Férias escolares mudam a rotina das famílias
- Jully Campelo, Maria Luiza Ribeiro e Vinicius Augusto
- há 1 dia
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O recesso escolar altera a rotina das famílias e evidencia os desafios da maternidade diante da necessidade de conciliar diferentes demandas.

As férias escolares de julho chegaram nas escolas e, para muitas crianças, é um momento de descanso, brincadeiras e passeios. Para mães e responsáveis, porém, esse mesmo período costuma significar uma reorganização completa da rotina. Entre trabalho, estudos, cuidados com os filhos e a busca por alternativas de lazer, o recesso pode aumentar a sobrecarga e evidencia a importância de uma rede de apoio.
Na cidade de Mariana, essa realidade se manifesta de diferentes maneiras. Enquanto algumas mães enfrentam dificuldades para conciliar todas as responsabilidades, outras conseguem atravessar esse período com maior tranquilidade graças ao apoio da família. É o caso de Karine Helena da Silva, de 29 anos, salgadeira e mãe de uma menina em idade escolar. Diferentemente de muitas famílias, ela conta com uma rede de apoio bem estruturada. O marido é responsável por preparar a filha pela manhã e levá-la para a escola durante o período letivo. Nas férias, quando a menina deixa de frequentar as aulas, ele a leva para a casa dos avós, onde permanece até que os pais terminem o expediente.
Segundo Karine, essa organização faz com que sua rotina de trabalho praticamente não sofra alterações. "Na minha rotina eu creio que não muda muita coisa. Muda muito mais a rotina da minha rede de apoio". Apesar disso, ela explica que alguns hábitos da família mudam durante as férias. Sem a alimentação oferecida pela escola, é preciso preparar as refeições em casa mais cedo, além de organizar passeios, idas ao parquinho e outras atividades para ocupar o tempo livre da filha. "As crianças ficam mais em casa, comem mais, querem passear, fazer um piquenique. Tem essas mudanças do dia a dia", conta Karine.
Embora essas despesas extras não comprometam significativamente o orçamento da família, Karine reconhece que o período exige maior planejamento. O aumento do consumo de alimentos e dos momentos de lazer faz parte da nova dinâmica das férias. Para ela, o principal diferencial é justamente poder contar com familiares próximos. Além do marido, os sogros desempenham papel fundamental nos cuidados com a criança. São eles que permanecem com a neta durante parte do dia enquanto os pais trabalham. Nas férias, a rotina muda para essa rede de apoio, que passa a receber a menina desde a manhã.
Karine acredita que sua experiência não representa a realidade da maioria das mães. "Eu acredito que muda muito a rotina das mães que trabalham o dia inteiro, principalmente quem trabalha em loja ou tem um horário mais apertado. No meu caso, como entro cedo e saio no início da tarde, consigo ficar com ela depois."
Além de alterar a rotina das famílias, o período de férias também influencia diretamente o comportamento das crianças. Segundo a professora de apoio Júlia Fonseca Cirino, que atua com turmas do 1º e 2º ano do Ensino Fundamental, o retorno às aulas costuma revelar um "choque de rotinas". Nos primeiros dias após o recesso, é comum observar resistência aos horários, dificuldade para retomar as atividades escolares, além de cansaço e irritabilidade, principalmente entre os alunos menores. "É como se tivessem que passar pelo período de adaptação novamente", explica. De acordo com a educadora, isso ocorre porque as crianças ainda estão desenvolvendo a capacidade de lidar com mudanças na rotina e de regular as próprias emoções.
A situação vivenciada por Karine encontra respaldo nas experiências da professora Júlia, que aponta que as férias escolares quase nunca coincidem com as férias trabalhistas dos pais, como principal dificuldade relatada pelas famílias. Essa incompatibilidade obriga muitos responsáveis a fazer um verdadeiro "malabarismo" para decidir com quem deixar os filhos durante o expediente. Enquanto algumas crianças ficam na casa de parentes ou conseguem viajar com os pais, outras dependem de cuidadores particulares ou de colônias de férias, o que gera custos extras para as famílias.
Na avaliação dela, essa sobrecarga costuma recair principalmente sobre as mães. A educadora explica que, culturalmente, ainda são elas as principais responsáveis pelo cuidado com os filhos e pelas tarefas domésticas. Durante as férias, quando as crianças permanecem em casa durante todo o dia, essas responsabilidades aumentam significativamente. "O relato frequente é o da culpa e da exaustão física e mental", afirma Júlia. Além disso, muitas mães sentem a pressão de garantir que os filhos estejam constantemente ocupados e entretidos, acumulando ainda mais responsabilidades em um período que deveria representar descanso para toda a família.
Essa realidade também é da estudante Júlia Aparecida, de 24 anos, que, além da maternidade, precisa conciliar seu tempo com a vida universitária. Para ela, as férias escolares representam um período de intensificação das responsabilidades, justamente por coincidirem com o encerramento do semestre letivo.
"Eu acho que as férias escolares impactam diretamente na rotina de responsabilidades e cuidados que nós mães temos com os nossos filhos.
Vai coincidir de ser com o final do período [na universidade] também. Então, ter a criança em casa, tendo que trabalhar, tendo que estudar e fazer as atividades, vai ser muito desafiador", desabafa a universitária.
