o tanto de caminhão e poeira que tinha lá embaixo”, comemora ela.
Yolanda ainda ressalta que muito da tranquilidade que vive é reflexo da segurança que o local traz para a vida de seus filhos. Isso porque, na parte urbana onde morava, o trabalho das empresas terceirizadas é muito presente no dia a dia da população. Agora, eles são obrigados a dividir ambientes, que antes eram de lazer, com os trabalhadores que não fazem parte da comunidade de confiança que construíram ao longo dos anos. “Não sabemos o coração dos outros”, dispara.
Ela lamenta também pelo recente acordo de repactuação assinado, já que nele apenas o poder público terá como fazer mudanças efetivas na cidade. No seu caso, a Prefeitura de Barra Longa não teve participação na transformação de sua realidade, mas sim a força da comunidade. “Agora, se o povo não lutar, vai ser esquecido mesmo”, conclui.






































































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