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Cobertura dos convênios de saúde é deficitária em Mariana

Ana Luíza Martins, Lauana Carvalho e Lavínia Firme
há 2 horas
5 min de leitura

Encontrar estabelecimentos e profissionais credenciados na cidade para atendimento por planos de saúde tem sido uma dificuldade para conveniados, gerando problemas para os pacientes locais que são forçados a recorrer aos serviços oferecidos pelo SUS

Beneficiários do plano de saúde também recorrem à rede pública mediante falta de cobertura dos convênios  | Foto: Lavínia Firme
Beneficiários do plano de saúde também recorrem à rede pública mediante falta de cobertura dos convênios  | Foto: Lavínia Firme

Segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), órgão de regulação e regulamentação do setor privado de planos de saúde no Brasil, os marianenses encontram obstáculos para marcar consultas e exames por intermédio dos convênios, mesmo com os pagamentos em dia. 


Apesar da diminuição no número de contratos de serviços de planos de saúde, com uma redução de aproximadamente 680 contratantes dos convênios na Região dos Inconfidentes entre 2025 e 2026, a rede credenciada no município ainda não é capaz de atender toda a demanda. Entre 20 e 26% dos brasileiros conveniados pagaram separadamente por atendimento particular devido à demora no atendimento pelos planos contratados, conforme indicam dados divulgados no Relatório Global sobre Saúde Corporativa de 2026, da  Howden Brasil, a maior corretora de seguros independente sediada fora dos Estados Unidos. 


O levantamento da ANS demonstra a perda de beneficiários, mas não expõe diretamente os motivos que levam esses consumidores a desistirem da rede privada, uma vez que os dados não indicam que a redução observada no número de beneficiários está necessariamente relacionada à rejeição dos usuários aos serviços oferecidos pelos planos. Porém, a decisão de manter ou não o convênio passa pela possibilidade de conseguir utilizar a rede credenciada quando necessário e pelos custos dos atendimentos.

Gráfico 1: Dificuldades em agendamento e reclamações contra convênios se mostram as principais queixas contra convênios | Produção: Letícia Gabrielli


Ainda segundo o estudo da Howden Brasil, 59,2% dos entrevistados brasileiros afirmaram enfrentar dificuldade em buscar atendimento médico devido aos custos de coparticipação ou reembolso. José Antônio de Souza Júnior, 39 anos, empresário e morador de Mariana, revela que, quando se trata de médicos especialistas, como um neurologista, é ainda mais difícil conseguir uma consulta ou arcar com o acréscimo da coparticipação. “Se eu usar muito ele [o plano] durante o mês, é perigoso ficar lá por 1.200 a 1.300 reais. Eu não sabia que tinha esse acréscimo”, explica o empresário.


No caso específico de Júnior, a necessidade do plano surge como uma precaução para futuras enfermidades. Embora faça pouco uso do serviço, o receio de precisar da internação ou outra emergência faz com que ele continue pagando o convênio. “Cada diária que você fica ali no hospital é caríssima. Se você precisa ficar internado uma semana, você paga, mas fica puxado”. 


Em uma breve reflexão, o empresário sugere que uma alternativa seria guardar todo mês o dinheiro que seria usado para pagar o plano e recorrer ao SUS para serviços e atendimentos básicos, como acompanhamento clínico e alguns exames. Dessa forma, o dinheiro economizado poderia ser usado para casos mais graves ou situações extremas que o serviço público não seria capaz de suportar.

#ParaTodosVerem: Em primeiro plano, um homem branco de cabelos escuros veste uma camiseta azul-marinho, com as mãos apoiadas sobre o balcão e sobre objetos à sua frente. Ao fundo, há prateleiras de vidro com panelas, utensílios de cozinha, facas, garrafas e outros produtos, além de um computador portátil sobre o balcão à direita. No lado esquerdo, há uma estante branca com papéis de presente, utensílios e outros objetos.
José Antônio de Souza Júnior, 39 anos, é um dos usuários que reclama dos altos custos do atendimentos do convênio | Foto: Lavínia Firme

As taxas altas de coparticipação não são exclusividades de planos empresariais, como no modelo contratado por Júnior, pois essa é uma realidade que atravessa a vida de vários moradores e trabalhadores da cidade. José Victor Melo Souza, 36 anos, operador de máquinas pesadas, tem o seu plano de saúde oferecido como um benefício da empresa mineradora em que trabalha. O fato de ser um plano corporativo não é sinônimo de atendimento fácil e com qualidade na rede credenciada, seja para pessoas beneficiárias titulares, por vínculo conjugal ou dependência. 


