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180 anos de um Carnaval que resiste ao tempo

  • Mariana Amaral
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

47º edição


O tradicional Bloco Zé Pereira da Chácara encanta a folia marianense ao longo dos séculos.    


#ParaTodosVerem: A imagem mostra uma mulher e um boneco do bloco ao centro, um homem, com uma menina sentada nos ombros no centro histórico de Mariana. Ao fundo, pessoas e outro boneco.
O bloco mais antigo de Minas que encanta diferentes gerações no Carnaval da Primaz | Foto: Mariana Amaral

O sol da tarde rebate nas fachadas coloniais da Praça da Sé, mas o brilho que cega não vem do ouro dos altares, e sim do glitter que insiste em colar na história. Em Mariana, o Carnaval não é apenas uma festa, é uma suspensão temporária da gravidade histórica. Aqui, o bumbo da Charanga Oi’ Tô Tonto, não bate apenas no peito dos foliões, ele reverbera nas pedras sabão que sustentam a Primaz de Minas.


Diferente do que acontece nos Carnavais mais famosos entre o público que decide curtir a folia em Minas, a cidade de Mariana proporciona uma diversão que ainda se mantém na tradição carnavalesca da cidade. O que se vê nas ruas estreitas é uma crônica viva da tradição mineira. Entre o rigor das torres sineiras que vigiam a cidade desde o século XVIII, floresce a irreverência de blocos como o "Zé Pereira da Chácara", o mais antigo das Gerais, que este ano completou 180 anos de história e foi reconhecido legalmente como patrimônio de relevância cultural pelo Estado de Minas Gerais. 


Em meio a bonecos gigantes, marchinhas tradicionais e foliões encantados pela magia do Carnaval, o bloco Zé Pereira, anima o centro histórico da cidade. Os tradicionais bonecos que compõem o bloco saem da Toca, lugar onde são confeccionados ao longo do ano, para brilharem na maior festa do ano. Em meio ao calor do verão e das pessoas, o cortejo percorre as estreitas ruas que ligam o bairro da Chácara a Praça da Sé. 


Com olhares atentos, crianças e adultos são magnetizados pelo encanto da grandiosidade das figuras com cabeças gigantes, que saúdam com acenos cada uma das pessoas. Os responsáveis por tornar essa magia possível, são meninos bem jovens, com idades entre 13 e 16 anos, que carregam os bonecos nos ombros durante o cortejo. Dentre os personagens representados por cada peça, estão referências a figuras importantes na história do bloco como Neuza Malta e o Portuga Fundador, além de personagens ficcionais como uma figura diabólica, o vilão Coringa e a Wandinha. 


#ParaTodosVerem: A imagem mostra no centro um boneco girando, no canto esquerdo, outros personagens do bloco parados. Ao fundo, é possível ver um homem próximo a parede de uma casa no centro histórico de Mariana.
Durante o cortejo, os personagens interagem diversas vezes com o público por meio de brincadeiras, como os giros e acenos com a cabeça | Foto: Mariana Amaral

Os bonecos possuem mais de dois metros de altura e são produzidos pelos integrantes do bloco em um ambiente familiar, com tecidos, espuma e papelão. O desfile é embalado por marchinhas tradicionais como a clássica “Mamãe eu quero”, eternizada na voz da icônica cantora Carmen Miranda. As músicas são conduzidas por instrumentos de percussão que emitem a energia carnavalesca ao cortejo. Durante o trajeto, os foliões se divertem com os giros dos bonecos, o que faz os braços e saias dos personagens darem movimentos e cor às ladeiras históricas. Cada giro é um espetáculo à parte, a força centrífuga faz com que os tecidos pesados ganhem leveza, flutuando sobre a multidão e criando uma dança hipnótica que parece dar vida própria às figuras gigantes.


O impacto visual é acompanhado pelo som vibrante dos trompetes e dos tambores, que ditam o ritmo dessa coreografia urbana. Entre um giro e outro, os braços dos personagens roçam levemente nas fachadas centenárias, estabelecendo um contato físico entre a festa do agora e o cenário de outrora.


Para quem assiste, o movimento circular dos bonecos é o símbolo máximo da resistência cultural de Mariana, uma roda que nunca para de girar, conectando o passado de 180 anos do Zé Pereira ao entusiasmo de quem pisa nas ruas históricas durante a festa. 


Muitos foram os relatos que ouvi sobre a presença do bloco na vida da população marianense. Maria Aparecida, uma mulher de 60 anos, estava acompanhada da filha e do neto, enquanto o cortejo acontecia ela relatou que desde os cinco anos acompanha o Zé Pereira. O sentimento que une gerações é o que mantém o Zé Pereira de pé, 180 anos depois. Para Maria Aparecida, ver o neto apontando com o mesmo assombro e alegria para os bonecos gigantes que ela própria admirava na infância é a prova de que o tempo, em Mariana, não passa, ele se acumula.


O encanto no olhar de uma menininha fantasiada de Emília, sentada nos ombros de seu pai, o menino de cabelo colorido nas cores verde e vermelho de braços dados com sua mãe, o jovem casal abraçado, as amigas, a senhora segurando um copo de cerveja, representam algumas das inúmeras pessoas que acompanharam o bloco e sentiram de pertinho a razão de ele ser tão querido na cidade. É afeição que vira história.  


A crônica das ladeiras marianenses termina onde o sagrado e o profano se abraçam. Quando o sol finalmente se põe atrás das montanhas de Minas, e o glitter já se misturou ao suor das pessoas e à poeira das pedras, o que resta é a certeza de que a história não está apenas nos livros ou nos altares das igrejas. Ela está viva, pulsante, carregada nos ombros de jovens que sustentam, literalmente, o peso da tradição.


Enquanto a Charanga Oi’ Tô Tonto sopra as últimas notas da noite, a Primaz de Minas se recolhe. Mas o bumbo do Zé Pereira continua ecoando, um batimento cardíaco constante que garante que, no próximo fevereiro, a gravidade histórica será novamente suspensa para que a alegria possa reinar.



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