top of page

Da redação à região dos inconfidentes: As melhores capas do Lampião em 15 anos

  • Johann Zanuzzi
  • há 11 horas
  • 8 min de leitura

47º edição


Estas capas não só apresentavam o jornal, mas eram a união das reportagens concentradas naquela edição.


Março de 2026, mês que marca os 15 anos do primeiro Lampião impresso publicado. Mais do que histórias, relatos, opiniões e denúncias, o Lampião traz nomes e acontecimentos da Região dos Inconfidentes.


Após saber da iminência da volta do impresso, fiquei animado pela perspectiva de diagramar um dos principais produtos do curso de Jornalismo da UFOP. Para entender o Lampião, além de opiniões de jornalistas e estudantes que passaram pelo nosso jornal-laboratório, fui buscar referências na base, desde a sua primeira edição até a mais recente.


Desde 2019, o Lampião não apresenta uma versão impressa, apenas os trabalhos publicados no site e nas redes sociais. Isso representa uma perda de experiência, história, portfólio e do orgulho de ter o próprio nome exposto em um impresso. Por isso, deixo aqui minha manifestação pela produção de, no mínimo, um ciclo impresso por período.


Com o objetivo de resgatar a memória do jornal-laboratório, que marca a passagem do meio para o fim da formação em Jornalismo na UFOP, selecionamos algumas capas que marcaram esses 15 anos de trabalho e esforço dedicados ao Lampião. Cada capa foi pensada de um jeito, adaptando a época, temática do jornal e as necessidades da região, fazendo do Lampião um veículo plural, amplo e dinâmico. Assim a lista é uma análise de toda essa evolução do jornal.


Uma crítica importante de se fazer as edições anteriores é indagar a escolha editorial do uso de estilos mais artísticos e fotográficos das capas, se assemelhando a revistase reportagens. Claro, o Lampião de hoje possui uma rotatividade muito maior se comparado com os de antigamente, que tinham reportagens e ciclos maiores do que os atuais.


Revisitar essas capas é, portanto, reafirmar o Lampião como símbolo de passagem, aprendizado e responsabilidade social no curso de Jornalismo da UFOP. Ele é um importante marco temporal que acompanhou e registrou todas as mudanças políticas, estruturais e populares ao longo de 15 anos de existência. Através de diversos olhares, tipos textuais e fotografias, o jornal Lampião é feito por pessoas, para dar voz às pessoas.



Edição Nº 27, Abril 2017:



Uma das capas mais interessantes ao se observar, esteticamente falando. A casa se assemelha a uma pequena dobradura de papel, porém entreposta com uma igreja clássica de Ouro Preto. Ela também se encontra sobre um muro e ao fundo desfoca a cidade histórica.


A edição conversa com o leitor sobre a relação das cidades, Mariana e Ouro Preto, com a moradia popular e a falta de oportunidade para a população em ocupar espaços, construir suas casas e desenvolver as famílias nos centros. No próprio editorial, é discutida a relação entre patrimônio, política e direitos, além de tratar sobre os espaços de sepultamento e o direito rural.


Edição Nº 13, Fevereiro 2014: 



Apesar da estética minimalista em 2014, a capa representa muito mais do que a própria água, mas trabalha e coloca o jornal nas profundezas do Ribeirão do Carmo. 


Além de usar a frase do mineiro Guimarães Rosa, significando mudança, o ribeirão ganha destaque não só por seu apagamento, mas pelo descaso no seu tratamento e a falta de cuidado com o descarte de lixo e esgoto.


A tipografia manuscrita se refere à leveza que as águas do ribeirão levam pela cidade, mas também pode ser entendido como o rio conversando com a população, humanizando sua existência e lembrando que ele estava lá antes de todos.


Edição Nº 14, Maio 2014: 



Nesta edição, o Sistema de Saúde(SUS) e outros sistemas públicos ganham destaque, tanto por seus 24 anos, contando a partir de sua regulamentação, em 1990, ou, 26 anos, a partir da Constituição Federal de 1988.


A cruz vermelha, formada por ícones de diversas áreas, ganha forma no negativo da imagem e divide os temas tratados na edição, que vão desde a falta de investimentos na saúde pública às moradias populares, dos moradores de calçada que habitam o CAPS e à falta de vagas em creches para crianças da cidade.


