Onde estão os homens?
- Rafaella Aparecida
- há 1 hora
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47º edição

Escrevo este texto num momento bastante contraditório. Por um lado, vivemos um dos momentos mais festivos da cultura brasileira: o Carnaval. Por outro, o Brasil acaba de bater o grave recorde (se é que deveria ser considerado um) de alta nos casos de feminicídio. Enquanto a folia toma conta das ruas com suas fantasias, brilhos, música alta e multidões por toda parte - tanto nas esquinas quanto nas mídias -, dados da Agência Brasil nos alertam que, a cada dia que se passa no país, quatro mulheres são mortas.
São quatro por dia. Ou seja, 28 por semana. E, por mês, aproximadamente, 112 mulheres assassinadas.
Mesmo antes de atingir o alto índice de feminicídios em 2026, o Carnaval já costumava ser uma época bastante ambígua, especialmente para nós mulheres. Vivemos entre o desejo de foliar e o medo recorrente da importunação sexual que, em alguns casos, podem chegar a nos transformar em vítimas de um estupro.
Esses pensamentos vêm de um sentimento que, discutido com amigas, colegas e acompanhando notícias, vi tratar-se de uma preocupação coletiva. Pensando nisso, sugeri falarmos sobre o tema no Lampião. Na nossa última reunião de pauta do semestre letivo - ou da edição 47 do Jornal - percebemos que essa ideia tinha pilares importantes para o nosso editorial.
Além de estar amparada como assunto de interesse público, a pauta se relacionava com o contexto atual. Mas, o mais importante: surpreendentemente o tema não havia sido tratado em edições anteriores. Como editora de conteúdo da seção temática Ecos, passei a pauta para a minha dupla de repórteres da época, Sofia Mosqueira e Arthur Corrêa, que realizaram um importante trabalho de apuração e checagem para produção dessa matéria (que pode ser lida na íntegra aqui).
Após dois dias da reunião de pauta, me deparei com este dado alarmante da Agência Brasil, o que reforçou meu estado de alerta e me fez recordar dos vários casos recentes de feminicídio. Eu me lembrei de Thainara, de Bruna, de Vanessa, de Natasha. Lembrei também daquelas que, infelizmente, não “tinham” nomes ou simplesmente não foram contabilizadas - e nem noticiadas.

Mesmo com sentimento de luto e medo, essa realidade violenta ainda parecia distante. Mas quando percebemos, está mais próxima do que imaginamos.
O mais recente caso de feminicídio registrado em Mariana, o assassinato de Larissa, uma jovem de 25 anos e de sua filha Maria Fernanda, uma bebê de apenas dois anos, sensibilizou toda a comunidade local. Ficamos de luto e o debate sobre os direitos das mulheres foi acendido e ações em nível regional e nacional foram evocadas.
De maneira inédita, os Três Poderes se uniram para lançar o Pacto Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio. Em diversas partes do país, as ruas foram ocupadas por manifestações contra a crescente violência de gênero, inclusive na Região dos Inconfidentes. E uma delas, em especial, chamou a minha atenção: A marcha dos homens contra a violência às mulheres.
A manifestação aconteceu no dia sete de fevereiro. No formato de caminhada pela cidade, a marcha reuniu pessoas da comunidade e coletivos para expressar o luto e a necessidade de novas ações de enfrentamento à violência às mulheres. Intitulada como a “Marcha dos Homens”, a presença das mulheres era visivelmente predominante.
Onde estavam os homens na luta contra a violência de gênero? Onde estavam os homens que deveriam participar da “Marcha dos Homens”?
Para entender melhor a realização da marcha do dia sete, conversei com a participante Luiza Gabriela, de 26 anos, delegada estadual de políticas públicas para as mulheres, que reforçou a importância da conscientização dos homens no combate à violência de gênero. No entanto, os diversos desafios dessa luta deixam evidente que temos um caminho longo a trilhar.
“Por ser uma marcha que, teoricamente, era dos homens, eu achei que teria mais homens. Foi majoritariamente, sim, mulheres. Essa conscientização é importante porque, às vezes, as mulheres estão falando para mulheres, mas não são as mulheres que violentam. O feminicídio, na maioria das vezes, são [mortes causadas pelos] homens”, revela Luiza.
As manifestações coletivas são importantes ferramentas de mobilização social, pois convocam pessoas da comunidade a se tornarem agentes de transformação. Nesse sentido, a marcha dos homens contra a violência se apresenta como uma importante ação neste cenário de crescente agressão e feminicídio. Mas, a ausência deles nos revela um problema importante a ser combatido: o machismo estrutural.
O machismo estrutural está presente na nossa formação como sujeitos desde a infância. Percebemos sua sombra em diversos aspectos da vida cotidiana, como: na forma de brincar; como nos comunicamos; nas referências que vemos na televisão; nas relações ao nosso redor e mais em inúmeras situações diárias e corriqueiras. São pontos que afetam e formam a nossa subjetividade de diferentes maneiras.
Por seu enraizamento na sociedade, os efeitos do machismo estrutural desencadeiam desigualdades de gênero presentes em inúmeros aspectos da vida das mulheres. No trabalho, os salários são menores e existe o assédio moral e sexual. No ambiente doméstico, a sobrecarga em tarefas diárias. Na cidade, é o medo de sair à noite, especialmente quando está sozinha. Nas relações interpessoais, somos marcadas por práticas abusivas e misóginas. Nas festas e no Carnaval, o desrespeito, importunação e a agressão sexual são evidentes.
Esses efeitos também impactam diretamente na longevidade das mulheres brasileiras que têm suas vidas interrompidas de forma exageradamente precoce e brutal. Com frequência, conhecemos ou ficamos sabendo de mulheres que foram vítimas de situações de abuso, violência e machismo. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Cidades Sustentáveis, 75% das brasileiras já sofreram importunação sexual nas principais capitais do país. No entanto, dificilmente vemos homens assumindo seus erros, o que faz prevalecer situações de hierarquização de gêneros. A resistência em assumir, reconhecer e identificar comportamentos machistas perpetua a existência dos efeitos de uma cultura que, historicamente, tem oprimido mulheres de diferentes maneiras.
O machismo estrutural arraigado na sociedade não é justificativa (ou desculpa) para cometer violências. Reconhecê-lo nas nossas ações é o passo inicial para agirmos na raiz do problema.
Segundo uma pesquisa do Datafolha, encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública realizado em 2025, cerca de 92% das violências sofridas por mulheres acontecem na presença de testemunhas. Este dado alarmante reflete a importância de reagir à violência cometida contra as mulheres, sejam elas desconhecidas, conhecidas ou próximas. Se conter em situações de agressão contra a mulher é, na verdade, se abster de um socorro e dar um aval para que esses casos voltem a acontecer.
Portanto, assumir uma postura de enfrentamento à violência contra as mulheres nos seus diversos formatos deve ser uma prática diária, especialmente dos homens. Tornar-se aliado à luta feminista começa desde pequenas mudanças às mais significativas. Começa em mesas de bares quando nos posicionamos contra piadas misóginas. Segue dentro de casa quando os homens participam efetivamente da realização das tarefas domésticas e reduzem a exploração feminina. Continua e prospera quando defendemos as mulheres em situações de agressão verbal ou física.
Precisamos conhecer e fazer com que os homens ouçam relatos e experiências de mulheres nos mais diversos ambientes. Um deles foi a “Marcha dos Homens” contra a violência à mulher. Mas eles não estavam lá.
Em caso de violência à mulher, faça sua denúncia pela Central de Atendimento à Mulher pelo número 180. O serviço funciona 24h por dia e a ligação é gratuita.




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