José Victor aponta que, além dos acréscimos de valores, a falta de estrutura das empresas credenciadas e do número de profissionais associados faz com que o atendimento não ocorra como esperado. Ele conta que viveu três momentos distintos na cidade desde sua chegada, há aproximadamente 15 anos, momento em que considerava o atendimento satisfatório. A situação ficou ainda mais tranquila após o rompimento da barragem de Fundão, há 11 anos, quando houve um esvaziamento da cidade, provocado pela redução no número de funcionários das empresas mineradoras, e consequente alívio na sobrecarga de atendimentos nos serviços de saúde privada. 


Porém, com a retomada das atividades minerárias e o aumento do número de trabalhadores contratados e terceirizados que recorrem aos serviços dos planos de saúde, na opinião de José Victor, o atendimento ficou bastante precarizado. Segundo o IBGE, Mariana registrou uma população flutuante de 144 mil pessoas nos primeiros quatro meses de 2026. Esse fluxo, associado principalmente à atividade minerária, aumenta a pressão na rede de saúde geral. “Agora, com o mercado de trabalho aquecido de novo, você vê que isso piora o plano de saúde, piora você andar na cidade. Essa cidade não é preparada para esse tanto de gente que tá aqui”, dispara ele.


No final de julho deste ano, após romper  o tendão em um acidente, José Victor precisou recorrer ao plano de saúde para sua reabilitação e, embora tenha conseguido passar pelo ortopedista, encontrar uma empresa de fisioterapia com vaga para o atendimento se mostrou uma dificuldade. “Eu liguei em duas clínicas primeiro. Fiquei uma semana ainda esperando, mas não me deram um retorno”, revela . Apenas na terceira tentativa, após semanas de espera, ele conseguiu iniciar seu tratamento.


Falta de suporte dos convênios aumenta demanda do SUS


Mesmo entre os trabalhadores que possuem convênios particulares celebrados de maneira independente ou oferecidos por empresas, o SUS continua sendo uma das principais vias de acesso aos serviços de saúde em Mariana. Segundo Aída Ribeiro Anaclet, 63 anos, atual presidente do Conselho Municipal de Saúde, parte dos convênios disponibilizados aos trabalhadores apresentam cobertura limitada, não garantindo a realização de exames e procedimentos. Com a necessidade de acompanhamento médico e clínico para estes pacientes, muitos passam a buscar atendimento na rede pública como forma mais rápida de dar continuidade aos tratamentos.

#ParaTodosVerem: Em primeiro plano, uma pessoa veste camiseta listrada nas cores verde, azul-marinho e branca e calça cinza, segurando diversos papéis brancos nas mãos. Ao fundo, há uma cadeira à esquerda, além de uma parede clara, uma bancada e iluminação linear amarela.
Demora e obstáculos no agendamento de consultas voltam a afetar usuários da rede privada de saúde. | Foto: Lavínia Firme 

A conselheira cita a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) como exemplo de acolhimento a essas demandas. De acordo com Aída, o serviço público oferece exames que podem ser realizados de forma imediata, por meio de atendimentos que, segundo ela, nem sempre estão disponíveis nos planos oferecidos pelas empresas. O alto número de colaboradores das mineradoras que recorrem ao atendimento médico na cidade de Mariana sobrecarrega a rede pública de saúde tanto em quantidade e qualidade dos serviços, como na aplicação de recursos, uma vez que a destinação da verba para a área leva em consideração o número de usuários registrados no município, sem contar essa população flutuante. 


Dessa forma, o número de pessoas atendidas passa a ser maior do que o considerado para o repasse. “O recurso que chega na cidade, ele chega através da série histórica que é encaminhada para o SUS. No ano de 2025, foi encaminhado o número de usuários do SUS registrados no IBGE. Então, o recurso que vai vir é baseado nestes dados”, explica Aída. Essa disparidade acontece porque os moradores temporários não transferem o cartão do SUS para o município, fazendo com que o repasse da verba que seria para o tratamento dessas pessoas não chegue na cidade em que estão morando ou aonde buscam atendimento.


Por isso, apesar dos planos representarem uma ferramenta de segurança para os trabalhadores e moradores locais, as dificuldades para acessar a rede credenciada, os custos de coparticipação e a demora para a realização de procedimentos, levam os usuários a procurar alternativas para não abandonar o cuidado com sua saúde. 


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O Lampião é o jornal-laboratório do curso de jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), produzido durante a disciplina Laboratório Integrado I - Cobertura Noticiosa Hiperlocal.

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