Edição Nº 09, Abril 2013:



Esta capa traz a população para o centro do jornal, a partir das faces daqueles que construíram e constroem a cidade de Mariana. A estética de carta antiga, com uma tipografia manuscrita, traz para a imagem algo mais humano.


A tipografia de máquina de escrever, muito associada, no Brasil, às estéticas referentes à ditadura militar, dá vida à memória e às histórias pouco contadas que foram escritas neste jornal. Famílias vivendo de auxílios, creches e mulheres no cárcere, são alguns dos temas que a edição aborda.


Edição Nº 06, Abril 2012: 



Carlos Drummond de Andrade, no poema “A Máquina do Mundo”, se descreve como um personagem que se recusa a entrar em tal máquina, não se deixando levar pela visão abrangente do universo. Quer mesmo é que não se apague a chama da poesia. Tem medo da modernidade. Enxerga uma nova cidade em sua jornada, “dá volta ao mundo e torna a se engolfar na estranha ordem geométrica de tudo”. Nesta edição, o Lampião, que também acredita na leveza da poesia, abusa da liberdade em sua capa e desenha Mariana como o eu-lírico da máquina do mundo. A senhora anda por um caminho “pedregoso”, que precisa seguir, mas que re-luta em aceitar. Assim, se torna, aos poucos, a moça.


Os desafios propostos pela máquina a amedrontam. Combinando problemas antigos, com novos que não apareciam antigamente ou que haviam sumido durante um certo período de tempo.


Com estética de poema e das palavras que se misturam, podemos ter o pensamento das ideias irem e voltarem através da esteira, mas também do gasto de palavras e comentários humanos sobre os problemas da cidade.


Edição Nº 03, Outubro 2011:



Na edição mais antiga desta lista, o Lampião traz em uma charge contundente que expõe a instabilidade política e estrutural que Mariana estava experienciando. 


Três elementos problemáticos para a região são apresentados: os focos de incêndio no Pico da Cartuxa e em outros morros que a cidade possui, falta de tratamento de água e instabilidade política


Os três carros exibidos em destaque se movimentando em direção ao leitor apresentam cores, que respectivamente tratam os partidos dos políticos que elegeram prefeitos na cidade. O primeiro nas cores azul e amarelo, Roque José (PSDB), eleito em 2008, condenado pelo TSE por compra de votos. Logo em seguida vem com as cores verde, amarelo, vermelho, Raimundo Elias (MDB, antigo PMDB), assumiu interinamente sendo o respectivo presidente da câmara de vereadores e o terceiro, em azul branco e vermelho, Geraldo Sales (PDT) assumiu também por ter sido eleito presidente da câmara.


É ressaltado também, a presença de um caminhão de mudanças nas cores vermelho, branco e preto, relacionadas ao pacote de dois prefeitos do PTB, Terezinha Severino e Roberto Rodrigues que assumiram interinamente a prefeitura através de decisões judiciais do tribunal eleitoral e que duraram até a próxima eleição em 


Além de problemas no trânsito e na infraestrutura da cidade, o tratamento de água acompanhou o período de chuvas e cheias, ruas com problemas de estrutura, queimadas e a falta de profissionais, a cidade de Mariana realmente poderia se resumir como “rodovia de problemas”. 


Edição Nº 21, Janeiro 2016:

A edição foi fechada um mês após um dos maiores crimes ambientais da história deste país, de responsabilidade das mineradoras Samarco, Vale e BHP.


Com o argumento de que o tempo, para as pessoas atingidas, parou no final de 2015, a palavra tempo é usada 20 vezes em 11 páginas de jornal. A espera ou esperança 19 vezes. É importante retomar ao passado, e observar como a postura das empresas responsáveis foi se alterando ao longo do tempo. Nesta 4ª edição é apresentado a falta de assessoria e comunicação com os veículos locais por parte da Samarco (BHP, Vale), fato que na edição impressa de 2025, as interações foram inteiramente protocolares e se esquivam da responsabilidade dos casos.


