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Entre Vampiros e Mineradoras: quem suga a memória dos territórios?

  • Maria Eduarda Todesco
  • há 3 horas
  • 6 min de leitura

47º edição


O novo filme de Ryan Coogler provoca reflexões sobre memória, resistência e silenciamentos, que ultrapassam o Delta do Mississipi e nos fazem pensar na Região dos Inconfidentes, em Minas Gerais.


Homem negro e forte segurando uma pistola, ao fundo uma montagem de um céu muito vermelho e um sol atrás do homem.
Imagem de divulgação | Foto: ingresso.com

Assisti a “Pecadores”, de Ryan Coogler, o mesmo diretor de Pantera Negra, pela primeira vez há alguns meses, embora o filme tenha sido lançado em abril de 2025 em todos os cinemas brasileiros. Confesso ter achado uma narrativa interessante, mas não cheguei ao final. Você pode estar se perguntando o porquê não concluí a exibição, e digo que não foi pelos motivos convencionais, como o fato de ser um filme ruim ou entediante. Não concluí, pois, logo nos primeiros momentos, senti que não deveria ser algo assistido de maneira casual, sem dedicação para, de fato, entender as minúcias trabalhadas pelo diretor, e naquele momento não estava preparada para esse nível de entrega. Foi a pretensão de compreender a história e suas representações que me levou a assistir o longa novamente, ou pelo que seria a minha primeira vez de verdade.

 

A trama se passa em Clarksdale, cidade norte-americana conhecida como “berço do blues”, no coração do Delta do Mississippi, no ano de 1932. A narrativa é voltada às experiências de Sammie (Miles Caton), aspirante a músico de blues e filho do pastor Jedidiah, que contestava a escolha do filho pela arte musical e o avisava que o Diabo estava próximo. Além de Sammie – ou Pastorzinho, como era chamado –, temos outras figuras centrais: seus primos gângsters, Stack e Smoke, ambos interpretados por Michael B. Jordan, que foi brilhante ao representar a distinção de personalidade dos gêmeos. 


Os primos retornam de Chicago com o plano de abrir uma junta de juke, espaço voltado a identificação, troca, representatividade e manifestação livre de cultura do povo negro, em uma realidade social segregacionista. A iniciativa, contudo, insere os personagens em um contexto histórico atravessado por tensões raciais e forças hostis que cercam aquela comunidade, adicionando à narrativa um clima constante de ameaça e instabilidade.


Segundo o jornalista e crítico de cinema, Chico Fireman, o longa-metragem é um misto de drama de época, um filme de vampiros com terror gore e uma fantasia sobre raça, música e fé. O gore é um subgênero do horror que enfatiza cenas explícitas de violência, mutilação e sangue como recurso central para provocar choque, desconforto e impacto visual no espectador. Contudo, ainda que a junção de gêneros tão distintos entre si faça o filme parecer excêntrico ou até desconexo à primeira vista, evidencia-se a função narrativa da coexistência desses elementos para discutir questões que passam, necessariamente, pelo retrato da vivência do povo negro na sociedade estadunidense da época. Temos, por exemplo, a alegoria vampírica como sustentação da ideia de que a população branca suga - em representação do ato de se apropriar - a cultura negra.

 

A fotografia do filme é assinada por Autumn Durald Arkapaw, diretora norte-americana. Foi usada para as gravações a tecnologia IMAX, que, segundo o observatório Ariadnes, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP),  utiliza uma película 70mm e permite a captação de imagens em alta definição, ricas em detalhes, proporcionando maior imersão do público em grandes telas. Acredito piamente que o filme já estava destinado, desde a escolha fotográfica, a ser um grande sucesso de exibição em salas de cinema ao redor do mundo. 


De acordo com a revista Rolling Stone Brasil, o longa ocupa o 6° lugar no ranking de maior bilheteria de filmes de terror na história do cinema, arrecadando, conforme o site ingresso.com, $368,28 milhões mundialmente. Além do sucesso nas telonas, a produção conquistou o seu primeiro Grammy Awards 2026, ao vencer a categoria de Melhor Trilha Sonora para Mídia Visual, bem como a categoria de Melhor Compilação para Mídia Visual. E não para por aí, o filme ainda concorre a 16 indicações ao Oscar, batendo um recorde histórico na academia de cinema entre todos os filmes mais indicados ao prêmio até hoje. A premiação acontece no dia 15 de março deste ano. 


Uma estética cultural e artística que é base para a construção da narrativa, e que acredito ser fundamental para o sucesso do enredo de “Pecadores”, é o afro-surrealismo, que mostra a experiência negra em um descolamento do mundo branco. Ainda segundo o observatório Ariadnes, esse conceito, “diferente do surrealismo europeu, que se concentra no inconsciente e nos sonhos, (…) foca em olhar pro passado, pensar o futuro visando mudar o presente, abordando as complexidades da vida cotidiana negra”. Para além do gênero terror em sua aplicação fictícia, o longa representa um terror vivido na pele, onde o afetado ou atingido não é apenas um indivíduo, mas sim um coletivo que luta pela sobrevivência e resiste.


Agora você pode se perguntar: “em qual contexto o filme ‘Pecadores’ pode ser relacionado com a Região dos Inconfidentes?”. Embora em realidades distintas e com identidades próprias, assim como o Delta do Mississipi, a sociedade da região mineira também é descendente direta dos horrores e das marcas da escravização. 


