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Conspirados abre o Carnaval de Ouro Preto com inclusão e protagonismo

  • Danielle Leal e Milene Latarulo
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

47° edição


Ao ocupar o centro histórico com o desfile de usuários dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), o Bloco reafirma, em pleno Carnaval, a luta antimanicomial e o direito à cidade.


Busto de dois bonecos gigantes de Olinda em destaque: em primeiro plano, uma figura feminina sorridente (sem os dentes da frente), com brincos e vestido colorido; ao fundo, há outro boneco utilizando uma máscara dourada e adereço verde vibrante.
Boneco de Olinda em homenagem a Dinalva, falecida moradora de Ouro Preto e usuária do CAPS que fortaleceu o lugar de cuidado em liberdade e redução de danos na Rede de Atenção Psicossocial. | Foto: Milene Latarulo

Na quinta-feira (12) que antecede o carnaval oficial de Ouro Preto, é o Bloco Conspirados que dá início à festa. Criado no ano 2000, o bloco ocupa o centro histórico da cidade para afirmar que saúde mental, cultura e cidadania caminham juntas na expectativa de romper estigmas, fortalecer vínculos comunitários e mostrar que o Carnaval é território de inclusão e protagonismo.


Formado por usuários e seus familiares, colaboradores e amigos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), além de parceiros como a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), o bloco desce as ladeiras da cidade levando marchinhas e histórias de vida. Além de abrir oficialmente um dos Carnavais mais tradicionais do interior do país, ele é sucedido pelo também conhecido Bloco Vermelho i Branco, que aglomera grande número de  foliões em Ouro Preto. 


Conspirador significa uma pessoa que conspira, que trama. O nome “Conspirados” vem dessa brincadeira, porque eles saiam para as ruas sem avisar, de surpresa. Os Conspirados reafirmam um princípio da Reforma Psiquiátrica: o cuidado em liberdade, exercido no espaço público e na convivência diária. A Reforma Psiquiátrica no Brasil, consolidada pela Lei 10.216 de 2001, substituiu o modelo asilar e manicomial por um sistema comunitário. Priorizando tratamento em liberdade e os direitos humanos, com foco na reinserção social, é utilizada a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), com destaque para os Caps e Residências Terapêuticas. 


Para entender a estigmatização da saúde mental em Ouro Preto é importante voltar aos anos 70, época em que o serviço recolhia moradores de rua, alcoólicos, mães solteiras e pessoas com transtornos mentais e os mandava para um hospital psiquiátrico em Barbacena. Essa higienização social ficou conhecida como “Holocausto Brasileiro”, em função dos horrores sofridos pelos pacientes que viviam em condições de tortura e negligência. No Hospital Colônia de Barbacena , cerca de 60 mil pessoas morreram entre 1930 e 1980.

 

Em 1988 houve a criação do Sistema Único de Saúde (SUS), que determinou ao Estado a garantia de saúde a toda população brasileira. Em 1993 foi criado o Serviço de Saúde Mental de Ouro Preto para tentar solucionar os problemas de atendimento na cidade e que, após a Reforma Psiquiátrica de 2001, transformou-se no CAPS Ouro Preto. Em 2008 passa a  funcionar o CapsAD e o CAPSI, dando início à construção da RAPS. 


José de Magalhães Gomes, 54 anos, funcionário da Secretaria de Saúde da cidade, começou seu tratamento no CAPS há quatro meses e acredita que esse tipo de atendimento e serviço ajuda as pessoas a mudar de vida. “O CAPS não é para sempre, é um lugar de passagem, mas que ajuda a gente a atravessar um momento complicado com tranquilidade e apoio profissional. Que a população de Ouro Preto não tenha medo nem preconceito de procurar o CAPS. Eles estão lá esperando que a gente peça ajuda e comece a escrever uma nova fase da vida, uma nova história.” 


Esse é o primeiro ano em que Zezé, como ele é conhecido, participa do bloco. Responsável pelo tarol, um instrumento de percussão de som e estalado, ele conta que nunca havia tocado na vida. Com sua participação no bloco, também aprendeu a tocar bumbo, outro instrumento conhecido por produzir um som grave. Além disso, Zezé compôs a marchinha do bloco para esse ano. Ele conta que sua inspiração veio a partir de um dia em que estavam reunidos no CAPS: “Naquele momento, veio na minha mente a ideia de compor a marchinha de acordo com o que eu estava vivendo no dia a dia do tratamento no CAPS”, conta Gomes. 