Após 10 anos, revisitar o desastre-crime na 47ª edição do Lampião traz algumas das mesmas respostas da cobertura realizada uma década antes, e muito mais dúvidas… O relógio soterrado no rejeito, quase marcando o horário exato do crime, expõe a crise e o problema que as empresas ainda não conseguiram resolver.


Além disso, a empresa responsável por este desastre-crime e o que estava por vir em 2019, em Brumadinho, financia cada vez mais projetos políticos e agora culturais e ecológicos com objetivo de limpar a imagem popular. 


Edição Nº 10, Julho 2013:

A cidade com nome feminino foi uma homenagem do rei Dom João IV à sua então esposa, rainha Maria Ana da Áustria. Apesar da cidade receber este nome, a época era bem desfavorável às mulheres, que não podiam estudar, sofriam assédios, pressões e outras violências, sobretudo numa cidade de maioria negra, como Mariana.


Com o objetivo de personificar e trazer os problemas femininos ao centro do jornal, ele apresenta um rosto desenhado com palavras que tentam descrever as mulheres marianenses. Com palavras como “diva” sendo usada como base, algo que poderia ser substituído e alterado por outras como “mãe”, “amiga”, “vencedora”. Outras palavras aparecem em tipografias diferentes, diferenciando o cabelo e podendo cada mulher se encaixar nas palavras que encontrar, formando um caça palavras de sentimentos. A capa do jornal não apenas exprime um cenário de luta por mais respeito, mas também por direitos reprodutivos, entre eles, a escolha de abortar ou não.


A edição também traz a luta pelo veto da então presidente Dilma em relação ao PL da Bolsa-Estupro, projeto de lei que indenizava, por durante três meses, mulheres que engravidaram mediante a situação de estupro e não abortaram seus filhos. 


Edição Nº 19, Junho 2015: 

“A Liberdade Guiando o Povo”, pintura de 1830, de Eugène Delacroix adaptada com a bandeira de Minas Gerais, também símbolo de defesa da liberdade, trabalha uma semiótica ótima com o cenário e com o respectivo tema referido a esta edição. Com intuito de falar sobre liberdade de gênero, liberdade reprodutiva, liberdade de expressão, segurança pública e acessibilidade, esta edição do Lampião trabalha muito bem o princípio da arte escolhida.


A capa entra também pelo tempo escolhido, uma recém-eleição da então presidente Dilma Rousseff, mineira, questionada por diversos polos populacionais. Dilma era tratada como alguém despreparada e com falta de estética de presidente, recebia ataques da mídia toda semana. Colocar uma mulher como capa e ser escolhida como símbolo da revolução de liberdade não somente representa a força feminina, mas também simboliza a luta contra o momento político machista que se persiste até os tempos atuais. A ideia de liberdade não pode ser retirada do contexto político do país e, consequentemente, da Região dos Inconfidentes.


Edição Nº 18, Abril 2015: 

Entre todas as outras 33 edições, esta é a capa que mais chama atenção pela escolha de artifícios técnicos e pelo contexto temporal: início de ano, obras paradas e uma troca de poder no executivo, levando Mariana a apresentar diversas instabilidades políticas. O momento no país era de tremenda incerteza, brigas pelo impeachment da então presidente Dilma, uma economia em seu início de recessão e casos de corrupção eram pautas todos os dias nos principais jornais. Na cidade mineira a especulação imobiliária se diferenciava das demais cidades da Região dos Inconfidentes pela enorme população flutuante advinda da mineração.


Acredito que, ao trazer o jogo Banco Imobiliário adaptado através de nomes de ruas e construções históricas da cidade, criou-se um impacto visual gritante: Mariana está à venda, e suas principais instalações públicas necessitando de mudança.


O tabuleiro desgastado representa Mariana, poucos serviços públicos, ruas com falta de manutenção, com casarões sem restauração ou cuidado. Os dados da mesa apresentam o número sete, o que pode se entender pela instabilidade do executivo, o número representa a impressionante marca de sete prefeitos que ocuparam a cadeira de chefe do executivo local entre 2008 e 2013.


De toda forma, a cidade à venda e em pura necessidade de reforma, em plena recessão econômica e com obras paradas, levou muito bem a aparência do jogo Banco Imobiliário, podendo também ser adaptado a um jogo da vida da população marianense.




Comentários


bottom of page