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Crescer na ancestralidade

  • Lincol Moreira, Maria Clara Bispo e Mychelle Santos
  • há 2 dias
  • 8 min de leitura

A união entre o afeto familiar, as práticas escolares e a representatividade contribuem para o desenvolvimento do amor-próprio e para o pertencimento das crianças negras desde a infância.


Se enxergar dentro de conteúdos a que são expostas diariamente faz parte da construção do senso de identidade das crianças Foto: Maria Clara Bispo. #ParaTodosVerem: criança e adulto negros seguram um livro aberto com o título "Menina bonita do laço de fita", de Ana Maria Machado. 
Se enxergar dentro de conteúdos a que são expostas diariamente faz parte da construção do senso de identidade das crianças Foto: Maria Clara Bispo. #ParaTodosVerem: criança e adulto negros seguram um livro aberto com o título "Menina bonita do laço de fita", de Ana Maria Machado. 

Falar sobre cabelo, cor da pele, traços físicos e ancestralidade pode influenciar o jeito como crianças negras constroem sua identidade desde os primeiros anos de vida. Especialistas da área da educação e da psicologia apontam que a autoestima é formada nas relações sociais e depende das referências que essas crianças encontram na família, na escola e nos demais espaços de convivência.


Embora a responsabilidade por essa formação seja compartilhada por diferentes instituições sociais, a família costuma representar o primeiro espaço de construção dessas bases. Muitos dos filhos iniciam o contato com a ancestralidade em casa, onde aprendem a valorizar os traços e compreendem o significado da própria identidade.


Embora os impactos mais visíveis de baixa autoestima e inseguranças com o próprio corpo costumam aparecer na adolescência ou na vida adulta, o alicerce de quem somos começa a ser desenhado muito antes. De acordo com a psicóloga Laura Dutra (26), o desenvolvimento da identidade é um processo contínuo que tem início logo nos primeiros meses de vida. “Desde o momento que a criança entende que existe um mundo ao redor dele, ele já começa esse processo de identidade”, explica a psicóloga. 


Ela pontua ainda que, a partir do momento em que o bebê compreende que é um indivíduo separado da mãe, ele passa a entender o mundo, a se reconhecer no espelho e a moldar a forma como se vê. Nesse desenvolvimento inicial, todo indivíduo possui necessidades emocionais básicas e a primeira delas está intimamente ligada ao afeto. Trata-se do sentimento de ser amado, cuidado e acolhido com empatia. 


No entanto, para crianças negras, o racismo que está enraizado na cultura e no mundo prático ao seu redor, se apresenta justamente como um forte obstáculo ao atendimento dessas necessidades, uma vez que a discriminação caminha na direção oposta ao afeto e ao cuidado. Crianças e famílias internalizam o racismo praticado pela sociedade e, sem perceber, reproduzem essas rejeições dentro do próprio lar. "A gente não oferece o que nunca recebeu. Então, normalmente, crianças negras, que hoje são adultos, têm a tendência a buscar a terapia porque os pais não souberam dar esse afeto", explica Laura sobre os pais transmitirem essas violências aos seus filhos. 


O jovem que sofre preconceito e não conta com o apoio dos pais acaba por internalizar essa rejeição ao próprio corpo. "Se ela [criança] não tiver a valorização desses traços, ela cria a ideia de que aquilo não é bom, de que aquilo é um problema, de que ela é defeituosa e de que é motivo de vergonha. Então, ela pode querer esconder, querer alisar seus fios, querer parecer mais clara, entre outras coisas", conta a psicóloga. 


Como as experiências na infância são influenciadas por fatores sociais, econômicos, culturais e raciais, especialistas defendem que reconhecer essas diferenças é fundamental para compreender os desafios enfrentados por crianças negras na construção de uma identidade positiva.


A parceria necessária

Historicamente, características físicas da população negra receberam pouca valorização em diferentes espaços sociais, como a escola e também nos meios de comunicação. A obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena, estabelecida pelas Leis federais nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, ampliou a presença dessas discussões no ambiente escolar, mas pesquisadores afirmam que a construção da identidade racial positiva depende de ações que ultrapassam o plano de ensino das escolas. 


A coordenadora da educação inclusiva da Secretaria Municipal de Educação de Mariana, Thaislene Ferraz (29), explica que o fortalecimento da identidade racial precisa ser formado entre escola e família. Segundo ela, situações envolvendo preconceitos relacionados a características físicas ainda chegam à secretaria e são acompanhadas por uma equipe multidisciplinar. "Há um protocolo para a gente orientar os professores, os pais e responsáveis, que evidencia o papel de cada um nesse contexto, porque eu sozinha não faço nada. Por isso, nós precisamos entender o que cada agente pode fazer, a fim de contribuir para que a gente consiga atuar sobre essa temática e sobre essas ações", relata.  