A rotina de uma mãe de 41 anos, que preferiu não ser identificada, também revela os desafios enfrentados por quem precisa conciliar a jornada de trabalho com os cuidados da filha durante o recesso escolar. Mãe de uma menina em idade escolar, ela conta que o pai da criança mora em outra cidade e nunca participou dos cuidados da filha durante as férias. Desde que a menina tinha dois anos, precisou encontrar alternativas para conseguir manter sua rotina de trabalho. "Ou ela ficava com uma babá, ou eu a levava para o trabalho", relata.
Segundo a entrevistada, durante o período letivo, parte da responsabilidade pelos cuidados com a filha é compartilhada com a escola. Nas férias, no entanto, essa responsabilidade recai integralmente sobre ela. "Quando ela está na escola, querendo ou não, os cuidados são compartilhados entre mãe e escola. Mas, quando está em casa, é tudo com a gente. E muitas vezes, enquanto estamos trabalhando, essa demanda duplica", explica.
Ela afirma que essa sobrecarga exige planejamento constante e, muitas vezes, o apoio de terceiros para conseguir conciliar as responsabilidades profissionais com os cuidados da filha.
Além da necessidade de encontrar alguém para acompanhar a filha durante o expediente, ela destaca que o período exige mais planejamento dentro de casa. É preciso organizar atividades para ocupar o tempo da criança e adaptar toda a rotina familiar. "A gente tem que colocar atividades para ela fazer. A alimentação também tem que ser preparada. Tudo fica estendido para um período maior do dia quando elas estão de férias", conta.
Atualmente, ela conta com o apoio da mãe, que passou a morar com a família e ajuda a cuidar da neta. Antes disso, recorria a uma antiga funcionária da escola da filha que organizava uma espécie de colônia de férias com outras crianças durante o recesso. Apesar dessa alternativa ter funcionado para sua família, ela reconhece que essa não é a realidade da maioria das mães. "Nem todo emprego aceita que você leve a criança. O serviço de babá é muito caro e nem toda mãe tem condições de pagar. Acaba vivendo situações difíceis mesmo".
Na opinião da professora Júlia Fonseca, embora existam limites para o papel da escola durante o período de férias, já que esse também é o momento de descanso dos profissionais da educação, o poder público poderia contribuir para reduzir a sobrecarga das famílias. Ela defende que o município ofereça atividades recreativas, oficinas em praças, bibliotecas e espaços esportivos, especialmente para crianças cujos responsáveis trabalham durante o dia.
A educadora também acredita que as escolas podem orientar previamente as famílias sobre a importância de manter uma rotina mínima de sono, alimentação, leitura e momentos de brincadeira, além de divulgar as atividades disponíveis antes do início do recesso. Dessa forma, o apoio deixaria de estar concentrado apenas na escola e envolveria outras políticas públicas voltadas para a infância.
As experiências de Karine, Júlia Aparecida e da entrevistada com a identidade preservada mostram que não existe uma única forma de viver a maternidade durante as férias escolares. Para algumas famílias, uma rede de apoio consolidada permite que a rotina tenha poucas alterações. Para outras, a ausência desse suporte transforma o período em um desafio diário de organização, conciliação e cuidado.
No caso de Karine, o apoio do marido e dos sogros, aliado ao seu horário de trabalho, garante maior tranquilidade para manter a rotina profissional mesmo durante o recesso escolar. No caso de Júlia, evidencia-se a sobreposição de responsabilidades enfrentadas por mães que também estudam, as quais precisam dividir o tempo entre trabalho, estudo e maternidade. Já a experiência da mãe que optou pelo anonimato retrata como a ausência da participação do pai da filha faz com que toda a responsabilidade recaia sobre ela, tornando indispensável a ajuda de familiares para conciliar maternidade e vida profissional, além de fazer das férias escolares um período ainda mais desafiador, exigindo soluções improvisadas para garantir os cuidados com a filha.
Apesar das dificuldades, a mãe de 41 anos, procura preservar o significado das férias para a filha. Sempre que possível, aproveitar os finais de semana e feriados para fazer pequenos passeios em família, reduzir a quantidade de tarefas e incentivar momentos de lazer. "Não deixa de ser férias para a criança. A gente não pode esquecer de dar férias para ela também". A fala resume um dos principais desafios enfrentados por muitas mães, que é equilibrar as responsabilidades do trabalho e da casa sem deixar que as crianças percam o direito ao descanso, ao lazer e à convivência familiar.
Mais do que uma pausa no calendário escolar, as férias evidenciam questões estruturais relacionadas à divisão do trabalho doméstico e do cuidado com os filhos. A permanência das crianças em casa amplia a carga de tarefas, especialmente para mulheres que continuam trabalhando durante o período e nem sempre contam com o apoio do outro responsável ou de familiares.
Nesse contexto, fortalecer políticas públicas voltadas para a infância, ampliar a oferta de atividades gratuitas durante o recesso escolar e incentivar uma participação mais equilibrada entre mães, pais e demais responsáveis são caminhos importantes para reduzir essa sobrecarga. Afinal, garantir o descanso das crianças também passa por oferecer condições para que quem cuida delas consiga atravessar esse período com mais apoio, segurança e qualidade de vida.




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