Marchinha: 

Um dia desanimado 

Pensei que era o fim 

Cheguei até o CAPS

O CAPS cuidou de mim 


CAPS, CAPS, CAPS,

Um lugar de se cuidar 

Cuidar, cuidar, cuidar,

Da Saúde Mental. (2x)


#ParaTodosVerem: Três homens estão sentados em uma sala com estantes de partitura ao fundo. Dois deles tocam instrumentos de percussão: à esquerda, um homem mais velho, com cabelos e bigode brancos, segura um pandeiro; à direita, outro homem de meia idade toca uma caixa com baquetas. Ao fundo, um terceiro homem mais novo, de cabelos e barba preta, observa. O ambiente lembra uma sala de ensaio musical, com paredes claras e janelas azuis.
Usuários do CAPS ensaiando as marchinhas de carnaval para sair no desfile juntamente com a banda. | Foto: Milene Latarulo

O carnaval para além dos bloquinhos 


De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), atividades culturais como música e artes ajudam a diminuir o estresse e a ansiedade, trazendo benefícios para a saúde mental e física das pessoas. Pensando nisso, o CAPS investe em atividades multiculturais, como o desfile que acontece dia 18 de maio, celebrando o Dia da Luta Antimanicomial. 


Taciana de Oliveira, 36, trabalha como enfermeira em uma das casas terapêuticas que compõem o CAPS. Segundo ela, as transformações após a participação no bloco de carnaval são visíveis: os usuários ganham mais autonomia e ainda desenvolvem suas percepções de identidade, desejo e pertencimento: “A participação do bloco gera efeitos terapêuticos que não cabem em protocolos clínicos.”, afirma a enfermeira. 


As preparações para o bloco começam bem antes do carnaval, marcadas por oficinas, confecção de fantasias e encontros com muito diálogo. Para este ano, os ensaios da banda começaram em setembro, envolvendo usuários, parceiros da comunidade e familiares. Todos os pacientes podem participar, mas fica à escolha deles, caso se identifiquem com a atividade ou tenham interesse.


#ParaTodosVerem:  Quadros de pinturas coloridas expostos em uma parede clara. As obras têm estilo livre com casas, igrejas, corações, flores, paisagens, figuras humanas e elementos abstratos, formando um mosaico artístico diverso e alegre. No centro, um quadro maior traz uma personagem sorridente com vestido azul e vermelho, braços abertos, sob um céu azul-escuro com estrelas, nuvens, arco-íris e sol. Na parte inferior do vestido está escrito “Bloco Conspirados” e ao centro “Libertas que será tão bom”. 
Pinturas realizadas pelos usuários do CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial - Álcool e drogas) em uma das oficinas de arte. | Foto: Milene Latarulo  

Carlos Eduardo Nunes Pereira, mais conhecido como Kako Nabuco, foi monitor da Saúde Mental de Ouro Preto entre 1999 e 2008, assumindo a coordenação do serviço deste ano até o final de 2012. Kako acompanhou de perto o começo do bloco, já que ele foi contratado como monitor justamente para ajudar nas oficinas que aconteciam durante todo o ano em preparação para o bloco. “Foi muito importante o trabalho das oficinas, porque a gente passava o ano inteiro produzindo o desfile, da mesma forma que uma escola de samba se prepara o ano todo”, diz Kako.


A presença dos usuários diretamente no carnaval, participando das oficinas, ensaios e do desfile no dia da abertura atinge diretamente o preconceito de quem acha que eles são incapazes. Nesse dia de folia, eles vão pra rua provar que o carnaval é feito para todos e, conforme atesta Kako, quem desfila no Conspirados cria um grande amor pelo bloco.


“O Carnaval persiste, ele resistiu à Inquisição, a todas as injustiças, porque a própria Igreja, a própria Inquisição, percebia a necessidade de dar, naquele tempo, uma maluquice para as pessoas suportarem o ano inteiro. E são essas coincidências que formaram o potencial especial do Conspirados”, explica Kako Nabuco. 


O Bloco dos Conspirados carrega histórias,  alegrias e agita Ouro Preto desde o ano 2000 no início dos festejos de carnaval. Em 2026, o Conspirados ocupará as ruas na quinta-feira, dia 12 de fevereiro. Às 16hs, o bloco sai da Praça Tiradentes e desce as ladeiras da cidade em direção ao bairro Rosário. Seu desfile é regado de festividade: ao som das marchinhas autorais e adornado pelas criações artísticas dos usuários do CAPS, como as fantasias, bonecos de Olinda e estandartes inspiradores, o Bloco dos Conspirados celebra o carnaval com liberdade, diversidade e inclusão. Sua celebração é fruto da coletividade que reconhece o festejar como um direito de todos, rompendo com o histórico de estigmas e preconceitos.


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