Com a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira nas salas de aula, livros de literatura infantil com protagonistas pretos passam a fazer parte do cotidiano dos estudantes. Foto: Maria Clara Bispo. #ParaTodosVerem: quatro livros de literatura infantil com protagonistas negros, um calendário de protagonismos africano e afro-brasileira e uma bonequinha preta colocados sobre uma mesa.
Com a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira nas salas de aula, livros de literatura infantil com protagonistas pretos passam a fazer parte do cotidiano dos estudantes. Foto: Maria Clara Bispo. #ParaTodosVerem: quatro livros de literatura infantil com protagonistas negros, um calendário de protagonismos africano e afro-brasileira e uma bonequinha preta colocados sobre uma mesa.

A secretaria também tem proposto ações voltadas para a valorização da identidade racial. Entre elas estão a formação para gestores escolares, materiais sobre autodeclaração racial e protocolos para orientar o enfrentamento ao racismo no ambiente escolar. Segundo Thaislene, uma das preocupações surgiu ao perceber inconsistências na autodeclaração racial dos estudantes durante o preenchimento do censo escolar. “O número de declarações das crianças pardas estava muito baixo, sendo que a gente sabe que é a maioria”, disse Thaislene, ao comparar a declaração dos pais durante a matrícula com dados do IBGE coletados em 2022. 


A autoestima não é construída apenas pela percepção que as pessoas têm de si, mas também pelas mensagens que recebem de outras com quem convivem e pelas representações que encontram ao longo da infância. No caso das crianças negras, esse processo é atravessado por questões ligadas à representatividade, pertencimento e reconhecimento de sua identidade racial, sendo formada em constante luta contra o racismo estrutural, que é o preconceito racial enraizado na história, na cultura, na vivência das pessoas.


Para o diretor da Escola Municipal de Lavras Novas, o professor e pedagogo Luiz Paulo Souza Basílio, essa luta costuma se tornar mais evidente com o passar da infância. Segundo ele, na educação infantil os alunos possuem uma tendência de comportamento racista, caracterizado por piadas, puxões de cabelo e comentários ofensivos. Mas, nos anos finais do ensino fundamental, o comportamento costuma mudar.  “Elas já começam a perceber os efeitos do racismo na escola. E não só na escola, mas na sociedade como um todo. E eu acho que é um momento em que a autoestima delas começa a ser mais afetada”, afirma. 


Basílio afirma que a família ocupa um papel central nesse processo por ser a principal referência da criança. “A família precisa cumprir esse importante papel de expor a criança à cultura negra, a situações em que ela possa conviver com outras pessoas negras. Que ela possa ver outras produções e desenhos, e, assim, ver um mundo negro positivo”, explica o pedagogo.


A leitura de obras com personagens negros para além das salas de aula amplia as possibilidades de identificação das crianças e contribui para uma experiência de leitura mais diversa e inclusiva. Foto: Lincol Moreira. #ParaTodosVerem: mãos de uma menina negra desenhando em um papel, há lápis espalhados sobre a mesa, um estojo, o livro “Menina bonita do laço de fita” e um gibi da Turma da Mônica. 


Atitudes que acolhem 

Klevilaini é uma roteirista de Ouro Preto que aborda questões de representatividade no curta-metragem “Cabeluda”, lançado em 4 de julho de 2026, que ela também dirigiu. Discutir identidade racial na infância significa ampliar as possibilidades de reconhecimento das crianças em relação à própria história e aos próprios traços. A escolha de levar essa temática para o audiovisual partiu da percepção de que a falta de espelhos saudáveis gera um sentimento precoce de deslocamento, pois ela acredita que o cinema e a mídia tradicionalmente reforçaram padrões eurocêntricos. "Se uma criança se alimenta com elementos e referências que não condizem com a aparência dela, ela vai crescer querendo alcançar um ideal que é impossível de atingir", reflete.


O filme acompanha a personagem Faiola na preparação para a formatura do ensino médio e mostra como o cabelo crespo é o centro de dilemas e micro agressões cotidianas. Klevilaini explica que a história reflete vivências coletivas de mulheres negras que enfrentam barreiras estéticas e o racismo ao saírem de seus espaços seguros. Como educadora em escolas periféricas de Ouro Preto, ela percebe que a aceitação de seu cabelo ainda não é uma realidade consolidada no cotidiano escolar, o que a motivou a criar o filme como uma ferramenta pedagógica para ajudar jovens a afirmarem suas identidades.