As antigas “cidades do ouro”, transformadas em regiões de exploração de minério de ferro, perpetuam um sistema colonial ainda regido pela mineração. Atravessam uma realidade violentada pelo racismo ambiental, na qual o percurso do rejeito atropela o caminho dos mais vulneráveis, das comunidades quilombolas, indígenas, tradicionais, negras, de menor poder aquisitivo. Sim, os desastres minerários mineiros, ou melhor dizendo, os crimes socioambientais não afetam as populações da mesma forma. Assim como os vampiros do filme, as mineradoras se apropriam não só da vida, mas da memória que perpassa gerações das cidades-sede, dos seus distritos e subdistritos.


Mas o que significa racismo ambiental? Segundo o site da Secretaria de Comunicação Social do governo brasileiro, é um conceito que apresenta ações de danos e riscos ambientais causados a uma população mais vulnerável que não só tenham uma intenção racista, mas também que tenham impacto “racial”. A expressão foi formulada na década de 1980 por Benjamin Franklin Chavis Jr..

Um dos exemplos mais emblemáticos de racismo ambiental acontece bem aqui, em uma das localidades da Região dos Inconfidentes, Bento Rodrigues, um subdistrito de Mariana. De acordo com uma aproximação populacional realizada por um estudo da UERJ, no ano de 2015 e divulgado pela ONG brasileira Justiça Global, com base no Censo de 2010 do IBGE, que não descrevia o número de habitantes do subdistrito, mas somente do distrito de Santa Rita a que pertence, 84,3% da população local de Bento é composta por pessoas pretas e pardas. 


O estudo aponta ainda que os impactos do rompimento da barragem de rejeitos, de responsabilidade da empresa Samarco (Vale e BHP), em 5 de novembro de 2015, atingiram de forma mais intensa áreas com maior concentração de população negra, que já vivia em distritos, subdistritos e zonas mais expostas aos riscos da atividade mineradora. A destruição do território provocou deslocamento forçado para zonas de reassentamento e mobilizou uma ruptura do senso de comunidade, além de danos socioambientais, econômicos, sociais e culturais. 


Um exemplo de tradição cultural atingida pelo minério é a Festa de Nossa Senhora das Mercês, celebração católica muito presente em Bento Origem (como é chamado pelos moradores do subdistrito devastado pelo mar de lama da Samarco/Vale e BHP), que conta com uma procissão e uma missa, seguidas, atualmente, por um jantar e leilão realizados pela comunidade local. Apesar do quase apagamento desta celebração no seu local tradicional, a comunidade resiste e permanece se reunindo no espaço original.


A mobilização acontece tanto por uma questão identitária, visto que é o lugar em que muitos nasceram e viveram a maior parte de suas vidas, e também em prol da afirmação da posse do território por parte da comunidade. A mesma medida, pode ser vista como um protesto sobre a forma como o reassentamento foi construído, já que o “Novo Bento”, para parte de seus moradores, como um lugar de arquitetura urbana e sem espaços para encontros comunitários, não representa a história e propósito da comemoração.


#ParaTodosVerem: Procissão religiosa ao ar livre durante o dia. Quatro homens carregam um andor com a imagem de uma santa vestida de branco e coroada. Na parte de cima do andor há um grande arranjo de flores nas cores vermelha, salmão e branca, que envolvem a parte de baixo da imagem. Ao redor, a comunidade do subdistrito atingido caminha, em procissão, por uma estrada de terra, em meio à vegetação.
A procissão com a imagem de Nossa Senhora Senhora das Mercês (2025) percorre não somente a parte alta, mas também a região baixa de Bento Rodrigues, onde restaram somente ruínas das antigas construções, hoje cobertas pela vegetação. | Foto: André Carvalho

Em uma fala do antropólogo e fotógrafo Patrick Arley, para matéria de fevereiro de 2025 do Nonada Jornalismo, ele afirma que a vida comunitária desses povos é altamente ligada ao território e quando você causa algum dano a essa relação, causa um dano geral e interligado, “no sentido simbólico, coletivo, cultural e psicológico”.  


Retomando a conexão com “Pecadores”, ao empregar a representação vampírica no gore para significar as identidades sugadas, somos incitados a pensar nas realidades das comunidades à margem ou mais vulneráveis que seguem sendo violentadas, roubadas de suas histórias e identidades. E não somente do ponto de vista material, mas também do simbólico, do cultural e do espiritual. 


Os que dominam insistem na tentativa constante de capturar suas culturas, tomar ou devastar seus territórios, sem carregar suas dores, suas lutas e suas representatividades. Aqui não me refiro apenas ao capturar para uso próprio no sentido literal, para depois apresentar como se fosse sua criação, como no longa-metragem, mas especialmente a captura com o propósito de aniquilar, de apagar. 


As cenas finais de “Pecadores” se conectam fortemente à realidade não só de Bento, mas de toda a Região dos Inconfidentes, espaço acometido pela mineração, ao ilustrar como, apesar das incessantes tentativas violentas de apagamento, as memórias persistem com os que ficam e quando, com as cenas pós-créditos, transmite a ideia de que o filme acaba, mas a história continua e se repete. 



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