Essa sensibilidade artística e social é fruto do ambiente familiar acolhedor em que a roteirista cresceu, pois o pai, a mãe e o irmão sempre a cercaram de afeto e referências negras positivas. Com base em sua própria história, ela defende que as famílias e educadores precisam semear esse imaginário de valorização desde a infância. "É muito importante trabalhar na mente das nossas crianças negras que elas podem ser quem quiserem, do jeito que quiserem e que não há nada de errado com a cor de suas peles ou com a textura de seus cabelos", afirma Klevilaini.


Renata Pereira, pedagoga, em pesquisa realizada no ano 2025, aponta que em ambientes com representações positivas de pessoas negras aumentam a autoestima e o sentimento de pertencimento dos alunos. Por outro lado, a falta de referências negras ou a associação dessas pessoas a papéis inferiores criam barreiras invisíveis, gerando problemas que prejudicam o desenvolvimento emocional e social desde os primeiros anos de vida.


Fortalecer a identidade racial não é apenas preparar crianças para lidar com situações de preconceito. O processo também envolve criar oportunidades para que elas cresçam reconhecendo os valores da ancestralidade em sua história, em sua cultura e em suas características físicas, desenvolvendo relações mais positivas consigo mesmas e com os outros.


Essa ideia também é reforçada por Luiz Basílio que tenta aplicar isso no cotidiano na escola em que é diretor, com feiras literárias e falando da identidade racial a partir de pautas em alta para conseguir a atenção das crianças. “Para mim, o mais importante é você, no ambiente que está, mostrar para as crianças, de forma geral, quem somos, o que produzimos de bom, o que fizemos, a nossa importância na construção do mundo. Porque tudo nasceu a partir de nós. Então, o principal é você mostrar o positivo, porque o negativo eles já sabem o tempo todo”, explica ele.


Além do ambiente escolar, pequenas práticas do cotidiano também podem contribuir para fortalecer a autoestima infantil. Conversar sobre traços físicos e ancestralidade, apresentar livros com protagonistas negros, incentivar o contato com manifestações culturais afro-brasileiras e valorizar diferentes formas de beleza são algumas das estratégias para ampliar as referências positivas das crianças.


A rede de acolhimento e valorização começa dentro de casa, como destaca Carla Rejane, professora de Libras e de formação pedagógica das licenciaturas do IFMG. Mãe de uma menina de onze anos e de um menino de seis, ela ensina aos filhos sobre o racismo e a sua identidade desde o nascimento. A professora cresceu ouvindo comentários negativos sobre sua própria aparência e, por isso, assumiu o compromisso de romper esse ciclo. "Sempre que eu ia cuidar do cabelo da minha filha, eu nunca disse que era difícil de pentear ou duro, para que ela não construísse uma relação dolorosa com o próprio corpo como a que eu tive", relata Carla.  


Os elogios diários aos cachos, à pele e aos traços da identidade negra viraram rotina e geram frutos na casa da família. O filho mais novo já se olha no espelho com orgulho do próprio cabelo e pede para a mãe fazer tranças. No entanto, blindar as crianças contra as pressões estéticas externas exige atenção constante de Carla, que lembra de quando a família morou no Espírito Santo e a filha, que estudava em uma escola com maioria de alunos brancos, perguntou por que o seu cabelo não balançava como o das colegas. Carla não silenciou a dúvida da menina e usou o momento para explicar a diversidade humana e mostrar as possibilidades do cabelo crespo.  


Além do diálogo, Carla investe em representatividade para os seus filhos. Eles brincam com bonecos pretos, brinquedos que a mãe não teve na infância, e leem livros com protagonistas negros em papéis de destaque e heroísmo. A lista de leituras inclui O Pequeno Príncipe Preto, Menina Bonita do Laço de Fita e Minha Mãe Tem Visão de Raio-X, que podem ser encontrados como filmes ilustrados. "A criança constrói sua identidade também no brincar e ao se ver representada de forma positiva na literatura", defende a educadora.  


Ela, que trabalhou como empregada doméstica antes do mestrado e da carreira docente, entende a importância de ser um espelho de possibilidades. “Fortaleçam a autoestima e empoderem seus filhos. A autoestima não serve apenas para que eles se achem bonitos, mas para que aprendam a fazer boas escolhas para si mesmos e não aceitem caminhos destrutivos apenas para serem aceitos pelo padrão do outro.


É uma semente que precisamos plantar todos os dias"


aconselha Carla a outras famílias pretas que enfrentam os mesmos desafios, lembrando que a construção da autoestima é um processo.


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O Lampião é o jornal-laboratório do curso de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), produzido durante a disciplina Laboratório Integrado I - Cobertura Noticiosa Hiperlocal.

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